sábado, novembro 27, 2021

Albinismo sob o sol

“Comecei a me dar conta de que era diferente porque via as crianças: elas eram “coloridas”, e eu não”

ROBERTO BÍSCARO

“Teve um período em que eu queria negar que era albino. Mas, quando eu vi que o mundo tinha espaço para eu fazer coisas, percebi que não precisava estar revoltado o tempo todo, e passei a ser mais pró-ativo”

IDEM

“Sou como um popstar sem dinheiro”

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No blog “O Albino Incoerente”, o professor de inglês e literatura Roberto Bíscaro, 42, reúne informações sobre a condição genética no Brasil e no mundo na tentativa de combater o preconceito.

Cercado por uma vegetação exuberante, óculos escuros, mãos nos bolsos, “Dr. Albee” encara, entre altivo e relaxado, o visitante de “O Albino Incoerente” (albinoincoerente.blogspot.com), blog que criou para dar visibilidade aos albinos no Brasil e no mundo.

Na foto, o professor de inglês e literatura não se furta ao sol de Penápolis (491 km da capital paulista), onde mora. Fora do mundo virtual, a busca pela superação de desafios também não cessa: aos 42 anos, o paulistano Roberto Bíscaro se dedica -entre as aulas na Faculdade de Filosofia de Penápolis e as viagens ao exterior que são um de seus hobbies- a alimentar o que espera ser um dia “a maior central mundial de informações on-line sobre albinismo”.

Nem sempre foi assim. Na infância, o assunto era cercado de silêncio, e os poucos comentários que se faziam era que um irmão mais velho de Roberto, morto quando ele era bebê, havia sido “igualzinho” a ele. Hoje o albinismo já faz parte das conversas do professor com a família, formada por dois irmãos mais velhos e pela mãe de 78 anos, com quem mora.

Filho de um alfaiate e de uma empregada doméstica, Roberto “tinha tudo para dar errado”, como diz. “Comecei a me dar conta de que era diferente porque via as crianças: elas eram “coloridas”, e eu não.” Os apelidos na escola, como Branca de Neve, reforçaram a consciência da diferença.

O estratagema para superar a discriminação foi compensar os conflitos de autoestima e ser “atirado”. “Eu fazia teatro, era o inteligentinho da sala.”

Popstar

Foram necessárias três décadas para que ele se conscientizasse da necessidade de se cuidar adequadamente -o uso de protetor solar e óculos que protegem seus quatro graus de miopia, imprescindíveis em qualquer hora do dia e condição climática, tornou-se sagrado apenas após os 30 anos.

“Teve um período em que eu queria negar que era albino. Mas, quando eu vi que o mundo tinha espaço para eu fazer coisas, percebi que não precisava estar revoltado o tempo todo, e passei a ser mais pró-ativo.” Ato seguido, a partir da suspeita de que sua situação social confortável fosse uma exceção entre os albinos, decidiu “arregaçar as mangas” para que o assunto saísse das sombras.

A percepção de Roberto é corroborada por Lília de Azevedo Moreira, professora titular do Instituto de Biologia da Universidade Federal da Bahia e coordenadora do programa Genética em Articulação com a Sociedade, da universidade.

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Em estudo realizado em 2007 junto à Apalba (Associação das Pessoas com Albinismo na Bahia), verificou-se entre a comunidade albina do h1207200901Estado uma maior proporção de pessoas vivendo em bairros periféricos, com grande demanda de serviços sociais e de saúde. “O baixo nível de escolarização foi associado não apenas à pobreza mas também à falta de apoio diante das dificuldades de visão no período inicial de escolaridade”, diz a pesquisadora.

Doutor em dramaturgia norte-americana pela Universidade de São Paulo, Roberto diz nunca haver tido problemas em sua profissão por conta do albinismo e considera positivo o fato de, na vida privada, não ser encarado pelos amigos como alguém que deva ser tratado “cheio de dedos”.

Apesar de não prestar mais atenção no que lhe dizem na rua -o MP3 é companhia a cada saída-, não deixa de notar os olhares de surpresa que continua a atrair. “Sou como um popstar sem dinheiro”, brinca.

Pelo que pesquisa e recebe de mensagens em seu blog, Roberto afirma que a maior demanda da comunidade albina é que se desenvolvam políticas de saúde pública direcionadas aos albinos e que a sociedade tenha mais informações sobre o albinismo, a fim de que se diminua o preconceito.

“Existe um levantamento sobre a aparição de albinos em filmes, e quase sempre eles estão relacionados a personagens maus, existe até albino atirador de elite. Como assim? A gente não enxerga nada, como vai ser atirador de elite?”, pergunta, entre divertido e indignado.

Ler, reler e assistir a várias versões de clássicos como “Orgulho e Preconceito”, romance da britânica Jane Austen, são algumas das atividades preferidas do professor, mas ele não vê problemas em se dedicar com o mesmo interesse aos últimos lançamentos de rap americano, por exemplo, do qual é fã.

Daí batizar seu blog de “O Albino Incoerente”. “Existe a ideia de que doutores gostem apenas do suprassumo da cultura. Acho isso um porre. E também mudo de opinião rápido. Um ou dois dias antes de criar a página, disse a um amigo que nunca teria um blog”, ri.

Táticas de sobrevivência

No blog, a prosa fluida e bem-humorada de Roberto aborda notícias vinculadas a casos de violência contra albinos pelo mundo e a direitos e problemas de pessoas portadoras de deficiência. Também se encontram fotos de animais albinos e uma miríade de referências culturais à existência de albinos desde que o mundo é mundo -Noé, por exemplo, teria sido um deles. “Mostro que é possível ser saudável, fazer coisas, ter uma vida interessante”, diz.

Em posts mais pessoais, o professor, que produziu ainda uma série de vídeos, postados no Youtube, sobre sua condição genética, comenta surpresas advindas de suas andanças pelo mundo -as letras garrafais dos ônibus de Buenos Aires o fascinam- e compõe um manual de “táticas de sobrevivência” que se renovam a cada dia.

“Se eu marco encontro com alguém, tento sempre chegar primeiro”, ensina. “Assim, como não enxergo bem, a pessoa que chega depois é que tem que me procurar, e eu não preciso ficar tentando encontrá-la”.

 

Matérias originais: Albinismo sob o sol , Frases

 

 

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