A gramática corporal da capoeira: ou sim, sim, sim/ou não, não, não!

Em seu livro Sobre o Autoritarismo Brasileiro, recentemente publicado (2019), Lilia Schwarcz faz uma provocação, a meu ver, bastante pertinente: “O mito da democracia racial, de forte impacto no país, é [um bom pretexto] para entender como se formam e consolidam práticas e ideias autoritárias no Brasil” (p.26).

Penso que talvez as capoeiras brasileiras possam de alguma forma, contribuir para esse debate. Senão, vejamos.

Os elementos culturais da capoeira são atravessados pela ambiguidade lúdico/combativa e profano/sagrada. O enfrentamento é indireto, propiciado pela ginga. A roda de capoeira é um mundo simbólico, onde se entra através de um movimento de inversão corporal do alto pelo baixo. Os dois estilos de capoeira são a Capoeira Regional, criada por Mestre Bimba, e a Capoeira Angola, sistematizada por Mestre Pastinha. Na Regional os corpos não se tocam, mas na Angola, estão em contato. Sabendo-se que o corpo é uma construção social, os estilos representam duas estratégias sociais de inserção social dos negros. Se a Regional quer ampliar seu espaço político por meio da afirmação da presença negra, a Angola o faz pela exclusão, com ênfase na identidade étnica.

O jogo de capoeira caracteriza-se por ser uma negociação constante dos capoeiristas pela ampliação de espaço para sua movimentação corporal na roda, pois, uma vez que não há confronto direto entre eles, buscarão sempre aproveitar o “vacilo” do outro para atacá-lo. Isto é, trata-se de atentar para o lugar exato da vulnerabilidade do adversário, onde o que mais importa na verdade é saber, por meio da ginga, simular e dissimular a intenção do ataque inesperado no momento preciso. Assim, o jogo de capoeira constitui-se em um conjunto de linguagens verbais e não-verbais. 

  1. A ginga e a mandinga

No baixo corporal da capoeira predominam os quadris e os pés. O privilégio dos quadris se faz notar através da movimentação corporal básica da capoeira: a ginga, a qual está centrada nos quadris e é a partir dela que partirão os golpes e os contragolpes durante a luta. No entanto, a ginga é ritmada pelo som do berimbau, e é por seu intermédio que o corpo dos capoeiristas descreve círculos no espaço circular da roda, seu corpo dança, aproximando a capoeira do lúdico.

A ginga é “boa para pensar” (LÉVI-STRAUSS, ???) porque faz com que a capoeira deslize entre as categorias: não é um esporte, mas é, não é uma dança, mas é, e não é uma luta, mas é. Ainda hoje essa ambiguidade lúdico-combativa está presente e contamina todos os elementos do sistema cultural da capoeira: o berimbau é um instrumento musical, mas é ao mesmo tempo uma arma, pois se fala em “armar” o berimbau para poder tocá-la (isto é, montar o instrumento e afiná-la, esticando-se o arame, prendendo-o a uma das extremidades da madeira envergada e depois amarrando a cabaça na outra extremidade) e em “desarmar” o berimbau, ao final de uma roda.

Porém, há ainda algo fundamental a ser ressaltado em relação à ginga: é ela que impede o confronto direto entre os capoeiristas. O jogo de capoeira é marcado pela oposição ataque/esquiva, o que nos remete à oposição espaço cheio/espaço vazio e, como o enfrentamento é indireto, não se bloqueia o golpe adversário. Dessa forma, o contragolpe vem sempre preencher o espaço vazio deixado pelo golpe. Ritmado pela ginga, pauta enunciadora dos golpes e contragolpes, o corpo de um capoeirista está sempre preenchendo o espaço vazio deixado pelo corpo do outro. Contudo, essa oposição ataque/esquiva é complementar, sendo que uma esquiva pode esconder um ataque e vice-versa. 

Ter mandinga é saber ler as intenções do outro jogador, através da percepção de sua linguagem corporal e adiantar-se a elas, porém é também saber fazer com que o outro jogador “entre na sua”, quer dizer, jogue o seu jogo e não o dele, o que o colocará em situação desvantajosa. É saber simular e dissimular com eficiência a própria intenção e o ataque surpresa no momento exato. E é pela ginga que se adquire e se exerce a mandinga.

Para ser mandingueiro, o controle do capoeirista sobre o próprio corpo deve ser total. No jogo de capoeira, o que importa é saber conservar-se em equilíbrio, não perder o apoio e, se acaso acontecer de cair, deve-se cair bem, isto é, pronto para levantar-se o mais rápido possível (como diz uma cantiga de capoeira, entoada sempre que um capoeirista cai ou é derrubado na roda: “escorregar não é cair/é um jeito que o corpo dá”).

Vemos que o enfrentamento indireto na capoeira, expressa, por meio de uma linguagem corporal, estruturas de representações presentes na sociedade mais ampla, relativas à condição do negro: seu lugar social e as estratégias de ação que estão ao seu alcance na sua busca para melhorar as suas condições de vida. 

Como vêm mostrando vários historiadores da escravidão, como, por exemplo, João José Reis e Eduardo Silva, acima de tudo, os escravos negociavam sua liberdade e apenas quando esgotavam as possibilidades de barganhas e concessões partia-se para a ruptura, para o confronto direto. E, precisamente, por permitir disfarçar a luta sob a forma da dança, é a ginga a principal responsável por essa ambivalência. 

Dessa forma, fica evidenciado que a resistência negra no Brasil pautou-se, principalmente, pela negociação constante entre os africanos escravizados e africanas escravizadas e seus senhores, mais do que pelo confronto aberto (rebeliões, fugas, formação de quilombos). Nesse sentido, o jogo de capoeira remete mais à uma negociação do que à uma rebelião. Por meio do jogo de capoeira, os corpos negociam e é a ginga que evita o conflito, porém, ao menor sinal de distração do oponente, quando “as chances de falhar são mínimas” (como ensina Mestre Pastinha), aí sim, explode o contra-ataque, como um relâmpago, deflagrando-se então o conflito. 

Chegamos, assim, a um aspecto político fundamental do jogo de capoeira, interpretado como um enfrentamento indireto entre os dois capoeiristas. O jogo de capoeira é um jogo de contrapoder. O que importa é saber aproveitar o espaço vazio deixado pelo outro e, quando houver oportunidade, partir para o embate direto. Dessa maneira, o mesmo corpo que, à primeira vista, conforma-se, é aquele que, na ocasião oportuna, insurge-se e ataca. E ataca de um jeito inesperado, invertendo as regras do jogo que garantem a dominação, já que aquele que aparentemente dominava a situação poderá, subitamente, tomar um bom “banho de fumaça” e tomar-se, ele próprio, o dominado. 

A surpresa subverte, pois realiza essa inversão nas regras do jogo da dominação. A principal intenção no jogo de capoeira é sempre a de desequilibrar o outro, o qual, por sua vez, deve evitar cair. Cair é ficar em desvantagem, é perder poder. Todas as estratégias de luta da capoeira têm esse mesmo propósito, qual seja, derrubar o outro. 

Portanto, se considerarmos que a roda de capoeira é uma analogia do espaço social, talvez seja possível dizer que o jogo de capoeira representa uma negociação política travada entre negros e brancos no Brasil. Negociação permanente, determinada pela busca da liberdade no tempo da escravidão e, desde então, marcada pela busca de ampliação do espaço político dos negros na sociedade brasileira.

  1. A roda de capoeira: um universo simbólico

O jogo de capoeira estabelece uma comunicação na forma de um diálogo entre dois corpos e é um jogo de oposições, sendo que, em seus movimentos corporais opera uma oposição principal e complementar: a constante permutação do alto pelo baixo. No baixo corporal da capoeira o predomínio é dos quadris e dos pés.

Hoje, a grande maioria dos capoeiristas reconhece dois estilos de jogo de capoeira: o jogo da capoeira Regional, que é mais no plano alto, e o jogo da capoeira Angola, que é mais no plano baixo. Existe, portanto, uma oposição entre ambos. 

Mas, o que os movimentos corporais da capoeira podem nos revelar sobre a história das relações interétnicas em nosso país? Para adentrar a roda, esse território ambíguo, simultaneamente sagrado e profano, os capoeiristas executam um movimento corporal de inversão: seja a do alto pelo baixo (mais comum), seja a combinação do alto pelo baixo e da frente pelas costas. Quer dizer, entra-se no “mundo”, literalmente, de cabeça para baixo. 

Dessa forma, considerando-se a analogia entre a roda de capoeira e o mundo, o capoeirista, ao entrar na roda de cabeça para baixo, ao inverter o alto pelo baixo, estaria subvertendo a ordem da hierarquia corporal dominante e, consequentemente, a ordem social. Nesse mundo invertido, o baixo corporal (pés e quadris) torna-se mais importante do que o alto corporal (cabeça, mãos e tronco). Às vezes o nome do golpe remete à inversão indiretamente, como no caso do vôo-do-morcego, que leva o nome de um animal que dorme de cabeça para baixo.

Várias letras de cantigas de capoeira nos conduzem para baixo, como por exemplo: 

O facão bateu embaixo

A bananeira caiu 

(cantiga de capoeira – anônimo) 

A própria existência da capoeira na sociedade atual é fruto de uma ampla negociação política por autonomia e reconhecimento social, iniciada nos idos da escravidão. Uma das cantigas de capoeira mais conhecidas, atesta essa negociação infinita que está inscrita no próprio jogo: 

Ou sim, sim, sim! 

Ou não, não, não!

Ou sim, sim, sim! 

Ou não, não, não! 

(cantiga de capoeira – anônimo) 

Por meio do jogo de capoeira, os corpos negociam e a ginga significa a possibilidade da barganha, atuando no sentido de impedir o conflito. Porém, ao menor sinal de distração do oponente, quando “as chances de falhar são mínimas” (como ensina Mestre Pastinha), aí sim, explode o contra-ataque, como um relâmpago, deflagrando-se então o conflito. 

A ginga é ritmada pelo som do berimbau e é por seu intermédio que o corpo dos capoeiristas descreve círculos no espaço circular da roda, o corpo dança, aproximando a capoeira do lúdico. Por permitir a um só tempo, que o corpo lute dançando e dance lutando, a ginga remete a uma zona intermediária e ambígua (o jogo) situada entre o lúdico e o combativo. Por isso, parafraseando Lévi-Strauss, a ginga é “boa para pensar”, no sentido que ele deu à expressão, ao falar sobre os animais que são tabus em determinadas culturas, pois, justamente por não serem bons para comer, são “bons para pensar”. (DARNTON, 1990: 289-291).

A ginga é “boa para pensar” porque faz com que a capoeira deslize entre as categorias: não é um esporte, mas é; não é uma dança, mas é; e não é uma luta, mas é. Tal ambivalência lúdico-combativa se faz presente e contamina todos os elementos do sistema cultural da capoeira: o berimbau é um instrumento musical, porém, ao mesmo tempo, uma arma, pois se fala em armar o berimbau para poder tocá-lo e em desarmá-lo, ao final de uma roda de capoeira. Existem alguns nomes de movimentos corporais que nos levam ao terreno do lúdico (pião, balão) e há aqueles que supõem o combate (armada, arpão de cabeça, asfixiante). Também há a chamada de Angola, que representa uma ruptura na roda de capoeira, quando os dois jogadores um com os braços no ombro do outros lateralmente, dançam para frente e para trás até que um subitamente desarma a chamada, isto é, aplica um golpe qualquer sobre o adversário, reiniciando o jogo.

Várias cantigas de capoeira aludem a essa inversão física dos movimentos corporais: 

Menino, quem foi teu mestre 

Meu mestre foi Salomão 

Andava de pé pra cima 

Andava com a mão no chão 

(cantiga de capoeira – anônimo)

Uma renovação formal de sentido ocorre também com determinados objetos que, na vida diária, são normalmente utilizados ou manipulados no alto corporal (mais especificamente pelas mãos), tais como: tesouras, compassos, martelos, relógios, piões etc. Na capoeira, esses objetos são representados no baixo corporal, sendo que partes do corpo operam uma substituição de significados. Assim, serão os hábeis pés dos capoeiristas, e não suas mãos, os principais responsáveis pela movimentação desses objetos, aqui dotados de autonomia, pois, movem-se por si próprios. São exemplos disso: a tesoura, no qual as pernas de um capoeirista imitam as duas lâminas que “cortam” o outro jogador ao meio. (BAKTHIN:1987)

  1. O privilégio do baixo corporal

Há também objetos que usualmente servem ao alto corporal e que, no baixo corporal da capoeira, recebem uma nova destinação. Tal é o caso do chapéu-de-couro, objeto que serve para proteger a cabeça e que, na capoeira, é o nome de um golpe aplicado com a lateral do pé em direção à cabeça do adversário, descrevendo no ar um movimento arredondado que lembra a forma de um chapéu. Ao invés de protegê-la, o golpe supõe uma ameaça à cabeça. 

Essa lógica do avesso que perpassa os movimentos faz da roda de capoeira um mundo invertido. “Anda-se” com as mãos no chão e os pés para o alto, “abençoa-se” com os pés em lugar das mãos ou “apanha-se” o dinheiro com a boca. Esse rebaixamento dos gestos e dos objetos assegura uma renovação rica de sentido que provoca o riso. Como lembra Bakthin (1987:330), através do riso domina-se o medo e subverte-se a seriedade da ordem estabelecida. O humor é subversivo porque desafia e abala a hierarquia, posto que realiza uma inversão. Quanto ao novo emprego dos objetos, acima mencionados (martelo, compasso, relógio, chibata, tesoura), o rebaixamento substitui seu uso corriqueiro, em geral relacionado ao mundo do trabalho, e os transforma em golpes e contragolpes de capoeira que, ao contrário do mundo do trabalho, dominado pela utilização mecânica das mãos, exigem a habilidade e a improvisação dos pés. 

  1. Os dois estilos de capoeira: a Capoeira Angola e a Capoeira Regional

Mas, afinal de contas, qual o sentido do predomínio do baixo corporal na capoeira? Qual o significado da inversão corporal que impõe uma permuta constante do alto e do baixo? 

Na capoeira, o alto corporal é destronado e destituído de importância. Barganha-se sobretudo com os pés. Por isso, na capoeira, valem, além do jogo de quadris, a habilidade e a criatividade dos pés, “pensar com os pés” (o bom capoeirista “joga sem imaginar” – no sentido de pensar – diz uma cantiga de capoeira). 

De acordo com as regras do jogo de capoeira, tanto na Angola quanto na Regional o alvo principal a ser atingido é a cabeça do oponente. Portanto, considerando que a parte do corpo de onde parte a imensa maioria dos golpes de capoeira são os pés (o baixo corporal), esses, usualmente desimportantes, desprivilegiados e impotentes, constituem-se aqui numa nítida ameaça à cabeça (o alto corporal), centro do poder e da decisão. 

Nesse mundo invertido conquista-se a autonomia sobre o próprio gesto, subvertendo-se a proposta de corpos dóceis e mecanizados. Esse mundo de pernas para o ar é o mundo da vadiação, expressão, aliás, bastante utilizada na capoeira Angola, como sinônimo de jogo de capoeira (Pastinha costumava dizer que a capoeira “é uma coisa vagabunda”). A roda de capoeira é o lugar do “não-trabalho”, no qual as mãos são passivas, ao contrário do mundo do trabalho manual. A essa inversão física das mãos pelos pés corresponde uma inversão da representação dominante que dignifica o trabalho. Nas cantigas de capoeira há uma positivação da vadiagem, ironizando-se o trabalho disciplinado. 

Esta orientação para baixo que inverte a hierarquia corporal dominante privilegiando, apresenta uma contestação do trabalho disciplinado. Por isso, talvez possamos dizer que é nos pés ativos, hábeis e criativos dos capoeiristas que encontramos o sentido da rebeldia e da autonomia do corpo. 

No entanto, tal contestação da ordem se faz, como venho argumentando, por meio do confronto indireto, da negociação. 

O jogo de capoeira compreende dois estilos: a capoeira Angola e a capoeira Regional. Na capoeira Angola predomina o jogo no plano baixo, enquanto que na capoeira Regional, o jogo acontece mais no plano alto. Há, portanto, uma oposição entre os dois estilos. 

Esquematicamente, podemos destacar uma série de oposições presentes nos movimentos corporais de ambos os estilos, ainda que haja variações.

Capoeira Angola 

– jogo mais pelo chão/ ginga baixa 

– jogo mais na defesa/jogo mais lento 

– corpos não se tocam / ginga mais dançada

– ênfase no lúdico 

– maior teatralidade 

Capoeira Regional 

– jogo mais pelo alto / ginga alta 

– jogo mais no ataque / jogo mais rápido 

– corpos se tocam 

– ginga menos dançada / ênfase na competição

– menor teatralidade 

Embora diversos esses dois estilos de capoeira têm comum o fato de representarem estratégias simbólicas de reconhecimento e aceitação social do negro. Mas fazem o mesmo por caminhos diferentes. A capoeira Regional deseja “levantar” o negro. No plano social, o que a capoeira Regional representa é a estratégia política que leva à afirmação da presença negra como forma de inserção social dos negros no cenário nacional. 

A capoeira Angola, por sua vez, quer valorizar a especificidade do negro. No plano social, o que a capoeira Angola representa é a estratégia política de afirmação da identidade negra pela exclusão, acentuando-se a diferença étnica como forma de inserção social dos negros na sociedade. 

Assim, se o jogo de capoeira pode ser tomado como um modo de negociação entre negros e brancos no Brasil, podemos dizer que os dois estilos corporais de capoeira, o Angola e o Regional, são duas propostas negras distintas de negociação, relativas à inserção social dos negros na sociedade mais abrangente. Representam duas respostas sociais, são dois modos diferentes de falar do lugar dos negros na sociedade brasileira, expressos através da linguagem corporal. 

Ao inverter a ordem do mundo, colocando-o literalmente de pernas para o ar, a capoeira não se opõe inteiramente à ordem dada, mas, ao contrário, joga no campo de possibilidades de luta traçado pelo adversário. 

Voltando à Lilia Schwarcz (2019), a autora afirma que, o nosso problema é pensarmos a mestiçagem apenas em termos de mistura. Entretanto, não há mistura sem separação.

Em 1844, o Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro promove um concurso cujo tema era “Como se deve escrever a história do Brasil” Von Martius, vencedor do concurso, fazendo uso da metáfora de um rio caudaloso, explica que a herança portuguesa acaba por “limpar” e assimilar os confluentes das raças índia e etiópica. “(…) Ali estavam, pois, os três povos formadores do Brasil; todos juntos, mas (também) diferentes e separados. Mistura não era (e nunca foi) sinônimo de igualdade (…)” (p.16). 

Vemos, pois, que esse autor apresentava problemas fundamentais do Brasil, como o sistema escravista brasileiro e os rearranjava de uma forma positiva e harmoniosa. Porém, vale dizer que esta tese, a qual veio a tornar-se um mito nacional, mistura mas mantém a hieraquia. É possível demonstrá-lo se levarmos em conta que, embora, atualmente, segundo o IBGE, 55% da população do Brasil seja formada por pardos e negros, somos uma nação que naturaliza a desigualdade racial e na qual o racismo que há tempos deixou de ser considerado enquanto teoria científica, permanece atuando, como ideologia social.

(…) [Na] poderosa ‘teoria do senso comum’, aquela que age perversamente no silêncio e na conivência do dia a dia. A escravidão nos legou uma sociedade autoritária, a qual tratamos de reproduzir em tempos modernos (…)

Uma sociedade acostumada com hierarquia de mando, que usa uma determinada história mítica do passado para justificar o presente, e que lida muito mal com a ideia da igualdade na divisão de deveres, mas dos direitos também” (pp.35-36).

Referências Bibliográficas

BAKTHIN, Mikhail M. A cultura popular na Baixa Idade Média e no Renascimento. Brasília: Hucitec/UnB, 1987.

DARNTON, Robert. “História e Antropologia”, in: O beijo de Lamourette. São Paulo: Companhia das Letras, 1990.

DECÂNIO, Mestre. A herança de Mestre Bima: lógica e filosofia africanas da capoeira”. Coleção São Salomão I, (mimeo). Salvador: 1996.

CHALHOUB, Sidney. Visões de Liberdade. São Paulo; Companhia das Letras, 1990.

DOUGLAS, Mary. Simbolos naturales. Madrid: Alianza Universidade. 1988.

LEWIS, John Lowell. Ring of liberation: deceptive discourse in Brazilian Capoeira. Chicago: University of Chicago Press, 1992.

PASTINHA, Mestre. Capoeira Angola. Salvador: Secretaria de Cultura da Bahia, 1988.

REIS, João José; SILVA, Eduardo. Negociação e Conflito: a resistência negra no Brasil escravista. São Paulo: Companhia das Letras, 1989.

REIS, Letícia Vidor de Sousa. O mundo de pernas para o ar: a capoeira no Brasil. São Paulo: Publisher Brasil/FAPESP, 1997.

SCHWARCZ, Lilia Moritz. Sobre o Autoritarismo Brasileiro. São Paulo: Companhia das Letras, 2019.

** ESTE ARTIGO É DE AUTORIA DE COLABORADORES OU ARTICULISTAS DO PORTAL GELEDÉS E NÃO REPRESENTA IDEIAS OU OPINIÕES DO VEÍCULO. PORTAL GELEDÉS OFERECE ESPAÇO PARA VOZES DIVERSAS DA ESFERA PÚBLICA, GARANTINDO ASSIM A PLURALIDADE DO DEBATE NA SOCIEDADE.

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