Assassinatos de jovens no Brasil: uma epidemia de indiferença

O Brasil viveu recentemente o choque de ver crianças de 10 e 11 anos, em São Paulo, serem mortas em abordagem policiais que apresentam fortes indícios de uso desnecessário da força letal. Elas não foram as únicas a ter suas histórias tão drasticamente interrompidas. De acordo com os dados coletados pela Ouvidoria das polícias de São Paulo, desde 2010 até o dia 27 de junho, foram 191 crianças e adolescentes de até 16 anos mortas pelas forças de segurança do maior Estado do Brasil, o que equivale a cerca de dois casos por mês. Dez dessas mortes foram de crianças com menos de 14 anos.

Por Atila Roque Do Atila Roque

Infelizmente, homicídio de crianças e adolescentes não é uma exceção no Brasil. O relatório Violência Letal contra as Crianças e Adolescentes do Brasil, divulgado no último dia 30 de junho, revela que o Brasil mata em média 29 crianças e adolescentes por dia. O país convive, tragicamente, com uma espécie de “epidemia de indiferença”, quase cumplicidade de grande parcela da sociedade e dos governos, com uma situação que deveria estar sendo tratada como uma calamidade social: a perda irreparável de vidas, principalmente de jovens e adolescentes, quase sempre negros, moradores de favelas e periferias.

A classe média alta, que mais teme a violência, não é, portanto, a principal vítima. A sociedade está em negação. O racismo e os estereótipos negativos que prevalecem em relação aos moradores de favelas e periferias contribuem diretamente para a distribuição seletiva da justiça e da violência.

É ainda mais grave saber que as forças de segurança são responsáveis por uma parcela significativa desses homicídios.Uma realidade sem vencedores, todos perdemos: perde o sistema de justiça, que não dá conta, perde a polícia que está em guerra contra a sociedade, perde o chamado “cidadão de bem”, brutalizado pelo medo e perde a sociedade, que admite e alimenta a vingança em vez da justiça. Chegou a hora de dizer basta ao massacre que nos coloca entre os países que mais matam jovens no mundo.

+ sobre o tema

Carta aos espanhóis: e se nos unirmos para erradicar o racismo?

Queridos amigos espanhóis, Picasso, Gaudí, Montserrat Caballé, Cervantes, Concha Buika,...

Wole Soyinka: ‘Quando entro em um museu europeu, quero roubar de volta o que me pertence’

Aos 88 anos, o dramaturgo, poeta e romancista nigeriano Wole...

Pode acontecer com qualquer pessoa negra – a pergunta é: até quando?

O número de casos de discriminação racial irá aumentar, e isso...

A Espanha é um lugar racista?

vini jr, com a sua coragem e inteligência, deu...

para lembrar

Heroísmo e discriminação: No passado, as duas faces do militarismo

Embora a história ao longo dos tempos nos tenha...

O genocídio do jovem negro em marcha

Joca Neto de Belo Horizonte Com mais de 56 mil...

Pesquisador defende combate ao racismo institucional no sistema policial

Ilustração: Junião/Ponte Jornalismo Racismo institucional no sistema policial As relações raciais...
spot_imgspot_img

A carne mais barata no Carrefour

Eis a imagem: um casal negro encostado a uma parede no chão frio em mercado da rede Carrefour em Salvador. Sob o efeito de tapas...

Luedji Luna denuncia racismo em abordagem policial: ‘Com arma apontada’

Luedji Luna usou as redes sociais para denunciar uma situação de racismo sofrida por ela e sua família em São Paulo. A cantora disse que...

Violência policial é expressão do racismo em diversas partes do mundo

A polícia abriu fogo e matou 69 pessoas em Sharpeville, na África do Sul. Foi no dia 21 de abril de 1960, em uma...
-+=