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Apesar do governo e da polícia, há vida e amor no Cabula

Na manhã do último sábado, 7 de março, moradores da Vila Moisés, no Bairro do Cabula, periferia de Salvador (BA) promoveram, em conjunto com a Campanha Reaja ou Será Morta! Reaja ou Será Morto! um emocionante momento de reflexão e fortalecimento da resistência negra às ações violentas do Estado e da polícia.

Foto: Gabriel Brito/Correio da Cidadania

Por Douglas Belchior, com fotos de Leo Ornelas, no NegroBelchior

Início da atividade na Vila Moisés, bairro do Cabula – Salvador
Início da atividade na Vila Moisés, bairro do Cabula – Salvador

A atividade aconteceu exatamente um mês após a trágica ação das Rondas Especiais – Rondesp, tropa de elite da PM Baiana, que resultou em uma Chacina que deixou 12 mortos e 5 feridos, todos eles jovens negros e moradores daquela região. O Ato também foi um tributo à Clodoaldo Souza, o Negro Blul, assassinado aos 22 anos de idade, pela polícia, na comunidade de Nova Brasília, no ano de 2006.

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“Essa atividade marca também os 10 anos da Campanha Reaja, sempre ao lado dos moradores das comunidades e dos familiares de vítimas desse Estado racista. Aqui, o comando é da comunidade!”, disse ao abrir os trabalhos a Dra. Andrea Beatriz, coordenadora do Quilombo Xis – Ação Cultural Comunitária e uma das principais articuladoras da Campanha Reaja.

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Comunidade: medo e desejo de paz

O sorriso inocente das muitas crianças que brincavam desde cedo pelas ruas e becos da comunidade contrastavam com o olhar apreensivo e atento de senhoras e senhores, e com a revolta verbalizada e exposta pelos jovens moradores do bairro. A postura era de poucas palavras e muita desconfiança, principalmente por conta da presença de equipes de TV que acompanharam a atividade. E com toda razão, afinal, assim como em todo país, a programação das principais redes de TV e de programas jornalísticos da Bahia dedica-se a promover a ação violenta das polícias, endossar a truculência do governo e principalmente criminalizar a população negra.

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A mensagem de paz, amor e respeito à diversidade foi simbolizada pelo culto ecumênico que abriu a atividade política e contou com a presença de um pastor evangélico, representantes de terreiros de candomblé e da comunidade islâmica.

Ato Ecumênico
Ato Ecumênico

O rapper e poeta Okaris, jovem negro militante e morador da periferia de Salvador, em sua mensagem à comunidade falou da importância da tomada de consciência entre os jovens: “Muitas vezes acabamos, por falta de oportunidades ou até mesmo por revolta, fazendo exatamente o que o sistema quer que a gente faça. As vezes nos envolvemos em situações que eles usam pra justificar a violência contra nós. Nós estamos com medo de nós. Precisamos nos unir e nos amar.”

Prof. China Baiano, que tem trabalho social com Boxe na comunidade
Prof. China Baiano, que tem trabalho social com Boxe na comunidade

A violência racista do estado e da polícia

Para Hamilton Borges, militante do movimento negro baiano e fundador da Campanha Reaja, é preciso reagir com mais força: “A política de segurança pública e o sistema de justiça no Brasil são racistas. Odeia e quer matar os negros. Precisamos de uma reação mais dura. Precisamos exigir o fim da policia militar. Aqui (em Salvador) há um componente a mais, pois existe um cinismo de uma localidade de maioria negra ser tratada como se não fosse nada”.

Hamilton Borges recita poesia durante Ato
Hamilton Borges recita poesia durante Ato

Perguntado sobre a postura do governador que, apesar de ser vinculado a um partido “de esquerda”, se posicionou a favor da ação policial que resultou na chacina, Hamilton foi duro: “Pra gente não tem novidade nenhuma. Ele – o Governador – se congrega e está filiado a uma casta de superioridade branca que tem massacrado os negros todos esses anos. Ele esta fazendo apenas o seu roteiro habitual”, dispara.

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Para o sociólogo e professor da UNEB, Fábio Nogueira, militante do Circulo Palmarino, o governador da Bahia, com suas declarações, estimula e endossa a violência policial, “O Governador sinaliza para uma parcela enorme da população – eleitorado – que apoia esse tipo de conduta policial”.

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Artistas, poetas, militantes e representantes de diversos estados se solidarizam

Maria de Fátima Silva, mãe de Douglas Rafael da Silva Pereira, o dançarino DG que fazia parte da trupe do programa Esquenta, morto em abril durante uma ação militar na no Pavão-Pavãozinho, no Rio de Janeiro, também esteve presente. Perguntada por este Blog se ela via algo em comum entre a ação que matou seu filho e a chacina ocorrida no Cabula, na Bahia, foi enfática: “A cartilha policial é universal. Vale para todos os Estado do Brasil. A seletiva é racial. DG era só mais um negro. Um negro de periferia, só isso”.

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Dexter, Nelson Maca e Gog, na comunidade

 

O Rapper Dexter, que foi à Salvador especialmente para participar da atividade, reafirmou o papel do Rap em continuar denunciando a dura realidade vivida por jovens negros nas periferias do país: “Enquanto me preparava para vir para Salvador, nessa madrugada, 11 jovens foram assassinados no Jd. São Luiz, zona Sul de São Paulo. Igual ao que aconteceu aqui no campinho da Vila Moisés no mês passado. Igual ao ano passado, retrasa

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GOG, o poeta do rap, em seu recado à comunidade, falou da importância de uma reação também interna. “É preciso reagir na forma de pensar e de organizar a nossa reação. Temos necessidades que são imediatas e que precisamos resolver agora, mas sem deixar de lutar por mudanças maiores.”

GOG manda seu recado
GOG manda seu recado

Estiveram presentes também rappers e poetas locais, dentre eles Nelson Maca, o poeta Ricardo Aleixo, do poeta e grafiteiro Zezé Ifatola Olumeki, as rappers e militantes do Kilombagem SP, Katiara e Tata, as ativistas Fernanda Monteiro eArísia Barros, o secretário nacional de juventude Gabriel Medina, representação do CONANDA (papel que cumpri), e representantes de grupos políticos e Ongs de Direitos Humanos, Movimento Sem Teto, Levante Popular da Juventude, Enegrecer, Rosa-Zumbi, Círculo-Palmarino, Uneafro-Brasil, Justiça Global do Rio de Janeiro, Conselho Regional de Psicologia CRP-SP, AJD – Associação de Juízes pela Democracia, entre outros.

 

Sobre as investigações

Até o momento, um mês depois da chacina, as informações são de que os policiais da Rondesp que promoveram o massacre continuam trabalhando normalmente.

Segundo a imprensa local, a Secretaria de Segurança Pública declarou que “nenhum policial foi afastado, pois, inicialmente, não há elemento que comprove a ilegalidade da ação”.

Uma reconstituição da ação deverá ser realizada nos próximos dias, em data a ser definida. Cerca de 40 pessoas já foram ouvidas por quatro delegados destacados para o caso. O CONANDA – Conselho Nacional dos Direitos da Criança e do Adolescente, aprovou uma NOTA sobre o ocorrido e deve protocolá-la junto ao Governo Estadual, SSP e MP até esta segunda feira (10).

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