quarta-feira, novembro 30, 2022

Conto: Dias Sintomáticos

Não consigo viver isolado socialmente. Não aguento mais viver nesse espaço obscuro e preocupante, apenas sou um fio que a qualquer momento desapareço e descanso. Não consigo controlar os pensamentos que passam na minha cabeça que, em nenhuma hora ou instante, mas me deparo com o cansaço físico e psicológico. É como se viver no abismo, sem viver a liberdade, como se não houvesse o futuro, pois, a vida é fluída, a sociedade é perversa. Assim não sei onde ou em quem me amparar, vivendo sem expectativas e sem rumo, mesmo sabendo também que o sistema nos encarcera, nos mata em questão de segundos, entristece os nossos familiares e nos condenam sem cometermos nenhuma ofensa.

É como se eu andasse sem direção, sem forças e batesse de porta em porta em busca de acalento. Desde então, exausto, chorando rios que nunca vão sarar as nossas feridas e dores profundas, outrora, um dia fui feliz e não sabia, ao ponto de hoje sabermos que as sombras da morte nos arrodeia neste planeta terra. Muito antes de ser pego por uma pandemia chamada “Covid-19”, que assola o mundo, eu já tinha um vida ansiosa e agora só fez aumentar, acho que é um problema geral de saúde, mas cada qual sabe a dor que geme, que sente, e a dor que comprime de dentro para fora. Muitos estão fartos, outros com o coração partido e a fome tomando conta dos dias sombrios.

Antes não era dor, era abundância, hoje, precisamos de meios alternativos para estar bem. Antes eu era muito mais alegre, hoje não mais, são muitas cenas fortes que atravessam o meu peito e o coração da humanidade, capazes de nos deformar pro resto da vida. Eu era como o raio do sol, hoje só persisto a pensar, refletir e a me preocupar com o outro e com o mundo. É relevante frisar: talvez eu não seja bem compreendido pelos meus pares, acham até que um corpo ansioso é coisa de infantilidade, não é e nunca foi, é algo sério, muito sério. O ser humano precisa aprender a se colocar no lugar de quem sente a dor para compreender a realidade.

Desde que a vida me mostrou ser isolado e amuado, a minha voz tornou-se o silêncio. A minha desenvoltura de escrever rimas, versos e prosas é acionada a pensar fora da espinha dorsal, por mais literatura periféricas, por mais literatura do campo, por mais literatura do corpo e da alma, dentre outras. O antes e ainda me deparo em um mundo tão cruel, desigual e deprimido.

São situações aparentemente complicadas, diante disso, a ansiedade me coloca em um estado de insegurança, medo, tremor, fadiga e pânico. Isto é, um estado desenhado de que, se não reivindicarmos, estaremos sendo submissos as ordens dominantes, se caso não gritarmos, a vida estará cada vez mais descendo a ladeira abaixo, capazes de nos ferir pouco a pouco.

Nesse momento, no Brasil as pessoas caminham para um estado de solidão, silêncio e paciência. Podemos mudar este cenário árduo, mas sem a ajuda e o compromisso dos nossos pares torna-se difícil. É saber que temos forças, somos aguerridos, mesmo sabendo que a vida não são mares de rosas.

Dia após dia tomamos chás, medicações e fazemos terapias naturais, mas, infelizmente, se tornou um vício e desespero. Se andarmos, deste modo, a qualquer momento podemos chegar a um estado tremendo, cuja narrativa nem sempre conseguimos encontrar alguém que nos preencha de palavras de conforto, amor e gratidão. Assim, somos como um palito de fósforo em chamas que, de repente, apagamos.

Lutamos todos os dias para estarmos no aconchego em família, mas a ansiedade nos deixa vermos um buraco negro sem saída. A única ideia de sairmos desse lugar obscuro é ver o mundo equânime, as pessoas em paz e o sossego espiritual de cada um de nós. Mas, para que isso faça efeito precisamos nos reinventarmos e conscientizarmos a população que nada pode nos ofuscar.

É gritar poeticamente, é visibilizar as nossas vozes em prol de uma virada epistemológica potente. É gritar mesmo com a sombra da morte nos arrodeando, é cantando para espantar os males que nos atormenta. É sentirmos o calor que vem do chão da existência em vida: o amor pelo próximo. Há ausência de amor e afeto no mundo.

Elder Ribeiro é santamarense, multiartista, e atualmente é editor da página literária: Café a Dois (facebook.com/caafeadois). É autor da poesia intitulada: “Encruzilhada de Uma Preta Velha”, publicada em 2019 pelo Caderno Sisterhood (UFRB) e autor do poema “Mestre dos Atabaques – Ao Saudoso Mestre Erenilton da Casa de Oxumaré”, publicado em 2017 pelo Geledés – Instituto da Mulher Negra.


** ESTE ARTIGO É DE AUTORIA DE COLABORADORES OU ARTICULISTAS DO PORTAL GELEDÉS E NÃO REPRESENTA IDEIAS OU OPINIÕES DO VEÍCULO. PORTAL GELEDÉS OFERECE ESPAÇO PARA VOZES DIVERSAS DA ESFERA PÚBLICA, GARANTINDO ASSIM A PLURALIDADE DO DEBATE NA SOCIEDADE. 

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