A cidade ensina, mas não tem alunos 

03/07/26
Por Maurício Costa de Carvalho

Milton Santos, geógrafo e intelectual negro brasileiro de projeção internacional, teve uma vida dedicada a entender o poder transformador das cidades. Neste ano de seu centenário, uma justa homenagem é celebrá-lo sem diminuir a exigência política que sua obra nos deixou. Para ele, a cidade e as periferias ensinam. Mas suas lições não se transformam sozinhas em consciência, organização ou projeto de mudança. 

Em 1993, no influente artigo Metrópole: a força dos fracos é seu tempo lento, Milton Santos discutiu o contraste entre o tempo acelerado das grandes cidades e os “tempos lentos” que emergiam dos espaços de pobreza como força criativa e solidária, capaz de desafiar a perversidade dos tempos rápidos da competitividade. 

Por ser o lugar onde esses tempos — o da mundialização capitalista e o da humanidade concreta — mais se entrelaçam e se chocam, a cidade seria também “o lugar da educação e da reeducação”. Nela, os sujeitos comuns poderiam desvendar a realidade perversa e entrever outras possibilidades de futuro. Assim, “quanto maior a cidade, mais numeroso e significativo o movimento, mais vasta e densa a co-presença e também maiores as lições e o aprendizado”. 

Essa compreensão do papel educador das cidades foi um dos pilares do edifício teórico de Milton Santos. Desde a década de 1950, ele já desenvolvia estudos sobre cidades dos países subdesenvolvidos. Mas foi sobretudo a partir do exílio, entre 1964 e 1977, em contato mais sistemático com o marxismo e a economia política, que amadureceu sua teoria sobre a urbanização a partir do chamado Terceiro Mundo. 

A originalidade dessa teoria estava em partir da especificidade da urbanização periférica para enxergar a totalidade do mundo. Diferentemente de abordagens que explicavam as contradições brasileiras recorrendo frequentemente ao campo, tais desigualdades seriam, em Milton Santos, visivelmente urbanas. E, distintamente das teorias que compreendiam a cidade capitalista a partir da experiência europeia de

industrialização, o geógrafo brasileiro elaborava um pensamento sobre o urbano e sobre o mundo nascido das contradições da periferia. 

Daí deriva a força de sua contribuição à geografia, mas também seu posicionamento político: a convicção de que as cidades, as periferias do mundo e seus sujeitos são centrais nos processos estruturais de transformação social. No Brasil, essa centralidade da periferia tem cor, território e história: é inseparável da experiência negra, trabalhadora e migrante que sustenta, enfrenta e reinventa cotidianamente a cidade. 

Periferias no centro de uma nova história 

Por essa lente, Milton Santos enxergaria também a emergência da globalização capitalista e, a partir dela, as possibilidades de construção de uma outra globalização. Em Por uma outra globalização: do pensamento único à consciência universal, um de seus livros mais políticos, publicado em 2000, afirmaria que as periferias seriam “o novo fator dinâmico da história”. 

Nelas, as ideologias que escondem o caráter perverso, autoritário e multiplicador de desigualdades da globalização seriam desvendadas mais rapidamente. O contraste entre o discurso que exalta o mercado globalizado e a multiplicação de carências poderia levar os países pobres, de maneira desigual, a rever os pactos globais, relativizar os supostos benefícios da globalização e abrir caminho a uma globalização distinta da hegemônica, construída “de baixo para cima”. 

Longe de ser desejo abstrato ou visão premonitória, essa possibilidade estaria posta nas contradições abertas pelo próprio curso de afirmação da globalização capitalista. Seriam os pobres, “os de baixo”, reunidos em aglomerações cada vez maiores, os primeiros a apreender os limites dessa ordem, justamente porque as fábulas da aldeia global, da ubiquidade e da velocidade ao alcance de todos não encontram correspondência em sua existência concreta. 

Os próprios instrumentos da globalização — técnicas, informação, expansão urbana e migrações — aprofundam a escassez e a pobreza, mas também possibilitam o avanço da consciência. A informação mundializada, mesmo enviesada, permite

vislumbrar outras realidades. O contato entre migrantes, trajetórias e experiências distintas autoriza enxergar a história como situação e processo. 

Contra a lógica vertical das grandes empresas, dos mercados e das normas globais, a vida cotidiana produz relações horizontais: vizinhança, solidariedade, improviso, criação, conflito e negociação. É nesse espaço banal, espaço de todos, de disputa entre possibilidades, que a cidade também educa. 

A existência como pedagogia 

Como lugar, a cidade é, para Santos, o espaço do exercício da existência plena, onde o singular e o global se encontram e se tensionam. É nos lugares, onde o cotidiano é vivido, que convivem em conflito a racionalidade hegemônica e a contraordem protagonizada pelos “homens lentos” que, sob os efeitos da vizinhança e da co-presença, não podem obedecer permanentemente às normas rígidas e ao tempo veloz do capital. 

Daí também a proliferação de “ilegais”, “irregulares” e “informais” nas cidades, não como patologia social, mas como expressão de rebeldia: uma recusa, muitas vezes não nomeada, à ordem que multiplica a subalternidade. São essas contra-racionalidades que, em Santos, abrem o horizonte de outra globalização, construída desde baixo, a partir dos lugares e de seus sujeitos. 

Mas o problema central, como o próprio Santos formula, é “como passar de uma situação crítica a uma visão crítica e, em seguida, alcançar uma tomada de consciência”. A resposta inicial está na própria existência: “obedecer para subsistir e resistir para poder pensar o futuro”. É nesse paradoxo vivido que a existência se torna produtora de sua própria pedagogia transformadora. 

Contudo, a pedagogia da existência é ponto de partida, não de chegada. Se, para o geógrafo, a existência, sobretudo pelo trabalho, é uma ponte entre a necessidade e o entendimento, a consciência da diferença pode conduzir também à defesa individualista do próprio interesse, sem alcançar a elaboração de um sistema alternativo de ideias e de vida.

O imediatismo contido em soluções eleitoralistas e interesseiras não se converte automaticamente em visão finalística. A ação cotidiana não substitui a busca política genuína por respostas estruturais e duradouras. A cidade ensina, mas a experiência urbana da escassez não produz, por si mesma, consciência emancipatória. 

Da pedagogia ao projeto 

A crescente retomada de Milton Santos nos debates sobre cidade, território e desigualdade é um acontecimento importante e bem-vindo. Mas algumas leituras apressadas podem levar a equívocos relevantes na interpretação de sua obra. Um dos mais importantes é a visão de sua teoria dentro de uma espécie de fatalismo histórico, como se bastasse a escassez existir para que a transformação se produzisse espontaneamente. 

Essa leitura esvazia justamente o caráter mais propositivo e político de sua pedagogia da existência: aquele que insiste na necessidade de organização consciente e de projeto político nacional, construídos no seio das contradições da globalização nos lugares. 

Para o geógrafo, organizações e movimentos políticos estruturados são importantes quando não se divorciam do movimento cotidiano das pessoas. Seu papel não deveria ser substituir a riqueza do pragmatismo existencial, mas partir de um “mimetismo” dele e atuar como instrumento agregador de forças distintas e afins, capaz de levar a resistência e a luta a outro patamar. 

Da mesma forma, frente aos projetos das grandes empresas, seria necessário apresentar plataformas conduzidas por objetivos políticos e sociais explícitos, orientados por visões de conjunto, capazes de resgatar as noções de história, sentido e projeto nacionais. 

Sem esses elementos, o que resta é o reino da ideologia. A globalização como fábula também pode ser reencenada sob novas roupagens: pela proliferação de negócios particulares fragmentados disfarçados de ascensão social coletiva; pelo uso estético da força criativa popular como vetor de mercado; ou pela conversão do potencial transformador da periferia em afirmação da ordem.

Nesse processo, as políticas das grandes empresas e as iniciativas particularistas, inclusive do chamado terceiro setor, podem desempenhar papel ambíguo. Ainda que partam do reconhecimento da criatividade produzida pela escassez e das soluções gestadas nas periferias, quando carecem de projeto político de transformação estrutural, dificilmente se convertem em instrumentos reais de disputa contra-hegemônica. 

Para Santos, fora de uma visão de conjunto, o que se busca é “encontrar formas de proteção a certos pobres e a certos ricos, escolhidos segundo os interesses dos doadores”. As mesmas empresas que financiam projetos sociais são, em sua prática macroeconômica, produtoras em escala da pobreza que dizem combater. 

O resultado é uma fragmentação do território que ideologiza e aliena: substitui a luta política por mudanças estruturais por reivindicações pontuais, compensa no plano subnacional o que se destrói no plano nacional e decreta, nas palavras de Santos, “a morte da Política”. 

A cidade, a política e o futuro 

A ausência de Política e de projeto não se dá impunemente na história. Para Santos, o mundo é formado pelo que existe, mas também pelo que pode existir. “O futuro são muitos” e serão resultado de diferentes arranjos entre o reino das possibilidades e o reino da vontade, isto é, da disputa de forças entre projetos capazes de atuar sobre estruturas dominantes, presentes ou herdadas. 

Entre essas possibilidades, portanto, não estão apenas as de caráter emancipador. As diversas formas de autoritarismo — ou, no léxico de Santos, de “globalitarismo” — dão voltas como um parafuso. A racionalidade totalitária aprofunda a violência estrutural e histórica e, ao fazê-lo, produz “novos” discursos de alternativa que a justificam. 

Em Itália e Espanha, texto escrito em 1921, Antonio Gramsci retratava a ascensão internacional do fascismo como “a tentativa de resolver os problemas da produção e da troca através de rajadas de metralhadora e de tiros de pistola”. No mesmo escrito, advertia: “a ilusão é o alimento mais tenaz da consciência coletiva”.

Lidas juntas, as frases seguem extremamente atuais. A exaltação da violência do presente, multiplicada na ascensão da extrema direita e do neofascismo e em suas propostas de soluções ilusórias para os conflitos das cidades e de suas periferias, não encontra automaticamente sua recusa consciente. Ao contrário: pode ser naturalizada, fragmentada em sofrimentos individuais ou capturada por iniciativas que a reproduzem ou a acobertam sob novas formas. Os alvos desse rito são historicamente conhecidos: pobres, trabalhadores, populações periféricas, pessoas negras, mulheres, imigrantes e pessoas LGBTQIA+. 

Gramsci concluía seu texto advertindo: “a história ensina, mas não tem alunos”. 

Milton Santos diria que, embora as condições técnicas e materiais existentes permitam mudanças no mundo, “seu destino vai depender de como disponibilidades e possibilidades serão aproveitadas pela política”. 

A cidade guarda ensinamentos que, como os da história, ainda podem ser aprendidos. A questão é se seremos alunos.


Sobre a série especial 100 anos de Milton Santo, exclusiva no Portal Geledés

Neste ano de 2026, celebramos 100 anos do nascimento de Milton Santos, um dos maiores intelectuais do país. Geógrafo, escritor e professor, sua obra aprofunda conceitos fundamentais para compreender o espaço geográfico, discute a globalização e antecipa reflexões críticas sobre tecnologia, bem como expõe a urbanização desigual e o protagonismo das periferias na produção de conhecimento.

A grandeza de suas contribuições foi reconhecida nacional e internacionalmente. Professor Emérito da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas e Titular do Departamento de Geografia na Universidade de São Paulo, Milton Santos recebeu o título de Doutor Honoris Causa em universidades no Brasil, na França e na Espanha. Em 1994, foi condecorado com o Prêmio Internacional Vautrin Lud, grande honraria da geografia mundial, e um ano depois, em 1995, recebeu o Prêmio Jabuti pela obra “A Natureza do Espaço”.

Em homenagem ao seu legado, o Portal Geledés apresenta uma série semanal de artigos inéditos, escritos por pessoas que o estudam, desenvolvem pesquisas a partir de sua obra ou se relacionam politicamente com suas posições e falas. Ao final, os textos farão parte de um dossiê que celebra Milton Santos. Agradecemos a cada autor e autora que aceitou fazer parte desta celebração.


Maurício Costa de Carvalho é professor do Instituto Federal de São Paulo (IFSP), geógrafo, mestre em Geografia Humana pela Universidade de São Paulo (USP) e doutorando em Ciência Política na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Pesquisador no Fundo Milton Santos do Instituto de Estudos Brasileiros da USP (IEB-USP).

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