quinta-feira, julho 7, 2022
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Ahmaud Arbery foi morto por ser negro, conclui Justiça dos EUA

Homens brancos que mataram jovem que se exercitava na Geórgia foram condenados por crime de ódio

Os três homens brancos condenados por perseguir e matar o jovem negro Ahmaud Arbery enquanto ele praticava corrida em um bairro de maioria branca na Geórgia, nos Estados Unidos, foram considerados nesta terça-feira (22) culpados de cometer crimes de ódio e outros delitos federais relacionados ao assassinato cometido em 2020.

É a primeira vez que condenados por um homicídio de grande repercussão como esse enfrentam um tribunal do júri por crimes de ódio. Na prática, a conclusão da Justiça é que os réus mataram Arbery por ele ser negro.

Travis McMichael, 36, seu pai, o ex-policial Gregory McMichael, 66, e um vizinho, William “Roddie” Bryan, 52, foram considerados culpados de tentativa de sequestro e de violar os direitos civis de Arbery ao atacá-lo devido à sua raça, encerrando o julgamento do caso. Os McMichael também foram condenados por uma acusação federal de porte de armas de fogo.

Wanda Cooper Jones, mãe de Ahmaud Arbery, fala a jornalistas na saída do tribunal de Brunswick, após a decisão nesta terça – Dustin Chambers/The New York Times

Arbery foi morto a tiros no dia 23 de fevereiro de 2020 depois de ser perseguido pelos três réus quando praticava corrida no bairro de Satilla Shores, perto da cidade costeira de Brunswick.

No Tribunal Distrital dos EUA, um júri predominantemente branco deliberou por cerca de quatro horas, ao longo de dois dias, até chegar ao veredicto desta terça. O crime de ódio, a mais grave das acusações enfrentadas pelos réus, acarreta uma pena máxima de prisão perpétua.

No ano passado, os três homens já haviam sido considerados culpados pelo assassinato e, em janeiro, já haviam sido sentenciados à prisão perpétua por um tribunal estadual pelos crimes de homicídio, lesão corporal qualificada, cárcere privado e intenção criminosa.

Os promotores estaduais, porém, evitaram atribuir uma motivação racista ao assassinato, buscando apenas provar que os três réus eram responsáveis ​​pela morte de Arbery.

“Ahmaud continuará descansando em paz, mas agora começará a descansar em poder”, disse a mãe de Arbery, Wanda Cooper-Jones, usando a expressão “rest in power”, frequentemente utilizada em casos de vítimas de mortes injustificáveis, motivadas por racismo ou outro tipo de discriminação.

Cooper-Jones criticou os promotores do Departamento de Justiça, que inicialmente chegaram a um acordo judicial com os réus para evitar um julgamento no âmbito federal, como normalmente acontece em casos de crimes de ódio.

Em uma rara decisão, a juíza rejeitou esse acordo após a família de Ahmaud implorar para que ela não o aceitasse. “Não teríamos conseguido o que conseguimos hoje se não fosse pela luta da família”, disse a mãe de Arbery. “O Departamento de Justiça só fez hoje o que foi obrigado a fazer. Não era o que eles queriam.”

“Conseguimos uma vitória hoje, mas há tantas famílias que não conseguem. Eu, como mãe, nunca irei me curar das feridas da perda”, acrescentou.

O advogado Ben Crump, famoso ativista pelos direitos civis que representou a família Arbery, disse que o jovem foi “linchado por correr sendo negro”. “Acho que esa é a primeira vez na história do estado da Geórgia em que houve uma condenação por um crime federal de ódio”, afirmou.

Durante entrevista coletiva em Washington, o secretário de Justiça Merrick Garland disse que seu departamento “usará todos os recursos à disposição para confrontar atos ilegais de ódio e responsabilizar aqueles que os perpetram”.

O promotor Bobbi Bernstein concluiu que, se Arbery não fosse negro, teria voltado para jantar em casa depois de sua corrida naquele domingo. “Fizeram suposições sobre Ahmaud por causa da cor de sua pele. Isso não teria acontecido se ele fosse branco”, disse.

PERSEGUIÇÃO E MORTE FORAM GRAVADAS

Arbery tinha 25 anos quando foi morto. Ele trabalhava em uma empresa de lavagem de caminhões e no negócio de paisagismo de seu pai e costumava praticar corrida naquele bairro.

Os McMichaels insistiram que não agiram por animosidade racial, mas por autodefesa e por acreditarem que Arbery parecia suspeito quando o viram correndo pelas ruas após uma série de arrombamentos na área.

O julgamento revelou, no entanto, que não houve roubos na época do crime, mas furtos de carros destrancados. Os promotores federais apresentaram depoimentos de 20 testemunhas e outras evidências que, segundo eles, comprovaram que os três homens tinham um longo histórico de declarações racistas e insulto a negros. A defesa encerrou seu caso depois de chamar apenas uma testemunha.

Nunca houve nenhuma contestação sobre o fato de o jovem McMichael ter disparado sua espingarda três vezes contra Arbery à queima-roupa.

O assassinato foi gravado em vídeo por Bryan e provocou indignação pública quando foi publicado nas mídias sociais mais de dois meses depois, sem ninguém ter sido preso, apesar de Travis McMichael haver admitido à polícia que atirou em Arbery.

Ativistas pelos direitos civis apontaram a demora nas prisões dos três homens à época como mais um exemplo de aplicação da lei que permite que criminosos brancos fiquem impunes no assassinato injustificado de pessoas negras.

O nome de Arbery foi um dos frequentemente lembrados na onda de protestos contra a injustiça racial nos Estados Unidos depois que outro homem negro, George Floyd, também desarmado, foi morto por um policial branco ajoelhado sobre seu pescoço até que ele não pudesse mais respirar, em maio de 2020.

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