Afetos e relações raciais: quando o “suposto” afeto ofusca o racismo

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Querida Branca,

Estou muito cansada hoje. Apesar disso, a necessidade de te escrever me veio. Escrever é um processo criativo que demanda esforço mental e lucidez para articular as ideias. Embora tudo isso esteja ofuscado agora, pode ser esse um modo de esvaziar-me do cansaço e dar sentido a tantos sentimentos misturados. Temos tido dias difíceis, com situações complexas, mas nada novo para nós, negras e negros. O novo, para mim, parece ser o des-cobrimento do racismo no Brasil. Aqui, falo como uma pessoa de pele preta, que bateu várias vezes na porta de vidro que existia entre mim e você, que sorria assim que me via. Lembro sempre de você e de todas as outras colegas em muitas situações. Mas algumas situações foram mais marcantes do que outras. Foram várias situações de racismo que passei, com você ao meu lado, me olhando, sorrindo, sempre delicada, educada e sutilmente me aconselhava a melhorar, pois era preciso ter postura.

Lembro bem dos seus conselhos e aparente cuidado para comigo, embora meu desconforto e sentimento de fracasso nunca passasse. Também me lembro de, certa vez, quando você me disse que eu tinha problemas de autoestima. Sabe, durante muito tempo eu acreditei no que você me dizia. Afinal, você era tão legal que, na frente das outras pessoas, até me perguntava como eu estava e me tratava bem. Apesar de que, quando estávamos somente nós duas, você estava ocupada demais no celular, eu preferia ficar quieta para não te atrapalhar…mas faz parte no mundo tecnológico. Quando veio essa onda de violência, vi você postar sobre antifascismo.

Achei legal vê-la com a plaquinha, mas confesso que estranhei, pois nunca tinha visto você se posicionar, especialmente nas vezes em que eu sofri racismo, na sua frente. Ah! Tenho que te contar, antes que eu me esqueça. Depois de um tempo, comecei a estudar sobre racismo e acredita que aquelas situações em que você estava comigo era tudo racismo?!? E você, toda desconstruidona nem pra me dizer. Mas que bom que você agora é antirracista também neh! Vi no seu post outro dia. Confesso que fiquei um pouco confusa, porque quando te falei que ‘nossos passos vem de longe’, você me disse que era a melhor frase de Simone de Beauvoir. E me disse que era também antirracista reversa, pois é contra toda forma de opressão e violência. Fiquei confusa de novo, mas não aprofundamos o tema, porque seu táxi estava chegando. Mas tudo bem, agora que você é antirracista, você já sabe um monte de coisas sobre gente preta e já sabe como se posicionar em situações de racismo. Se tiver dúvidas, basta dá um Google, não precisa nem encher meu whatsapp de mensagens recheadas de angústia. Por falar em mensagem, agora podemos ir a festas juntas, porque tirei o rastafári gigante, e alisei o cabelo, tá lindo! Como você sempre dizia que eu não ficava arrumada com meu blackpower ou tranças, pois pareciam sujos, resolvi dar uma repaginada e ficar mais apresentável. Você queria o melhor pra mim, eu sei, pois sempre estava olhando se minhas roupas, unhas e sapatos estavam adequados para almoçar contigo, especialmente quando as outras não estavam. Uma pena que para ir a festas juntas, a gente nunca conseguia acertar a agenda. Bom, agora tenho cabelo apresentável e consegui um trabalho, estou ganhando um dinheirinho e já posso ser convidada para ir à sua festa de aniversário. Nossa, já é no mês que vem. Como o tempo passa néh!?! Ai amiga, preciso te ver para colocar o papo em dia. Ir ao shopping talvez, fazer umas comprinhas. Prometo que vou seguir suas dicas de moda dessa vez e não vou comprar mais roupas tão coloridas, berrantes como dizia você hahaha.

E vamos poder comer naquele restaurante central, não naquele escondidinho perto do banheiro. Agora posso pagar. Que bom neh! Agora posso ter sua companhia!

Bjs! Racismo afetivo.

 

Em março de 2020, o Brasil aderiu oficialmente ao isolamento devido à pandemia, ocasionada pelo COVID-19, ou novo CORONA vírus. O que se tornou uma grande preocupação para a população incialmente desinformada, foi tomando contornos contraditórios e intensificando situações que há 500 anos reverberam em terras (portuguesamente) brasileiras. Além do negacionismo, advindos de alguns líderes do governo sobre a gravidade da situação, tivemos que lidar, em pleno momento crítico, com situações emergentes. Na verdade, contém-se o corpo, mantém-se a cabeça funcionando a todo vapor. “O Brasil não pode parar”, diziam eles. Dessas situações emergentes, temos as tensões políticas que se amplificaram, direcionando para um ódio ‘naturalmente’ explanado, efeito dominó do ovo da serpente que nasceu com promessas morais de promover civilidade. Nesse ambiente de tensões, a base se estremece, trazendo à tona uma discussão jogada para debaixo do tapete que nasceu junto com esse país: o racismo. Para alguns, surge então um OVNI, que assusta e surpreende negativamente. Iniciou-se então, um discurso supostamente humanizado, ressaltando veementemente o caráter democrático do vírus, que mata brancos e negros, igualmente. Entretanto, a realidade começa a dar sinais, a primeira vítima de Covid, uma mulher negra e empregada doméstica. Essa, carinhosamente convocada a cuidar da casa dos patrões, as ditas pessoas de bem, bem coloniais diga-se de passagem, e ela, a empregada, perde a vida pelo seu nobre gesto, num país onde pobre, se não trabalhar, não come. Sucessivamente, a pandemia mudou de cor e perdeu o privilégio, hoje, assola os que nunca o tiveram.

Nesse ambiente de tensões emergentes, de ameaça real, vemos o número de pessoas morrendo aumentando, dados ocultados e negligenciados. Não bastando isso, as mortes por práticas policiais em comunidades do Rio de janeiro começam a aumentar e serem noticiadas pela mídia, somando ao cansaço do povo com o descaso de quem deveria o proteger. Até que a morte de um preto gringo chama a atenção para algo que estava aí, mas não sei como, não era visto, o racismo. As hashtags sobem e o tema toma as mídias sociais e abertas do país. E eis que emerge o racismo como tema principal de muitas mídias. O caso George Floyd lança luz sobre a violência policial contra negros. “Não posso respirar”, últimas palavras do negro americano. Na verdade, são palavras de negras e negros brasileiros desde antes de 1888, como diz o ditado “o defeito do burro está na vista”.

Bandeiras antirracistas começam a se levantar, e de repente, as antifascistas também surgem. Para dar força? Ou para assumir um protagonismo branco? Ah, para secundarizar o debate racial, certo?! Afinal, deve ser difícil para uma pessoa branca se ver ameaçada pelas mãos de fascistas. Mas essa discussão é longa e requer outro artigo para pensarmos sobre ela.

Nesse ínterim de acontecimentos, nada novo sob o sol, nos vimos diante de algo mais íntimo, que vem da reverberação do racismo estrutural e institucional, fruto das relações interpessoais. Esse texto surge da necessidade de nomear um racismo promotor de sofrimento psíquico, que nos afeta no dia a dia e que adoece, despotencializa e causa danos subjetivos inegáveis. Com os adventos atuais, foi possível ver muitos colegas brancos se posicionando nas redes sociais contra o racismo. Colocando hashtags, compartilhando artigos e textos com análise da situação nos EUA. Esses mesmos indivíduos que presenciaram muitas situações de racismo e silenciaram. Escrevemos um texto-carta nas plataformas do PapoPreta, como uma forma de manifesto. Somos psicólogas e a nossa análise vem da escuta do discurso subjacente e especialmente da coerência entre a ação e o discurso. Direcionamos o nosso manifesto às colegas brancas que silenciaram diante de situações racistas e que agora se posicionam nas redes sociais contra o absurdo que é o racismo. Assim, publicamos a carta que inicia este artigo.

O texto-carta diz sobre vivência, sobre a experiência do dia a dia, em que o afeto nos impede de ver o óbvio. Inicialmente, a amiga branca se chamaria ‘Karen”, fazendo alusão às mulheres brancas americanas que praticam racismo com homens negros. Mas, posteriormente, vimos fazer mais sentido direcionar a carta para Branca, uma típica mulher branca, racista à brasileira, que possui relações de intimidade com uma mulher negra, geralmente com menor poder aquisitivo do que ela ou qualquer mulher negra que, aos olhos da branca, é inferior ou útil a ela.

Em Pele negra, máscaras brancas, Frantz Fanon discorre sobre a experiência vivida do negro. O autor narra diversas experiências desconfortáveis em trens, na rua, na profissão em que a sua cor de pele colocava em questão a legitimidade da sua existência. Segundo ele, é preciso parecer branco para ter um mínimo de reconhecimento, pois o branco está sempre se referenciando. O racismo afetivo funciona assim, deixa a mulher preta nessa confusão mental, em que ela não entende o que há de errado com ela, as coisas simplesmente não acontecem, mas todos a tratam bem, inclusive a sua amiga branca.

É importante ressaltar que no processo de identificação a principal base é a ligação afetiva. Para Freud, “o assemelhamento de um EU ao outro, em que o primeiro EU se comporta como o outro em determinados aspectos, imita-o, de certo modo o assimila” (p.200). Para o autor a identificação é uma ligação originária e não defensiva cujo o intuito do sujeito é ser aceito e acolhido, e o afeto está intrínseco nesse jogo. Contudo, não podemos esquecer que entre brancos e negros, não há duas vias. A Psicanalista Neusa Souza em sua obra Tornar-se Negro, expõe a problemática do negro ao se ver deslocado no desejo do branco, interditando a si próprio. Em sociedades estruturadas no racismo, em que a socialização de negros resume-se na apreensão do mundo e das regras da branquitude, as relações afetivas positivadas são entregues pelos negros como uma espécie de obrigação, ao passo que o branco mantém seu afeto de forma superficial ou, nem se vê obrigado a isso. Identificação resulta da empatia, negros são obrigados a identificarem-se com o branco, pois tudo é branco. O branco, não. O negro deve amar seu opressor/a, mas seu opressor, nem tanto. Vide o caso de Mirtes, mãe de Miguel de 5 anos, que amorosamente cuidava dos filhos de sua sinhá, mas sua sinhá lhe tirou seu bem mais precioso. E houve sinhás defendendo sinhás. Não é à toa que em uma sociedade como o Brasil não indigna-se diante da morte diária de negros.

O texto-carta pretende apresentar as nuances do racismo, onde muitas relações de afeto entre as mulheres brancas e mulheres negras, trazem a dimensão do apartheid afetivo invisível, com sutilezas que perpassam pelo sentimento de inadequação, justificado na fala de baixa autoestima da mulher negra, taxando-a como alguém que tem dificuldade de se posicionar ou que se posiciona com agressividade. Além disso, a carta a amiga Branca apresenta a hipocrisia presente no discurso dessas mulheres, com ação destoante, coniventes com a lógica sistêmica racista. Por trás da hashtag, parece haver uma busca por autoproteção, afinal ninguém quer ser chamada de racista em um dos países mais racistas do mundo. É o racismo sem racistas!

Fontes:
FANON, Frantz. Pele negra, máscaras brancas. Trad. Alexandre Pomar, Lisboa: Letra Livre, 2017.

FREUD, Zigmund. O mal estar na civilização, novas conferências introdutórias à psicanálise e outros textos. Trad. Paulo César Lima de Souza, São Paulo: Companhia das letras, 2010.

SANTOS, Neusa Souza. Tornar-se negro ou vissitudes da identidade do negro brasileiro em ascensão social. Rio de Janeiro: Edições Graal, 1983

 

Sobre as autoras:

Arquivo Pessoal

Claudina Damasceno Ozório é uma das fundadoras do Papo Preta: saúde e bem estar da mulher negra e coordena o projeto no Brasil, Psicóloga Clínica, Psicanalista, Doutoranda em Psicologia Clínica pela Puc-Rio, na área de desenvolvimento humano, Mestre em Psicologia Clínica pela Puc-Rio, na área de família e casal, nas vertentes sistêmica e psicanálise. Especialista em gênero, sexualidade e Direitos Humanos pela FioCruz-RJ.
Cursou Psicologia e relações raciais no Instituto AMMA Psiqué e Negritude/ SP.

 

 

 

Arquivo Pessoal

Shenia Karlsson é uma das fundadoras do Papo Preta: saúde e bem estar da mulher negra, Psicóloga Clínica, coordena o projeto na Europa, Mestranda em Estudos Africanos pela Universidade de Lisboa, Especialista em Psicologia Clínica pela Puc-Rio na área de família, Terapeuta Sistêmica de Casal e Família, Diretora do Departamento de Sororidade e Entreajuda no INMUNE-Instituto da Mulher Negra de Portugal, membro efetivo da Ordem de Psicólogos de Portugal e da European Federation of Psychologists Associations.

 

 

 


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