segunda-feira, dezembro 5, 2022
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Alerta para o Brasil: Estados Unidos vivem pior momento desde a segregação

A vitória de Joe Biden se deve muito à comunidade negra e às muitas mobilizações feitas por organizações como a Fair Fight, da ativista Stacey Abrams, igrejas negras, movimentos como o Black Lives Matter, além de muitos atletas, como o astro Lebron James e celebridades negras que impulsionaram os afro-americanos a votarem no candidato democrata à presidência. Tudo isso reverberou na derrota de Donald Trump e do partido Republicano.

Agora, mostrando como a questão racial é crucial na história americana (assim como no Brasil), os parlamentares e governadores trumpistas assumiram de vez o contra-ataque à discussão sobre o racismo, sobre a escravidão e suas implicações para a formação da sociedade norte-americana. Os Republicanos abriram uma perseguição contra a chamada Teoria Crítica Racial e seu ensino nas escolas do país.

Neste momento, os republicanos estão com uma verdadeira campanha com o objetivo de impor como o racismo histórico é ensinado, intimidando professores e diretores de escolas e enfrentando resistência de democratas e educadores em um confronto político que, no limite, visa formar uma nova geração de crianças e adolescentes que ignorem ou relativizem o passado e o legado escravocrata dos americanos.

Causa estranheza como a imprensa brasileira, que abasteceu o Brasil com coberturas sobre a repercussão do assassinato de Floyd e os protestos pelos Estados Unidos, agora simplesmente ignora este que é o momento mais delicado na história da democracia americana desde o período da segregação. Além disso, há razões para crer que a investida Republicana lá inspire propostas e ataques dos conservadores tupiniquins por aqui.

Teoria crítica da raça

A teoria crítica da raça é um conceito acadêmico com mais de 40 anos. A ideia central é que o racismo é uma construção social e que não é apenas o produto de preconceitos individuais, mas também algo embutido em sistemas jurídicos e políticas. Ela surge entre acadêmicos negros, inicialmente no campo do Direito, e foi fundamental para ajudar a entender muitas das desigualdades intrínsecas da sociedade americana.

Mas, agora, a TCR se tornou o alvo preferencial dos republicanos, numa cruzada que eles afirmam ser para manter o país “unido” e fiel aos “pais fundadores”. A investida teve até coletiva de imprensa, com deputados de diferentes estados, em frente ao Capitólio, acusando a TCR de “trazer divisão” e “ódio avançado”.

“Hoje, escrevi uma carta ao Conselho Estadual de Educação opondo-me à teoria crítica da raça em nossas escolas. Essa agenda antiamericana não tem lugar nas salas de aula da Geórgia”, é o que disse o governador da Geórgia, Brian P. Kemp.

Um projeto de lei foi apresentado para proibir o TCR nas salas de aula no estado de Ohio, enquanto o governador da Iowa recentemente pediu uma ação contra o ensino da TCR.

O Senado do Texas encaminhou um projeto de lei ao governador Greg Abbot que diz que os professores “devem explorar vários pontos de vista sem dar deferência a qualquer um dos lados”. Isto é, será preciso ensinar que há o lado do escravocrata, e que supremacistas brancos teriam “suas razões”.

Em vários estados, os pais brancos têm pressionado as escolas públicas e conselhos de educação para banir o ensino da TCR. Nas escolas privadas, e caras, vários pais estão ameaçando não manterem seus filhos, retirando seu dinheiro de lá, pressionando escolas para demitirem professores que insistem na abordagem da teoria crítica. Os pais acusam as escolas de ensinarem as crianças a “odiarem elas mesmas” por serem brancas.

A situação é tão grave que durante a sabatina no Senado da engenheira Jill Hruby, indicada do presidente Joe Biden para assumir a direção da Secretaria de Segurança Nuclear Nacional, o senador Tom Cotton, do estado de Arkansas, gastou boa parte do seu tempo fazendo perguntas que pediam a Hruby para explicar se ela usou o método da TCR no passado para treinar funcionários sobre “privilégio branco” ou “racismo sistêmico”.

Diferente do período da segregação, quando pessoas racistas se assumiam como superiores às pessoas negras e verdadeiras cidadãs portadores de direito, o ataque à TCR é feito por pessoas brancas que se sentem “privadas de sua liberdade” e injustamente “responsabilizadas” pelo racismo nos Estados Unidos. Essa vitimização, em contraste com o ar de superioridade do passado, diz muito sobre a pressão contra o histórico privilégio por ser branco num país formado e mantido por uma população diversa, cuja história nacional passou do genocídio indígena à escravidão negra e aos explorados latinos e imigrantes pobres.

A derrota de Trump fez os republicanos radicalizarem para manter o poder. De um lado, governadores e legisladores republicanos lutam para mudar sistema de votação, dificultando o acesso da comunidade negra e imigrantes. Não deixarão fácil se repetir o que aconteceu na Geórgia, que não apenas derrotou Trump como elegeu seu primeiro senador negro, Raphael Warnock.

Do outro, o ataque à TCR é também um apelo à população branca e conservadora, para que reaja à “ameaça” à sua condição de “verdadeiros americanos”. É nitidamente um pacto da branquitude da supremacia branca. Se já não podem caçar negros nas ruas, vão caçar sua versão dos Estados Unidos e impedir que ela se sobressaia.

“Guerra cultural”

Esta “guerra cultural” está acontecendo sem grande repercussão estrangeira. Mas é fundamental que o Brasil esteja atento a esses movimentos. Se por um lado não há (ainda) uma relação direta, é inegável a inspiração que os projetos de lei dos republicanos e sua ingerência na educação causam nos defensores das pouco explicadas “escolas cívico-militares”.

Enquanto o equivocado projeto de “escola sem partido” não conseguiu avançar, esbarrando no confronto com professores e educadores, as escolas cívico-militares vão ganhando cada vez mais espaço e reafirmando o apagamento da visão crítica sobre o racismo no Brasil.

Além disso, o presidente daquela que deveria ser a principal instituição pública brasileira na defesa e preservação da memória negra, a Fundação Palmares, embora sendo um homem negro, é entusiasta da negação do movimento negro, do apagamento da luta do povo negro e da nociva influência do legado colonial-escravocrata no país. Essa luta nos Estados Unidos vai longe e não pode ser invisibilizada, porque também diz muito sobre nós.

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