sábado, setembro 18, 2021
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As convicções de Babu Santana

Não, esse não é um texto sobre a atual edição do Big Brother Brasil. Não iremos fazer uma análise moral sobre os participantes do programa ou suas torcidas. Aqui queremos tratar de um tema presente no programa a partir de apontamentos e fala de um dos jogadores. Alexandre da Silva Santana, ou somente Babu. De forma simples e direta, Babu, trouxe em diversos momentos o tema racial em seus diversos aspectos.

Uma das principais convicções apresentadas por Babu é que o Brasil é um país racista, e que ele é um homem negro inserido nessa realidade. É sobre isto que este texto aborda: raça, racismo, negritude e branquitude no Brasil.

A raça como processo histórico

Devolver o orgulho pro gueto, e dar outro sentido pra frase “tinha q ser preto”
Leandro Oliveira, ou Emicida

A noção de raça, como forma de dividir e categorizar seres humanos, surgiu durante a expansão do capitalismo mercantilismo e com ele as grandes navegações. Estes foram a base histórica para um desenvolvimento filosófico que buscava explicar o que era o ser humano, e apresentava o homem europeu como representação deste homem universal.

O homem universal (que no mundo material tem sua expressão física de carne e osso como sendo a do homem burguês em ascensão) surge no período que vai do renascimento até a expansão da filosofia iluminista, na Era da Razão e no Século das Luzes, ou seja, em mais ou menos três séculos, durante o século XV e XVIII. Este período histórico marca ainda tanto a ascensão econômica da burguesia, até que ela passe a se tornar também a classe politicamente dominante, quanto as grandes navegações, que serviram para aquilo que Karl Marx chama de acumulação primitiva do capital.

Este homem universal (burguês e europeu) e sua filosofia racional, levam ao resto do mundo morte, sequestro, pilhagens, ocupações, escravidão e aquilo que conhecemos como colonialismo. O que deveria ser uma contradição entre as noções aparentemente universais desta filosofia, porém, não é, justamente pelo conceito de raça. Desta forma, a divisão e caracterização de seres humanos passou a servir ao projeto do colonialismo e legitimou a destruição de povos e a escravidão na África, Oriente Médio, Oceania, Ásia e nas Américas. Os não europeus passaram a ser povos sem história, inferiores, atrasados e que pouco se diferenciavam dos animais.

O desdobrar do século, fez com que a noção filosófica de raça, também se desenvolvesse. A biologia, partindo de uma ótica colonial, passa a estudar o ser humano e apresentar suas teorias para explicar a diversidade humana. Surge assim noções que afirmavam que as características biológicas e geográficas (como a cor da pele e o clima tropical) são determinantes para uma diferenciação intelectual e psicológica. Os povos de pele não-branca seriam por isso menos capazes e inteligentes e mais propensos a violência e a imoralidade. São inúmeras as teorias que buscam justificar tal visão e dar uma cara científica que legitimassem as ações dos Estados Europeus contra os povos não-brancos.

Ressaltamos que a noção de raça, como a conhecemos, surge em um momento histórico específico. Ela é construída sócio-historicamente. Não surgiu do nada, não existe desde sempre, e isto demonstra também, que ela muda e se transforma ao longo do tempo e dos processos sociais. A raça não existe de forma isolado, ela não é uma característica biológica, como se afirmava no século XVIII. A raça é uma construção social.

O racismo como forma de dominação

Cê já é preto
Num sai desse jeito, se não eles te olha torto
Gustavo Marques, ou Djonga

O racismo é antes de tudo um instrumento de poder. Poder, é, em essência, a capacidade de dominação, seja essa vindo por meio de aparatos ideológicos ou de repressão direta. O racismo seria portanto, a ideologia que legitima tratamento diferenciado de opressão e discriminação, de um grupo social que teria características raciais distintas e consideradas inferiores. E desta forma, um grupo social de características raciais consideradas superiores buscaria se impor e exercer um processo de dominação.

Como dito acima, a noção de raça e agora o ato do racismo, estão intrinsecamente ligados ao colonialismo, surgindo como uma justificada sócio-moral para este. O colonialismo, por sua vez, faz parte do processo de expansão, surgimento e consolidação do Modo de Produção Capitalista. Desta forma, o capitalismo se apropria do racismo para que possa se desenvolver. O racismo se transformava em uma teoria de Estado e em uma prática genocida de Estado, responsável por legitimar o assassinato milhões de povos não brancos.

O surgimento dos principais Estados Nações europeus, e suas posições dentro do sistema de Estado do capitalismo, se deu, essencialmente, a partir da fusão entre o modo de produção capitalista nascente e o racismo colonial.

Nas agora colônias, a fusão capitalismo e racismo colonial se deu de forma diferente dos países espoliadores, e o caso de cada País tem inúmeras especificidades. Porém, podemos apontar que nestes, o surgimento do Estado como conhecemos hoje, se deu como forma de garantir a dominação racial que garantia a organização da produção interna e a exploração. Foram Estados importados, que se efetivaram por meio da força exercida pela metrópole, e que seus aparelhos de dominação (justiça, exército e etc) serviam para manter a dominação da metrópole sobre a colônia, assim como, para garantir o processo de exploração da força de trabalho escrava, que se baseava na discriminação racial. Podemos afirmar, portanto, que os Estados nas colônias foram impostos de forma racializadas, o que tem consequências até hoje.

O tornar-se negro

Coragem e coração começam com cor (…)
Nosso povo e escravidão termina com dor
(…) E eu centrífugo tudo isso
Vou me construir de novo
Tô dando orgulho pra minha quebrada
Karoline Oliveira, ou Karol Conka

Se a raça não existe como uma diferenciação biológica, qual o sentido em se falar em raça no Brasil? Esta é uma pergunta sincera e não é de simples resposta.

É possível dizer que o racismo, como um dos objetos fundantes do Estado brasileiro e de nosso capitalismo dependente, passa a retroalimentar a noção de raça, e que, ele molda as relações históricas de nosso país, assim como o surgimento e desenvolvimento das instituições estatais. O racismo se torna uma “relação social” que passa a intermediar as relações interpessoais, institucionais, e entre estado e sociedade civil.

Dessa forma, o sujeito quando se relaciona em sociedade, recebe uma carga histórica e social sobre seu corpo, fruto de acontecimentos e noções anteriores a sua existência. Este sujeito se torna um sujeito racializado, que a depender de suas características biológicas (cor da pele, formato do rosto e de cabelo, etc), passa a ser inserido no processo de racismo, como aquele que sofre as consequências desta opressão social, ou como aquele que recebe vantagens da mesma, ainda que de forma inconsciente. Ao longo de sua vida, as ações e práticas deste sujeito em seu dia-a-dia serão atravessadas pelo racismo como relação social.

O ser negro ou ser branco, na forma distintas que estes corpos vistos pela sociedade, é uma construção social. Como afirmou Lélia Gonzalez: “A gente não nasce negro, a gente se torna negro. É uma conquista dura, cruel e que se desenvolve pela vida da gente afora. Aí entra a questão da identidade que você vai construindo. Essa identidade negra não é uma coisa pronta, acabada.”

Se por um lado o tornar-se negro é um processo sócio-histórico de racialização vindo do exterior ao sujeito e fruto do racismo como relação social, como afirmam autores como Frantz Fanon, Stuart Hall, Silvio Almeida, entre outros. Um outro processo também foi identificado, porém, este se daria em um outro terreno, no terreno da política.

Aqui o sujeito passa a se auto-identificar como negro. Ele se torna negro por escolha. É um processo de racialização às avessas. Pois, enquanto o racismo transforma características físicas e culturais deste sujeito de pele escura em algo negativo, este novo processo, faz com que estas mesmas características sejam vistas como positivas.

Este movimento político foi algo que fez o Partido dos Panteras Negras nos Estados Unidos, assim como diversos movimentos de libertação nacional na África. Podemos fazer uma analogia com os conceitos de classe em si, e classe para si, usados por Karl Marx. Desta forma, o classe para si seria este movimento político de tornar-se negro para si, que recebeu alguns nomes. Aimé Césaire primeiro e depois Kabengele Munanga chamam esse processo de “negritude”. O sul-africano Steve Biko, por sua vez, denominou de “consciência negra”. O brasileiro Guerreiro Ramos utilizou “personalismo negro”. Kwame Ture, nascido em Trinidad Tobago, não chegou a sistematizar um conceito, mas utiliza “poder negro”.

Apesar de diferenças entre os autores, muito do pensamento negro, se buscou em construir não só uma teoria anti-racista, mas um movimento político, que confrontasse a ordem estabelecida racial, partindo do processo de assumir a condição de negro e se desalienar da visão racista de mundo.

Precisamos falar sobre branquitude

Eu não estou com raiva e eu não sou louco. Eu sou um homem negro em um mundo branco.
Michael Kiwanuka

Como dito ao longo deste texto, a raça é uma construção social. Da mesma forma que a visão social do sujeito de pele escura, o negro, foi construída através de um processo de racialização. O mesmo também se dá com aqueles de pele clara, os brancos. Essa racialização tem consequências diferentes. Pois, a construção social que este sujeito vai ser inserido lhe será favorável. De forma consciente ou não, ele passará a ter vantagens marcados pelo fator racial em confronto com um sujeito negro.

Ao longo da luta anti-racista, corretamente, se tem falado sobre a negritude e em como o sujeito negro pode combater a discriminação racial que está inserido. Ou seja, se tem falado, estudo e teorizado bastante sobre o oprimido, o que é central, visto que a este cabe o papel na luta contra o colonialismo e o racismo. Porém, vemos lacunas quando se trata sobre o papel daqueles que desfrutam do privilégio causado pelo racismo, ou seja, das pessoas brancas.

Podemos falar que importantes estudos foram feito sobre a identidade racial branca. Autores contemporâneos como Maria Aparecida Silva Bento, Liv Sovik, Peter Rachleff, Vron Ware assim como o já citado Guerreiro de Ramos, foram importantes na elaboração deste tema.

A partir destas contribuições é possível afirmar que a identidade racial branca não é homogênea nem estática, ou seja, ela se modifica ao longo da história. E esta identidade racial, que se constrói ao longo da história, pode ser entendida como: branquitude. Desta forma, o corpo branco sofre este processo de racialização, e ocupa um espaço de poder determinado socialmente pelo seu grupo racial, usufruindo assim de vantagens simbólicas, subjetivas, objetivas e concretas.

O termo branquitude foi utilizado pela primeira vez no Brasil por Gilberto Freyre, como uma negação do mesmo, afirmando que ele e nem o conceito de negritude se enquadram no Brasil, pelo fato de nosso país ser um país “mestiço”. O mito de democracia racial e do Brasil como um paraíso da relação entre as raças, faz parte do processo de dominação racial que temos em nosso país.

Por sua vez, foi Guerreiro Ramos, o primeiro a propor um estudo sobre a identidade racial branca em solos brasileiros. Ele utilizava o termo “brancura”, que em tempos atuais, seria o conceito de branquitude. Para o autor a “patologia da brancura” era um fenômeno em que o branco se afirmava por aquilo que ele não é: ou seja, a identidade racial branca no Brasil era formada pelo afastamento de traços tantos físicos quanto culturais pertencentes aos negros. Assim, esta identidade branca era um afastamento de uma pequena elite e classe média de uma imensa maioria da população formada por negros. E isto formava uma elite que não tinha uma relação com a nação e detestava tudo que era nacional, buscando assim, na cultura europeia e nos traços europeus sua superioridade.

As ideias de Ramos, suscetíveis a críticas, ainda são muito válidas para buscarmos entender a construção da identidade racial branca, assim como na forma que a identidade racial negra é construída em nosso país. Pois, para o autor, esta “patologia da brancura” não ficava restrita apenas aos sujeitos de pele clara. Ramos aponta que esta visão de mundo e construção social branca, atingia os sujeitos negros, que tinham em seu subjetivo o ideal branco europeizado como padrão a ser atingido.

Afirmar que a raça é uma construção sócio-histórica, assim como o racismo, e a própria branquitude, significa que não existe uma “essência branca” natural que faça que as pessoas de pele branca sejam racistas. Mas que elas estão inseridas em uma sociedade racista que racializa os corpos, assim, elas usufruem de privilégios, de forma direta ou indireta. Significa também, que é possível fazer uma mudança na forma que a sociedade se organiza socialmente, e que sujeitos brancos são importante aliados na luta contra o racismo.

Valeu Babu!

Eu quero ser maior que essas muralhas que eles construíram ao meu redor
Abebe Bikila, ou BK

Que o Big Brother Brasil é um programa feito acima de tudo pensando no lucro da Rede Globo não se tem dúvidas. Da mesma forma, que qualquer progressista faz inúmeras críticas ao papel histórica da Rede Globo no país, apoiando Golpes e retirada direitos sociais do povo trabalhador. Assim como, não se tem ilusões que a Globo, como um veículo de mídia de massas, cumpre um papel de divulgação da ideologia de setor da burguesia brasileira, e trabalha na apropriação de pautas sociais dando a elas uma visão liberal que caiba dentro de um capitalismo periférico como o brasileiro.

Apesar disto, a participação de Babu no BBB trouxe, além de momentos de entretenimentos, um debate racial que foi feito de forma didática e prática, e entrou na casa de milhões de brasileiros. Babu, infelizmente, sofreu racismo de forma escancarada. Foram diversas vezes que isto aconteceu. O mesmo teve suas características físicas e seu jeito ridicularizados, por outros participantes. Foi taxado como perigoso e monstro. Algo que fez com que o debate sobre a forma que o negro é visto na sociedade fosse visto por parte da população.

Babu trouxe inúmeros exemplos no combate ao racismo, seja quando se opôs a forma que outros participantes do programa se colocavam, ou quando em conversas ele apresentava sua visão sobre racismo, sobre o mundo, sobre o nosso País. Como se costuma falar nas redes sociais, Babu deu “aulas”.

Babu diariamente se auto afirmava enquanto negro. Algo que deve ter influenciado diversos telespectadores no processo de reversão da lógica racista colonial sobre o “ser negro”. Fazendo que muitos avançassem ou buscando assumir sua negritude.

Toda crítica ao racismo e ao funcionamento da sociedade merece ser comemorada.

Por fim, mas não menos importante, que todos nós possamos nesse momento de dificuldade ter um pouco do gingado de Babu Santana.Toda crítica ao racismo e ao funcionamento da sociedade merece ser comemorada. Afinal, os revolucionários que buscam derrubar o capitalismo e tomar o Poder são uma imensa minoria da sociedade. Dessa forma, aliados que ajudam a desmascarar, revelar e mostrar as facetas do racismo e a relação do racismo com capitalismo, são sempre bem vindos. Babu se mostrou um aliado importante na luta racial. Como diz o velho ditado: palavras inspiram e exemplos convencem.

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