A mulher no vagão e o 2 de Julho no Brasil

10/07/26
Por Natália Carneiro

A fotografia de Cheney Orr, feita em Washington, mostra uma mulher negra sentada sozinha em um vagão de metrô, cercada por homens mascarados do Patriot Front, grupo supremacista branco. A cena ocorreu em 4 de julho deste ano, dia da celebração da independência dos Estados Unidos, conquistada há  250 anos. Os livros de história reafirmam que a data se refere a liberdade como princípio fundador da nação; a imagem revela os limites dessa liberdade e nos convida a perguntar o que significa celebrar a democracia quando parte da população continua tendo sua presença no espaço público violentada pelo racismo.

Esse caso reflete  como os processos de emancipação tratam os descendentes de africanos. Tanto nos Estados Unidos quanto no Brasil, as independências reforçaram a exclusão a população negra da cidadania plena: a promessa de liberdade foi declarada, mas não estendida a quem a construiu com o próprio corpo. No Brasil, esse nó aparece quando reduzimos a Independência a 1822 e ao arranjo das elites, deixando à margem a soberania popular que a sustentou. É nesse ponto que o 2 de Julho na Bahia, feriado que marca a expulsão definitiva das tropas portuguesas de Salvador, em 1823,  ganha centralidade política. Neste contexto, a emancipação brasileira não foi obra de um acordo palaciano, mas sim o resultado da participação decisiva de homens negros e mulheres negras, indígenas e setores populares que pegaram em armas para decidir o próprio destino pela ação coletiva. Entretanto, o fato ainda é pouco conhecido e se mantém encoberto por um  apagamento histórico sistêmico. 

Essa operação de invisibilização  se atualiza, por exemplo, sempre que projetos de lei tentam retirar histórias e culturas afro-brasileiras do currículo escolar, ou quando políticas de segurança pública,  por padrão, tratam corpos negros como suspeitos em espaços que deveriam ser de circulação livre.

Foto: Wikimedia Commons 

Voltando ao contexto norte-americano, em 1925, cerca de 30 mil integrantes da Ku Klux Klan desfilaram a céu aberto pela avenida Pennsylvania, em Washington, evidenciando que o supremacismo sempre buscou operar publicamente, endossado por parte da sociedade. Em 1957, Elizabeth Eckford, uma das nove estudantes negras que tentavam integrar o Central High School em Little Rock, Arkansas, caminhou sozinha em meio a uma multidão branca e racista. A fotografia daquele dia se tornou um dos registros mais lembrados da resistência à segregação escolar nos Estados Unidos. Quando revisitamos as  marchas de 1920, aquela perseguição de 1957 e a mulher cercada no vagão em 2026, mapeamos uma permanência histórica de corpos negros tendo sua presença no espaço público vigiada, cercada ou expulsa por grupos que se sentem no direito de decidir quem pertence a ele.

É a mesma lógica de apagamento que, no Brasil, reduziu o 2 de Julho a episódio regional e escondeu que, também aqui, corpos negros que ocuparam o espaço público para conquistar a própria liberdade foram empurrados para fora da história oficial. 

Por isso, embora carregada de séculos passados, o recente episódio no metrô de Washington em um dia de independência não interpela apenas os Estados Unidos. Ela nos provoca, assim como o 2 de Julho, e nos mostra que nenhuma democracia está definitivamente assegurada.  O racismo é parte da própria arquitetura que repele a presença de pessoas negras na sociedade.


Natália Carneiro é jornalista; diretora executiva e coordenadora de comunicação e incidência política da Casa Sueli Carneiro. Compõe a direção executiva de Geledés – Instituto da Mulher Negra. Atua a mais de 15 anos com comunicação institucional em diálogos com os movimento social negro brasileiro e internacional e instituições de defesa dos direitos humanos.

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