segunda-feira, outubro 3, 2022
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As matemáticas das negras que ninguém vê: saberes emancipatórios tecidos por trancistas afro

Debates em torno do uso das tranças afro tem sido cada vez mais frequentes nas redes sociais; quem pode, quem deve e quem não pode usar tranças? Temos vistos uma série de grupos, páginas, perfis e reportagens que abordam o uso dos cabelos trançados por pessoas negras e não-negras. De um modo geral, nota-se que os penteados têm sido bastante utilizados por personalidades, intelectuais e pela população. Neste fenômeno devemos reconhecer o protagonismo e ações dos movimentos negros para afirmação da corporeidade negra e sobretudo a forma pela qual os movimentos negros tornaram penteados trançados, bitôs, dreadlooks e black power, no contexto da diáspora, símbolos de identidade negra. Apesar dessas inegáveis vitórias chama atenção ainda a pouca visibilidade que tem as profissionais que trabalham com o serviço de estilizar cabelos crespos e não crespos com arranjos capilares trançados entre outros afro. Ou seja, quais são as visibilidades sociais e quais interesses acadêmicos existem a respeitos das profissionais que prestam o serviço de oferecer a realização de penteados artesanais que não alteram a estrutura dos fios crespos.

As trançadeiras, trancistas ou tranceiras negras são as responsáveis por toda esta cultura corpórea afro-diaspórica que visualizamos na atualidade e aprendemos em alguma medida a respeita. Sem dúvidas, elas são promotoras de uma cultura estética, uma cultura política da imagem que tem sido traduzida nos corpos. Porém, quem são estas mulheres é uma das perguntas que venho procurando responder atualmente no curso de doutorado em Ciências Sociais da PUC. Saber quem trança, por que trança, em quais condições tranças, qual perfil social destas trabalhadoras é uma chave de análise para compreendermos as estratégias de mulheres negras para sobreviverem na sociedade brasileira e se manterem economicamente ativas. Mas , as perguntas de quem está por detrás da trança serão tratadas com maiores cuidados na tese em andamento.

Neste texto, pretendo trazer algumas pistas acerca do potencial que elas as trançadeiras carregam em suas mãos, no cotidiano de trabalho e transpõem através das estilizações capilares para a cabeça de seus cliente. Desejo falar da pesquisa que realizei no mestrado. De modo sintético, apresentarei algumas das reflexões da dissertação “Para além da estética: uma abordagem etnomatemática para a cultura de trançar cabelos nos grupos afro-brasileiros” (PPRER/CEFET-RJ, 2013) sob orientação da Dra. Sonia Beatriz dos Santos. Neste estudo, tive como objetivo identificar saberes, fazeres e conhecimentos matemáticos contidos no ato de produzir penteados trançados em cabeças crespas e não-crespas.

Durante os meses de abril e maio de 2013, pesquisei no Salão de Beleza Afro Quilamu, da trançadeira afro Cláudia Talita. No salão, confirmei minhas suspeitas que na elaboração das tranças haviam saberes e conhecimentos não descritos e não reconhecidos pelas ciências como matemáticos. Na realidade, aprendi como a prática de cuidado ancestral passada de geração a geração, ensinada nas famílias negras e mestiças de mãe para filha, de tia para sobrinha, de avó para neta e que também é persistente nos espaços de sociabilidade negras como os terreiros de Candomblé e Umbanda, escolas de samba e outras comunidades quilombistas; apesar de conterem, na minha visão, inúmeros conhecimentos matemáticos, são atravessadas na sociedade brasileira por olhares e concepções estigmatizantes, racistas e preconceituosas. Concepções que associam os cabelos e os penteados negros transatlânticos a falta de higiene e sem processos de ordenamentos das ideias para realizá-los nos cabelos. Falas que rementem os fazeres e saberes profissionais das trancistas/trançadeiras aos lugares de miudezas, de baixa aquisição de repertórios culturais, cognitivos e escolares para exercerem suas atividades.

Certamente estas percepções que atravessam o cotidiano profissional das trançadeiras e dos usuários dos penteados estão conectadas ao nosso legado escravocrata e racista tão pungentes na sociedade brasileira. Desta maneira, neste espaço, confirmei através do olhar de outras mulheres negras aquilo que já sabia acerca das ideias pejorativas que circulam em torno dos penteados afro. Também foi neste espaço que a hipótese da pesquisa sobre a possível existência de saberes e conhecimentos etnomatemáticos na elaboração de tranças e outros penteados afro pode ser comprovada.

Acompanhar as atividades no salão durante os dois meses foi muito significativo para meu espírito, bem como para o desenvolvimento de minha pesquisa. Ver a elaboração das tranças e perguntar a Cláudia e Priscila (trancista e auxiliar do salão) como era para materializá-las, buscar compreender quais segredos e conhecimentos estavam entrelaçados naquela prática descrita por muitos como manifestação da identidade cultural negra na diáspora foi um desafio prazeroso. Esquadrinhar cada caminho percorrido pelas mãos e pensamentos destas mulheres negras para construir penteados e depois associá-los aos conteúdos matemáticos estudados nas escolas (vale dizer conteúdos esvaziados das culturas locais) foi um dos principais pontos que o estudo se ateve. Notar que a cada divisão das mechas capilares as trançadeiras na preocupação de construir um adorno capilar repleto de beleza e superação estética estavam em constantes diálogos com noções da matemática. Fenômeno que me fazia pensar como as noções matemáticas utilizadas por elas nas atividades laborativas deveriam ser inseridas no currículo de matemática escolar.

Na realização das entrevistas e nas respostas que recebia delas sobre o modo como organizavam estilisticamente os cabelos e formavam penteados, era desnudado pra mim novas percepções para enxergar o fazer matemático, um fazer tão distanciado de nossa rotina ou que não aprendemos a perceber imbricado em nossas tarefas e ações da vida cotidiana dentro das instituições de educação formal.

Assim, aprendi com Cláudia e Priscila o lugar de protagonismo das mulheres negras na produção de conhecimentos que alguns como Boaventura dos Santos chamam de emancipatórios, ou seja, não regulados e institucionalizados pelo modus operandis branco, colonial, cristão e racista. Mulheres negras trançadeiras carregavam em suas atividades laborativas técnicas e práticas matemáticas, bem como memórias ancoradas em corpos negros. Assim, algumas perguntas me chegavam nas trilhas da imaginação: como levar estas memórias ou reativá-las em contextos escolares? Alinhei os conteúdos de geometria escolar do sétimo, oitavo e nono ano ao discurso de Cláudia e Priscila. A partir destes discursos de elaboração dos penteados e dos fragmentos de memórias deixado por nossos ancestres fui costurando a tentativa de uma prática educativa que viesse a dialogar com as tranças que carregamos nas cabeças (ori) e no coração (okan).

O lugar das mulheres negras na manutenção destes penteados e a potência que estes fazeres femininos africanos e afro-diaspóricos têm para nos ensinar é um caminho ainda pouco pisado. Mas, acredito que as primeiras iniciativas para percorrê-los tenham sido tomadas nos trabalhos de Gloria Gilmer “Mathematical Patterns in African American Hairstyles” (1999) e de Luane Bento dos Santos “Para além da estética: uma abordagem etnomatemática para a cultura de trançar cabelos nos grupos afro-brasileiros (2013), onde foi possível identificar como os seguintes conhecimentos matemáticos apareciam na confecção dos penteados trançados:

• o feixe de paralelas;
• as frações;
• a diagonal do quadrado;
• a altura do triângulo equilátero;
• a proporcionalidade;
• as formas circulares;
• os padrões fractais, a rotação;
• a reflexão de imagens;
• a translação
• progressão aritmética (P.A)

Todas estas questões estão lá enraizadas na produção destes penteados e suspeito que muitos outros conhecimentos que denominamos matemáticos também estão entrelaçados.

É preciso dizer, repetir, neste e em outros lugares que graças ao papel e a perspicácia das mulheres negras, os penteados não sumiram da paisagem da sociedade brasileira e que estas mulheres precisam serem vistas como produtoras de conhecimentos ancestres, mantenedoras de heranças culturais e sobreviventes de um sistema econômico, político e social que apaga nossas marcas de genialidade, superação e (re)existências.
Olorun Modupé aos leitores!


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