Até quando haverá racismo contra as mulheres negras em Portugal?

Na Amadora, uma mulher/mãe/vítima negra foi algemada, sofrendo, sangrando, sendo torturada, como no passado. Oxalá tais imagens fossem apenas fruto de uma ficção.

Por Rita Cássia Silva, do  O Público

Getty

Quando uma mulher negra é espancada por homens brancos que representam, ou não, a Lei, sua alma é torturada cinco séculos atrás, pois seu corpo representa todos os corpos de todas as mulheres negras que foram capturadas em suas terras, que foram traficadas, violadas, feitas corpos escravos para que de seus ventres fossem arrancadas as crianças nascituras escravas para serem vendidas enquanto coisas.

Mulheres negras, por vezes queimadas vivas, por outras assassinadas e não enterradas, por outras degoladas, por outras ainda, atiradas ao mar. Mulheres negras que não podiam dar de mamar aos seus próprios filhos, mas que alimentaram homens brancos e mulheres brancas que delas receberam não somente o leite, mas o afeto de que necessitavam para sobreviver!

Quando uma mulher negra é torturada por homens brancos que representam, ou não, a Lei, seu corpo torna-se corpo de todas as mulheres negras coexistentes no tempo presente. Mulheres negras trabalhadoras, quotidianamente humilhadas conforme as suas tonalidades de cor de pele, rechaçadas conforme as suas instruções escolares e/ou conhecimento das línguas nacionais dos locais onde vivem, perseguidas conforme os seus saldos bancários. Mulheres negras que, em pleno século XXI – e importa salientar que o 25 de Abril ainda há de vir –, continuam a ter que lutar quatro vezes mais do que as outras mulheres, a fim de que possam subsistir. Mulheres negras que têm os seus filhos e filhas abduzidos constantemente por uma assistência social decrépita, que de “social” apenas carrega o nome. Como nos é possível?

Quando homens brancos torturam mulheres negras, estão a negar-se enquanto seres humanos, porque sobre a sua espécie humana, de facto, nada sabem.

De 19.01.2020 chegou-nos, através das redes sociais, um relato testemunhal sobre violações de direitos fundamentais das pessoas, sobre segregação racial em Portugal, sobre a prática concreta de racismo estrutural. Uma mulher/mãe e uma criança, negras, foram retiradas de dentro de um autocarro, pelo facto de a criança ter esquecido o cartão/passe do transporte. O que se passou a seguir – vivendo nós num Estado de Direito Democrático – é absolutamente inaceitável.

A mulher/mãe/vítima foi algemada, foi espancada por agentes policiais. Sua filha de oito anos assistiu à sua mãe ser torturada. Do relato lê-se que a mulher/mãe/vítima recebeu socos, pisadelas, empurrões, chutos, apertos no pescoço… gritos: “Preta, vai para a tua terra.” Vê-se as consequências de todos estes atos no corpo da mulher/mãe/vítima através de vídeos onde podemos observar o seu rosto totalmente transfigurado. Bem como podemos observar um senhor agente policial sentado em cima da mulher/mãe/vítima, cujo corpo foi – suponho – arremessado ao chão. A mulher/mãe/vítima algemada, sofrendo, sangrando, sendo torturada, como no passado. Oxalá tais imagens fossem apenas fruto de uma ficção.

Estamos ainda muito longe de co-criarmos igualdade de direitos entre mulheres, crianças e homens, porque ainda não preferimos compreender que o racismo estrutural que existe em Portugal foi uma invenção outrora bem nossa e que, sendo o Planeta Terra um território de passagem, poderíamos preferir que todos e todas pudéssemos viver – de facto – melhor. No entanto, talvez estejamos um pouco mais perto de começarmos a saudar com consciência no presente as dívidas portuguesas com o passado. Se assim Portugal “preferir”.

Das mulheres negras que residem neste território, por obséquio: nenhuma gota de sangue a mais!

A autora escreve segundo o novo Acordo Ortográfico

+ sobre o tema

Passeio pela mostra “Um defeito de cor”, inspirada no livro de Ana Maria Gonçalves

"Eu era muito diferente do que imaginava, e durante...

Taís faz um debate sobre feminismo negro em Mister Brau

Fiquei muito feliz em poder trazer o feminismo negro...

Conheça a história de Shirley Chisholm, primeira mulher a ingressar na política americana

Tentativas de assassinato e preconceito marcaram a carreira da...

Roda de Conversa: Mulher, raça e afetividades

O grupo de pesquisa Corpus Dissidente promove a roda...

para lembrar

Caneladas do Vitão: Uma vez Anielle, sempre Marielle 2

Brasil, meu nego, deixa eu te contar, a história...

Comentador da ESPN que comparou Venus Williams a um gorila foi despedido

Desde que o Open da Austrália teve início Venus Williams...

Cida Bento – A mulher negra no mercado de trabalho

Sinceramente eu nunca dei para empregada domestica acho que eu...

Carrefour não quer clientes negros e pobres

Fonte: Casal 10- A rede Carrefour tem uma longa lista...
spot_imgspot_img

“Dispositivo de Racialidade”: O trabalho imensurável de Sueli Carneiro

Sueli Carneiro é um nome que deveria dispensar apresentações. Filósofa e ativista do movimento negro — tendo cofundado o Geledés – Instituto da Mulher Negra,...

Salvador, 475 anos: por que cidade foi escolhida para ser 1ª capital do Brasil

Porque era preciso defender a terra, cobiçada por outros europeus, e porque a divisão do território colonial em capitanias hereditárias não havia funcionado muito...

Comida mofada e banana de presente: diretora de escola denuncia caso de racismo após colegas pedirem saída dela sem justificativa em MG

Gladys Roberta Silva Evangelista alega ter sido vítima de racismo na escola municipal onde atua como diretora, em Uberaba. Segundo a servidora, ela está...
-+=