quarta-feira, setembro 22, 2021
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A luta antirracista e as ‘hashtags’

O capitalismo sempre foi racial. O capitalismo não seria a instituição econômica global que é hoje se não fosse pela escravidão, se não fosse pela colonização. 

− Angela Davis

As redes sociais têm sido um campo fértil de protestos contra o racismo estrutural. Aos olhares desatentos, existe a falsa impressão de que esses protestos acontecem desde o assassinato do afro-americano George Floyd, na cidade de Minneapolis – EUA, onde um policial branco o asfixiou durante uma abordagem e desencadeou manifestações em diversos países¹. Mas o debate sobre o racismo estrutural acontece há muito tempo. A questão é que os meios de comunicação de massa sempre foram omissos sobre a situação da população negra, e isso reflete na performance das redes sociais. No entanto, sabemos que centenas de “George Floyds” deixam de respirar, anualmente, no Brasil. 

 

Impulsionados pelas hashtags − por exemplo, #vidasnegrasimportam − inúmeros perfis inundam as redes sociais, ora demonstrando  indignação, ora compartilhando casos de racismo que acontecem diariamente no cotidiano da população negra. Interessante, pois amplia a visibilidade e provoca a imprensa a dedicar espaço sobre as questões raciais. Mas, mesmo parecendo que a sociedade está aberta ao debate e intolerante com a violência contra os negros, não deixa de ser algo ineficaz.

 

O racismo não vai acabar dessa maneira e, possivelmente, existirá enquanto o capitalismo ser o imperativo nas relações econômicas da sociedade. Essa é uma realidade que precisamos saber lidar por mais dolorosa que seja, mas não significa abrir mão da resistência organizada. O uso de todos os instrumentos disponíveis para o enfrentamento é importante, inclusive as redes sociais. A minha advertência vem no sentido de que devemos compreender as limitações de hashtags, e não deixar que as pessoas se acomodem acreditando que as redes sociais são capazes de mudanças estruturais. Isso poderia resultar no esvaziamento das associações, entidades ou organizações de combate ao racismo, inclusive, as participações em protestos ou manifestações nas ruas. Por isso concordo com a ex-ativista do Partido dos Panteras Negras e antropóloga, Denise Oliver-Velez “Não importa quanta tecnologia você tenha – e eu não me importo se é uma máquina mimeográfica ou o Twitter -, nada substitui a organização real presencial. Pode ser chato e cansativo, mas sentar e conversar cara a cara é importante².

O antirracismo é contra um complexo mecanismo que age de maneira perversa para a manutenção das desigualdades materiais, e subjetivas, entre as pessoas negras e brancas. Até os negros que escapam da marginalização econômica são vítimas da subjetividade que inferioriza a raça no imaginário social. Isto é, continuam sendo vistos com desconfiança e menosprezo pela sociedade. Em alguns casos, os negros, recebem a culpa pela própria condição marginalizada. Difícil não concordar com o antropólogo Kabengele Munanga; realmente, o racismo é um crime perfeito. Assim sendo, somos obrigados a elaborar ações radicais, observando a realidade dos negros em todas as dimensões para que consigamos produzir parâmetros estratégicos com possibilidade de resultados positivos no combate ao racismo. É fundamental que a luta mire na busca por uma sobrevivência com dignidade e a pavimentação de caminhos menos dolorosos às próximas gerações de afro-brasileiros. Devemos escapar do modismo e das distrações para que as estratégias por direitos sociais não sejam ofuscadas. O combate ao alargamento das desigualdades sociais, embrionárias do racismo instrumentalizado na lógica capitalista, requer concentração e organização em todos os espaços, principalmente, “cara a cara”. Ademais, como escreveu o geógrafo Milton Santos, os negros precisam de um discurso cientificamente elaborado

que não pode ser um discurso choramingas, nem um discurso da pura emoção. A organização é também indispensável, como um dado multiplicador das forças limitadas. Só assim será possível rever injustiças seculares, estruturais e cumulativas, mediante políticas compensatórias, que devem ser urgentemente implantadas neste país. (p. 141)

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

 

PORTAL CEERT. Uma conversa com Angela Davis e Judith Butler. Disponível em: <https://www.ceert.org.br/noticias/genero-mulher/18180/uma-conversa-com-angela-davis-e-judith-butler>. Acesso em: 13 jul. 2020

 

PORTAL FPA. Nosso racismo é um crime perfeito – Entrevista com Kabengele Munanga. Disponível em: <https://fpabramo.org.br/2010/09/08/nosso-racismo-e-um-crime-perfeito-entrevista-com-kabengele-munanga/>. Acesso em: 14 jul. 2020

 

SANTOS, Milton. Cidadanias mutiladas. In: LERNER, Julio (Ed.). O preconceito. São Paulo: IMESP, 1996/1997, p. 133-144.


[1] Além de Minneapolis: os protestos raciais por todos os EUA Disponível: <https://www.nexojornal.com.br/expresso/2020/05/29/Al%C3%A9m-de-Minneapolis-os-protestos-raciais-por-todos-os-EUA>. Acesso em: 16 jul. 2020

[2] Entrevista com Denise Oliver-Velez Disponível em: <https://www.blackwomenradicals.com/blog-feed/machismo-will-never-be-fucking-revolutionary-on-the-radical-rebelliousness-of-denise-oliver-velez>. Acesso em: 14 jul. 2020

 


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