Antes do amanhecer, mulheres negras já estão de pé na capital maranhense, São Luís. Algumas, dentro de ocupações urbanas do Centro Histórico, acendem o fogão cedo para preparar o que venderão ao longo do dia; outras, moradoras das profundas periferias, organizam marmitas, bolos, mingaus, milho cozido ou salgados que circularão entre terminais de ônibus, mercados populares e esquinas movimentadas da cidade. Muitas sairão a pé, carregando sacolas com as provisões, isopores ou carrinhos improvisados. Alimentarão trabalhadores apressados, passageiros em deslocamento, gente que atravessa a cidade com fome e com poucos recursos. Algumas delas, paradoxalmente, também convivem em estado de alerta, angústia e incertezas do que irão comer ao longo do dia, até o final do mês. No centenário de Milton Santos, é justamente nessa “geografia das existências” que a atualidade de seu pensamento se faz presente.
Intelectual negro, geógrafo brasileiro de alcance mundial e um dos mais importantes intérpretes das desigualdades produzidas pelo capitalismo periférico, Milton Santos oferece ferramentas fundamentais para compreender a pobreza e seus mecanismos de reprodução, sobretudo em espaços urbanos. Em um país que historicamente convive com o fenômeno da fome, essencialmente em lares negros e chefiados por mulheres, compreender a potencialidade de suas obras é também um gesto de conscientização política, uma ponte engajada para a superação das desigualdades.
Entre sua vasta contribuição contabilizada em mais de quarenta livros1 está a obra O Espaço Dividido: os Dois Circuitos da Economia Urbana dos Países Subdesenvolvidos, publicada em 19792 e elaborada a partir de seus deslocamentos e vivências em cidades dos chamados países do “Terceiro Mundo”. Nela, Milton Santos argumenta que as cidades da periferia são compostas por economias distintas, interdependentes e profundamente desiguais. De um lado, um circuito superior, articulado ao grande capital, às finanças, à tecnologia e às formas mais modernas de organização econômica; de outro, um circuito inferior, formado por pequenos comércios, trabalho familiar, informalidade, improviso, comércio popular e estratégias cotidianas de sobrevivência. A relação entre esses circuitos constitui uma chave analítica fundamental para compreender a dinâmica econômica das cidades contemporâneas.
Em São Luís, entre as capitais historicamente mais desiguais do Brasil, essa formulação evidencia as contradições de sua situação alimentar urbana3 – síntese de um país marcado por profundas desigualdades sociais, raciais e territoriais. De um lado, grandes redes varejistas, supermercados e empórios destinados às populações de alta renda e, majoritariamente branca da cidade, atacarejos e estruturas empresariais sofisticadas controlam parcelas centrais do abastecimento alimentar urbano. O Grupo Mateus, nascido no Maranhão e hoje transformado em um gigante varejista nacional, talvez seja a expressão mais evidente dessa dinâmica. Sua expansão recente revela como o abastecimento alimentar também se tornou um campo estratégico de acumulação de capital, financeirização da vida cotidiana e reorganização territorial.
De outro, vale dizer que a alimentação da maioria da população não se organiza apenas em torno dos grandes equipamentos de consumo. Mercados populares, feiras de rua, pequenos estabelecimentos familiares, comércio ambulante e redes de proximidade seguem estruturando o abastecimento urbano entre o centro e as vastas periferias. Nesses lugares, organizados sobretudo por mulheres negras e redes familiares, ainda se compra no fiado; pequenos comerciantes vendem arroz e feijão em quantidades reduzidas, ajustadas à renda curta de quem compra apenas o necessário para aquele dia; organização de pequenas cozinhas domésticas transformadas em fonte de renda; há bares que são também mercearias, garagens que se convertem em pequenos pontos de venda, bicicletas adaptadas para comercializar lanches, carrinhos de supermercado transformados em expositores improvisados. Há redes de confiança e solidariedades, clientelas habituais, negociações constante com a financeirização de suas economias – diversas formas de “se virar na metrópole”4, contornando as dificuldades cotidianas através de formas criativas e adaptativas em um dinamismo reconhecido por Milton Santos como “flexibilidade tropical”5.
No Brasil, como já ensinava Josué de Castro6, a fome nunca foi resultado da ausência de alimentos – trata-se de um fenômeno social e, sobretudo, político. Milton Santos amplia essa leitura ao mostrar que a pobreza é estrutural, ou seja, é inerente ao modo de produção capitalista e, assim, produzida nos usos desiguais do território, resultante da precarização do trabalho, da concentração da renda e nas formas seletivas da urbanização.
Da fome e da pobreza estrutural emergem economias cotidianas e populares: o circuito inferior, nesse sentido, sustenta a reprodução da vida urbana periférica e abriga a massa empobrecida encarregada da “pesada tarefa de enfrentar o concreto”7 e excluída daquilo que Milton Santos denominou de ‘globalização como fábula’8. No interior desse circuito da alimentação, mulheres cozinham, vendem, transportam, negociam, organizam redes familiares de trabalho e criam possibilidades concretas de sobrevivência em contextos marcados pela precarização. Muitas encontraram nesse circuito econômico uma estratégia de autonomia e conscientização diante da brutalidade da vida urbana, do desemprego, da violência doméstica e, sobretudo, das inúmeras formas de vivencias do fenômeno da fome.
Compreender os distintos usos do território por meio das obras de Milton Santos é reconhecer a permanência de seu pensamento indispensável para interpretar o Brasil contemporâneo. Em um país onde a fome jamais foi superada e continua a se impor como experiência cotidiana, especialmente entre populações negras, femininas e periféricas, sua geografia segue oferecendo ferramentas fundamentais, não somente para o exercício de compreensão das estruturas de reprodução das desigualdades, mas, sobretudo para “nos preparar para estabelecer os alicerces de um espaço verdadeiramente humano, de um espaço que possa unir os homens para e por seu trabalho, mas não para em seguida dividi-los em classes em exploradores e explorados; um espaço matéria-inerte que seja trabalhada pelo homem mas não se volte contra ele; um espaço Natureza social aberta à contemplação direta dos seres humanos”9 .
Sobre a série especial 100 anos de Milton Santo, exclusiva no Portal Geledés
Neste ano de 2026, celebramos 100 anos do nascimento de Milton Santos, um dos maiores intelectuais negros do país. Geógrafo, escritor e professor, sua obra aprofunda conceitos fundamentais para compreender o espaço geográfico, discute a globalização e antecipa reflexões críticas sobre tecnologia, bem como expõe a urbanização desigual e o protagonismo das periferias na produção de conhecimento.
A grandeza de suas contribuições foi reconhecida nacional e internacionalmente. Professor Emérito da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas e Titular do Departamento de Geografia na Universidade de São Paulo, Milton Santos recebeu o título de Doutor Honoris Causa em universidades no Brasil, na França e na Espanha. Em 1994, foi condecorado com o Prêmio Internacional Vautrin Lud, grande honraria da geografia mundial, e um ano depois, em 1995, recebeu o Prêmio Jabuti pela obra “A Natureza do Espaço”.
Em homenagem ao seu legado, o Portal Geledés apresenta uma série semanal de artigos inéditos, escritos por pessoas que o estudam, desenvolvem pesquisas a partir de sua obra ou se relacionam politicamente com suas posições e falas. Ao final, os textos farão parte de um dossiê que celebra Milton Santos. Agradecemos a cada autor e autora que aceitou fazer parte desta celebração.
Referências:
- Instituto de Estudos Brasileiros (IEB) da Universidade de São Paulo. Disponível em: https://www.ieb.usp.br/milton-santos/ ↩︎
- Milton Santos, 1979 (Livraria Francisco Alves Editora S.A). Obra originalmente publicada em francês, em 1975 (L’espace partagé. Les deux circuits de l’économie urbaine des pays sous-développés). ↩︎
- Antipon, Livia Cangiano. Direito ao território, direito à existência: a situação alimentar em São Luís (MA). Tese (Doutorado em Geografia). Universidade Estadual de Campinas, 2024. ↩︎
- Em diálogo com a socióloga Ana Clara Torres Ribeiro. ↩︎
- Santos, Milton. Por uma outra globalização: do pensamento único à consciência universal. Rio de Janeiro: Record, 2000. ↩︎
- Castro, Josué. Geografia da fome. O dilema brasileiro: pão ou aço. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2008 [1946]. ↩︎
- Santos (1979). ↩︎
- Santos (2000). ↩︎
- Santos, Milton. Pensando o espaço do homem. São Paulo: Hucitec, 1982. ↩︎

Livia Cangiano Antipon é doutora em Geografia pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Atualmente é pesquisadora de Pós-Doutorado na Universidade de São Paulo com financiamento da Fapesp (Processo: 2025/09094-5) e professora do Programa de Pós-Graduação em Desenvolvimento Socioespacial e Regional da Universidade Estadual do Maranhão. Pesquisa sobre e aprende com Milton Santos desde 2008.