A iniciativa de Geledés – Instituto da Mulher Negra em homenagear o centenário de nascimento do Profº Milton Santos soma-se a uma multiplicidade de atividades de afirmação do reconhecimento de um dos maiores e mais importantes intelectuais brasileiros dentro e fora do ambiente acadêmico universitário (sua principal, mas não única, arena de debates). O que significa dizer que Milton Santos há muito reverbera e transborda na sociedade brasileira para além do ambiente universitário/acadêmico. Assim, organizei este texto em 3 movimentos: o compartilhamento de uma experiência universitária, sua influência na arte contemporânea brasileira e sua inspiração para movimentos sociais no campo e na cidade.
Os 3 movimentos evocam a utopia do que o Profº Milton Santos chamou de período popular da história1, pois as sementes do referido período já foram germinadas e, mais do que isso, florescem hoje nos bancos universitários brasileiros, na arte popular, nos movimentos sociais contemporâneos.
Há mais de duas décadas, quando as políticas afirmativas e as consequentes cotas raciais ainda não eram realidade no país, ocupei os bancos da Universidade pública brasileira e, num curso de Geografia, aprendi a ler, pensar, compreender, experimentar e interpretar o espaço geográfico. Influenciada pelo pensamento e ensinamento do Profº Milton Santos2, aprendi que espaço, paisagem, território, lugar, região não são palavras de significados e definições assemelhados; mas categorias analíticas basilares da nossa disciplina. Ferramentas imprescindíveis para a interpretação da realidade, fosse aquela de ordem próxima (o próprio bairro, ou a própria cidade), ou aquela de ordem distante (o mundo mesmo). Proximidade e distância aqui são meros artifícios de abstração, dado que bairro, cidade, país estão contidos no mundo, de modo que a ideia de totalidade, também apreciada e refletida por Milton Santos, é norteadora do permanente exercício de compreensão e interpretação do espaço geográfico, entendido por ele como um sistema indissociável de objetos e ações.
Atualmente trabalho na Universidade Federal do ABC (UFABC), instituição de ensino superior federal localizada na região metropolitana paulistana, em São Bernardo do Campo. No último período (entre fevereiro e maio de 2026) ministrei uma disciplina introdutória intitulada Território e Sociedade, ofertada a alunos ingressantes do Bacharelado em Ciências e Humanidades. Este detalhe, é importante por duas razões: a) São alunos que estão cursando o primeiro ano de uma Graduação, e b) São alunos que ainda não estão vinculados a nenhum curso específico do núcleo das Humanidades nesta Universidade: Planejamento Territorial, Políticas Públicas, Filosofia, Relações Internacionais e Economia.
Do ponto de vista do perfil socioeconômico, são alunos residentes na própria região do ABC paulista, mas também da cidade de São Paulo; muitos dos quais ingressantes na Universidade via políticas afirmativas, e são em sua maioria alunos trabalhadores, alguns deles, inclusive, cumprindo contratos de estágio, já no contexto das oportunidades relacionadas ao âmbito universitário.
Na ementa da referida disciplina, obras clássicas do Profº Milton Santos são obrigatórias e este momento de aprofundamento em suas reflexões e conceitos é revelador para os alunos, pois já apropriados de capacidade de abstração, relação e elaboração, eles conectam os ensinamentos do Profº Milton Santos às suas realidades e suas posições no mundo.
Paralelamente à Sala de Aula, sou pesquisadora dedicada a estudos ligados à cidade, ao urbano, e à urbanização e, já há algum tempo, tenho estado interessada em como citadinos (habitantes das cidades) realizam seus deslocamentos para o cumprimento de atividades cotidianas variadas.
Dentro do ambiente acadêmico, costumeiramente enquadramos este tipo de preocupação na seara de estudo da mobilidade urbana, que invariavelmente registra os padrões das viagens dos usuários dentro dos sistemas de transportes e infraestruturais urbanas oficiais (modais, tempo, origem e destino). Fora deste ambiente, por outro lado, as pessoas tratam como obviedades a demora do itinerário, a insuficiência da oferta e o alto custo das tarifas praticadas. Entre uma abordagem e outra, porém, há uma série de importantes aspectos a serem considerados para o estudo e avanço dos estudos de mobilidade.
Desse modo, propus como uma das atividades parciais de avaliação do curso o registro e reflexão de um Percurso Cotidiano realizado pelos alunos, partindo do pressuposto de que, se são estudantes, calouros, inexperientes, são citadinos e trabalhadores bastante experientes. Essa atividade inspirada pelos debates coletivos prévios em Sala de Aula, registrada de forma orientada – mas ainda assim com espaço para criação e subjetividade – resultou em experiência potencializadora do processo pedagógico per si, reiterou a espantosa atualidade das reflexões do Profº Milton Santos, e instrumentalizou jovens adultos sobre a importância de pensar o espaço do cidadão, do território e de seus usos, da urbanização, da técnica, da informação, da globalização e de suas perversidades, da totalidade…. independentemente de qual carreira acadêmica seguirão.
As origens e os destinos dos percursos realizados admitiram diferentes possibilidades: casa → trabalho, casa → universidade, trabalho → universidade, casa → lazer, universidade → casa, etc. Os critérios foram construídos pelos próprios estudantes: dificuldade, intermodalidade, custo, duração, repetição, memória, etc.
Houve casos de percursos entre centro e periferia, entre periferia e centro, entre periferia e periferia e a dinâmica metropolitana se revelou como extrapolação em muitos casos. Se na maioria dos casos os locais de residência dos estudantes são os municípios da região do ABC paulista: São Bernardo, Santo André, Mauá, e os postos de trabalho estão na cidade de São Paulo3, houve casos de estudantes que cruzam três municípios no mesmo dia: São Paulo, Santo André, e São Bernardo, ou mesmo quatro: Guarulhos, São Paulo, Santo André e São Bernardo; Diadema, São Paulo, Santo André e São Bernardo.
Além dos tempos e custos, importaram para a atividade as distâncias espaciais, os obstáculos, as estratégias, as interrupções, os tempos mortos, a exaustão, as emoções, os cálculos, as sobras, as ausências, os medos, a solidariedade, os códigos, as condutas e normas tácitas, as percepções, tudo aquilo que os aplicativos de rotas e percursos não captam.
Depois de realizados e registrados os percursos, os estudantes apresentaram suas experiências em Sala de Aula em momento de extraordinária troca e aprendizado4.
Fizeram parte de suas análises o conjunto dos objetos técnicos presentes na cidade – as infraestruturas viárias de pistas, viadutos, pontes, avenidas, rodovias; a infraestrutura de transporte: ciclo, rodo e metroferroviário bem como as plataformas, escadas, catracas, passarelas, vagões, sinalizações. A densidade das estruturas em um ponto, a rarefação em outros. As desigualdades e diferenças na oferta, no acesso, nos serviços, nos edifícios, na paisagem, na interação entre as pessoas. Perceberam e enfatizaram a cidade aos pedaços, os fragmentos, as partes do todo e o todo das partes. A própria cidade foi percebida e sentida como um meta objeto técnico, no qual a materialidade do espaço como acumulação desigual de tempos se escancarou.
Profº Milton Santos compreendeu e nos ensinou, ao longo de seu percurso intelectual, os meandros e as evoluções da técnica, do meio técnico, do meio técnico científico informacional. Àquela altura não estávamos todos rendidos ao universo digital de modo integral e absoluto. Meus estudantes, na quadra dos 20 anos, representam a geração dos nativos digitais, que não sabem de onde vem a expressão “cair a ficha”, e cujos aparelhos portáveis em suas ávidas mãos há muito já não são e não performam apenas as funções de um telefone, são sim pequenos e eficientes computadores pessoais, “smartphones”. De onde provém uma infinidade de informações e técnicas tão profusas e úteis quanto perigosas, porque confundem gestão do tempo e ingerência da vida, sugestão de consumo e imposição de desejo, facilidades e vigilância, entretenimento e controle, concentração e dispersão, atenção e descarte, medo e vontade, empolgação e repulsa, insatisfação e alegria, realidade e ilusão. Assim, nesta quadra da história, tecnoesfera e psicoesfera não são esferas complementares, mas amalgamadas, indissociáveis.
Os mesmos smartphones sugerem opções de rotas, mas não conhecem os atalhos e as estratégias para encurtar ou otimizar o caminho. Também eles ao mesmo tempo em que informam as horas e cronometram o tempo sempre exíguo na/da metrópole infinda, distraem e entretém, para outros ajuda a organizar a rotina das tarefas universitárias. Quando tomam as ruas, para proteger este objeto técnico soberano o passo é apressado, a multidão é escudo, o medo é companheiro. Afinal, a natureza do espaço é composta de técnica e tempo, razão e emoção…..
Fora da academia, sobretudo na área da cultura e das artes, proliferam-se criações nas quais vida e obra de Milton Santos são argumentos ou inspiração. Cito algumas: Em 2006 Silvio Tendler dirigiu o excelente documentário “Encontro com Milton Santos: o mundo visto do lado de cá” cujo roteiro dialoga diretamente com sua obra “Por uma outra globalização”. Em 2016 Salloma Salomão escreveu e dirigiu uma peça de teatro nomeada “3 Mil Tons”, homenageando três personalidades negras brasileiras: o intelectual Milton Santos, o ator Milton Gonçalves, e o cantor Milton Nascimento. Em 2021 o portal de jornalismo O Joio e o Trigo produziu episódio para o podcast Prato Cheio intitulado “O que Milton Santos diria do iFood”, discutindo a uberização do trabalho a partir de sua teoria dos dois circuitos da economia urbana. Também em 2021 foi lançada sua biografia em língua inglesa “Milton Santos Comic Book Biography”. Em 2023 o Itaú Cultural promoveu a “Ocupação Milton Santos”, exposição multimídia em cartaz durante três meses em São Paulo. Tais atividades exemplificam como a relevância de seu legado e a capilaridade de seu pensamento alcançam o grande público sem perder a força; bem ao contrário, se fortalecem quanto mais popular tornam-se.
No interior do Estado de São Paulo, localizado nos municípios de Americana e Cosmópolis, está o Assentamento Milton Santos, projeto de reforma agrária do governo federal liderado pelo Movimento dos Trabalhadores Sem Terra. Já na cidade de São Paulo, no bairro da Penha, o Residencial Milton Santos é um conjunto habitacional gerido pelo Movimento dos Trabalhadores Sem Terra Leste 1, financiado pelo Programa Minha Casa Minha Vida – Entidades, ainda em fase de construção para centenas de famílias. Em ambos os casos, a escolha do nome de Milton Santos para batizar os projetos não se deu por mero acaso. Aqueles que acompanham os movimentos sociais mais de perto sabem que diversas atividades de formação fazem parte do cotidiano dessas organizações. Portanto, nomes de personalidades do pensamento social brasileiro e/ou lideranças populares já fazem parte do corpus da luta. A inspiração nunca é gratuita! A narrativa aqui referenciada na realidade metropolitana paulistana e sudestina brasileira não me isenta de registrar a fecundidade e a sofisticação da contribuição do pensamento miltoniano no desvendamento de outras realidades e escalas. De tal modo que foram também objeto de suas análises e formulações questões filosóficas mais gerais a respeito do espaço e da ciência geográfica, a urbanização dos países subdesenvolvidos, a função do profissional geógrafo nesses países, a formação socioespacial do complexo espaço brasileiro e sua criteriosa proposta de regionalização dos “Quatro Brasis” baseada na infraestrutura, na difusão tecnológica e no acesso à informação, dentre outras.
O movimento aqui apresentado nos mostra então que a separação entre o intelectual, o homem público e o popular não existe! Milton Santos segue formando e informando, transbordando vidas e artes, preenchendo os interstícios, encaixando a experiência da existência com a responsabilidade da consciência cujo horizonte é a cidadania como práxis. Dentro e fora da Universidade, seu pensamento,ainda e por muito tempo, prenhe de sentido, significado, validade. A iniciativa de Geledés – Instituto da Mulher Negra, com a série 100 Anos de Milton Santos, contribui para amplificar tanto mais todas as vozes que ecoam Milton Santos!
Sobre a série especial 100 anos de Milton Santo, exclusiva no Portal Geledés
Neste ano de 2026, celebramos 100 anos do nascimento de Milton Santos, um dos maiores intelectuais negros do país. Geógrafo, escritor e professor, sua obra aprofunda conceitos fundamentais para compreender o espaço geográfico, discute a globalização e antecipa reflexões críticas sobre tecnologia, bem como expõe a urbanização desigual e o protagonismo das periferias na produção de conhecimento.
A grandeza de suas contribuições foi reconhecida nacional e internacionalmente. Professor Emérito da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas e Titular do Departamento de Geografia na Universidade de São Paulo, Milton Santos recebeu o título de Doutor Honoris Causa em universidades no Brasil, na França e na Espanha. Em 1994, foi condecorado com o Prêmio Internacional Vautrin Lud, grande honraria da geografia mundial, e um ano depois, em 1995, recebeu o Prêmio Jabuti pela obra “A Natureza do Espaço”.
Em homenagem ao seu legado, o Portal Geledés apresenta uma série semanal de artigos inéditos, escritos por pessoas que o estudam, desenvolvem pesquisas a partir de sua obra ou se relacionam politicamente com suas posições e falas. Ao final, os textos farão parte de um dossiê que celebra Milton Santos. Agradecemos a cada autor e autora que aceitou fazer parte desta celebração.
Referências
- Palavras, termos e expressões destacados em itálicos são ou fazem parte do corpo teórico analítico e conceitual do Profº Milton Santos. ↩︎
- Dentre outros professores como Maria Encarnação Sposito, Bernardo Mançano Fernandes, Antônio Tomás Jr. ↩︎
- Mesmo no caso dos estudantes que optaram como critério de escolha o percurso entre casa e universidade, esse raciocínio seguiu válido. ↩︎
- A partir daqui registro notas analíticas e de interpretação minhas misturadas às deles. ↩︎