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Benedita da Silva: Com a Bíblia numa mão e Cinema na Outra

É impossível Benedita da Silva passar despercebida por onde quer que esteja, ainda que ela persiga a discrição no cumprimento de sua incansável agenda. Na 23a. Mostra de Tiradentes não foi diferente. Ela esteve no evento para acompanhar a homenagem a Camila Pitanga e ao ator Antônio Pitanga, com que é casada há quase 3 décadas.  O Portal Geledés teve fortuna de ser escolhido para uma rara entrevista. As considerações abaixo decorrem desse encontro, que suscitou rápidas considerações sobre de uma trajetória de fé e atuação onde luta e personagem se confluem para sua histórica movimentação na cena política. Uma biografia que merece e deve ser conhecida por nosso audiovisual, sobretudo pelas gerações mais novas.

Por Viviane Pistache para o Portal Geledés

23ª MOSTRA DE CINEMA DE TIRADENTES – Abertura Oficial, Os homenageados; Camila Pitanga e Antonio Pitanga – Foto Leo Lara/Universo Produção

Benedita da Silva, que nunca deixou de fazer trabalho de base e que ainda faz da Tribuna seu palco de atuação, pode ser uma bússola nesses tempos em que boa parte da esquerda se queixa de não conseguir compreender as demandas da periferia que migrou para o pentecostalismo. Uma figura política que pode ser chave no atual embate entre a esquerda do cinema e as igrejas evangélicas que assombram a ANCINE, que segundo o desgoverno da presidência que chegou a afirmar que a agência deveria estar sob comando de alguém “terrivelmente evangélico” que saiba “recitar 200 versículos, ter uma Bíblia embaixo do braço e o joelho ralado de ajoelhar no milho”. 

Por que Benedita? 

Benedita é nome de afilhada de São Benedito, santo protetor de gente preta. Parece até que ela nasceu vocacionada  a cavar milagres como moradia de alvenaria, água encanada, eletricidade, esgoto tratado, alfabetização e outros itens da cesta básica de cidadania. Nascida no Morro do Chapéu, conheceu de perto a danação dos condenados da terra. Filha de Maria da Conceição, parteira da comunidade, Benedita viu muita esperança nascer e vingar e outras vitimadas pelo descaso do poder público. Comungando da intimidade da vizinhança, foi se afiando em urgências da nossa gente: cidadania plena é pra agora, nessa encarnação, pois acredita que temos o poder de criar aqui na terra o céu ou o inferno. 

Fé e perseverança são algumas das palavras de ordem que sustentou Benedita no calvário que  foi viver na sua comunidade nos anos 1960. O governo Lacerda em sua implacável política de remoção, derrubava toda casa de alvenaria que a comunidade construísse na calada da noite, sob a liderança de Benedita.  

Quando o batalhão do governo chegava, as mulheres tomavam a dianteira, escondiam os maridos e ocupavam as casas com as crianças. No embate os lacaios chutavam as barrigas das mulheres. Às vezes derrubavam os barracões com famílias inteiras dentro, outras vezes não. A comunidade seguia se protegendo dessa loteria do azar, tentando até buscar informações nas casas da elite  do governo onde trabalhavam, fazendo funcionar o “correio nagô”, uma espécie de rádio pião preta. 

Em 1966, no desgoverno Negrão Lima a comunidade foi açoitava com uma chuva apocalíptica. Benedita perdeu tudo para as enchentes. Sem casa, sem trabalho, ela esteve a um fio de perder a fé a sanidade. Mas Benedita foi salva pela comunidade, como diz o verso “um pobre ajuda outro pobre até melhorar” da canção Zelão, entoada por Elza Soares; certamente uma crônica dolorida do que  Benedita e comunidades como Morro do Chapéus e da Babilônia viveram.

Ela conta que quando conheceu os movimentos feministas, uma das principais pautas apontadas era: “meu corpo me pertence”. Ela endossou a pauta e a coloriu de preto, pois para a mulher negra nem o corpo, nem a casa, nada lhe pertencia.

Se ainda hoje o refrão “é nós por nós” embala os movimentos negros, imagina há décadas atrás quando Benedita começou sua atuação política. Benedita se alfabetizou junto com sua comunidade em aliança com os padres dominicanos que aplicavam o método Paulo Freire de alfabetização. Ao invés das cartilhas alienantes de memorização de frases como “Eva viu a uva ou Ivo viu a uva” num país onde uva só existia na casa das elites, Benedita trazia paródias mais condizentes com a realidade ao redor: “No morro, Ivo não via a uva, Ivo via a vala e a vala não está  vazia. A vala vive aberta” 

Assim, desde os anos 60, Benedita denuncia o genocídio do povo preto, uma pauta que tanto nos mobiliza hoje. Além de ter sido a pioneira na instituição das cotas raciais na UERJ em 2002, provocando o incendiário debate sobre as políticas de ações afirmativas no país. 

Para além de sua atuação na Associação de Moradores do Chapéu da Mangueira, em 1963 Benedita fundou a Federação das Favelas do Rio de Janeiro (FAFERJ), entidade que começou com o nome de Federação da Associação de Favelas do Estado da Guanabara (FAFEG). Esteve também na fundação do Movimento de Defesa dos Favelados, uma entidade nacional de luta dos favelados que nasce ao final dos anos 70 na luta por saneamento básico, água, luz, rede de esgoto, terra, educação, etc. 

Sua projeção política foi se tornando cada vez mais notória. Militou rapidamente pelo MDB quando era o único de partido de oposição ao Arena durante a ditadura militar. Conheceu o projeto PT  ainda em seu nascedouro, processo agitado pela figura de Lula, o sindicalista que se despontava como potência. Benedita abraçou a proposta de criação do partido juntamente com a classe média, “colegas do asfalto”, como ela nomina. 

Eleita a única vereadora pelo PT, tomou posse anunciando: “Eu mulher, negra, favelada, assim prometo”. A acusaram de demagoga como se ela não encarnasse os marcadores sociais que enunciou no juramento. A câmara de vereadores não estava preparada para recebê-la, exemplo disso foi a demora na concessão de um carro oficial, já que ela morava no Morro e carro oficial ali não subia. O poder público só entrava ali na garupa da polícia.  Assim, criou a “tribuna livre” para ouvir as associações de moradores, movimentos sociais e pastorais. Ao criar um gabinete itinerante, Benedita foi se tornando uma vereadora estadual, depois nacional e depois internacional. 

Benedita foi ganhando mundo. Saiu do país pela primeira vez para ir a Venezuela. Foi vivendo o que antes parecia inimaginável como  andar de avião ou ir para a faculdade. Se graduou para se instrumentalizar na sua atuação legislativa, para propor leis para a melhoria da população marginalizada com respaldo teórico. 

Mesmo acumulando vasta experiência na militância e formação acadêmica, Benedita enfrentou muito preconceito na sua atuação na Assembleia Constituinte em 1988. Um jornalista, Paulo Francis, chegou a vociferar que a Constituinte não daria certo porque tinha até uma “Benedita da Silva que veio do Morro”. 

Mas a resistência não veio apenas da direita tradicional. Gente também do campo da esquerda se juntou ao cordão da oposição ao projeto de lei que garantisse  direitos básicos às empregadas domésticas na Constituição, alegando que não poderiam pagar tais direitos às próprias empregadas. Benedita conta que seus maiores apoiadores foram dois sindicalistas: Lula e Paulo Paim, que também é negro. Benedita conseguiu colocar na Constituição os primórdios de direitos das empregadas e o ensino da História da África nas escolas, além da demarcação de terras indígenas e quilombolas, direitos da criança e do adolescente e de orientação sexual. Algumas dessas leis que só viriam a ser obrigatórias de fato nos governos Lula e Dilma. 

Em sua luta incansável ajudou a garantir que a constituição de 1988 tivesse como princípio fundamental a igualdade, a promoção do bem comum sem discriminação de origem sexo ou cor. Desde a sua promulgação, o racismo tornou-se crime inafiançável e imprescritível. 

Aqui vale destacar que para Benedita a atuação política por vezes demanda encenar aspectos de suas trajetória para melhor defender ou negritar  algumas posições. Ela conta que durante a constituinte precisou mobilizar lembranças de fatos de sua vida para constranger o plenário para que minimamente se fizessem empáticos ao que ela estava dizendo: Num país em que política é arena de herdeiros, ela precisou lembrar que conheceu a atuação política institucional também porque era filha da lavadeira do Juscelino Kubitschek e que se para a maioria ali presente ocupar a tribuna do povo era usurpar para fins particulares, na direção completamente oposta, seu mandato era recolocar naquela arena quem sempre esteve alijado daqueles espaços. 

Quando Benedita foi eleita deputada constituinte chegou a Brasília com dengue, no espaço onde  não era bem vinda. Com o corpo doente, amargou a espera da entrega do apartamento onde iria residir oficialmente. Foi apenas sugerir que iria morar em Ceilândia, a maior comunidade da periferia do Distrito Federal é que surgiu a chave de sua residência oficial. 

Ao lado das poucas mulheres eleitas, tiveram que suprimir divergências partidárias tanto para se fazerem respeitadas, quanto para garantirem direitos básicos como banheiro feminino que sequer existia no parlamento, uma prova do quão refratária à presença feminina são esses e outros  redutos do poder. 

Ser mulher negra em espaços como esses, requer atenção redobrada, a vigilância não pode cochilar nunca. Benedita diz que até para usar roupas de estampas africanas ela tinha que se resguardar para não ser folclorizada. Mesmo sozinha, ela nunca esteve só. Sua assessora era um gigante da militância negra que muito cedo nos deixou, Lélia Gonzalez, que agora estaria completando 85 anos. Lélia foi uma militante que verbalizou com veemência o racismo inclusive no seio da esquerda partidária e foi autora de uma carta histórica de desfiliação ao PT. Como bem lembrou Douglas Belchior, uma “carta respeitosa, mas dura, apresentada nos dias seguintes a uma propaganda do PT em rede nacional de televisão, em que o partido propõe um projeto de nação ao país e não toca a questão racial.” 

Plenamente consciente destes debates, Benedita seguiu apostando no sistema político institucional com a perspectiva crítica de quem nunca se afastou dos movimentos sociais. Benedita não perdeu a fé  de se sentir instrumento de Deus em toda a sua jornada de vida. Certa ocasião, quando assistia ao show dos Rolling Stones da varanda de uma amiga com visão privilegiada para o palco; se deu conta de Mick Jagger é da sua idade e com uma vitalidade admirável em sua performance para uma multidão de pelo menos um milhão e duzentas mil pessoas. Daí ela comentou: “Como ele não deve estar se sentindo de ver essa gente toda! Eu acho que ele nunca teve uma plateia como essa. Acho que ele nunca teve tanta alegria de cantar… Ele deve estar muito emocionado”.  

Então ela sentiu a voz de Deus a lhe dizer que: “‘Olha, o dobro disso que está aí votou em você para o Senado’. Eu comecei a chorar, me arrepiei e fiquei olhando aquela multidão… Não só pelo voto. Porque voto é uma manifestação política democrática, mas também pelo sentimento colocado na urna, não é? E você, às vezes se sente só na sua luta, na sua batalha. Então, quando você vê aquele presente de Deus, aquela multidão votando em você…”

Benedita tem muita tranquilidade para assumir sua história religiosa. De modo semelhante a Jesus, é filha de Maria e criada por José. Mas Maria, além de parteira e de ter trabalhado como lavadeira para o presidente Juscelino, era também uma mulher do axé, mãe de santo da umbanda que foi muito perseguida pela polícia, criminalizada por sua fé nas religiões de matriz africana. Benedita também foi católica e praticante da Teologia da Libertação atuando nas Comunidades Eclesiais de Base. Até que por fim se converteu ao pentecostalismo. Vale comentar que é casada com Antonio Pitanga, desde sempre homem do candomblé. 

Ser de esquerda e evangélica é estar no vão entre dois mundos que não sabem dialogar ou que estão pouco dispostos a se escutarem.  É preciso ter muita coragem ocupar essa fronteira. Diante do avanço de um pentecostalismo criminosamente intolerante e reacionário, figuras como Benedita da Silva e Pastor Henrique Vieira são verdadeiros oásis de esperança. Não por acaso, ambos ocupam a política no campo da esquerda atuando quando possível nas arenas do cinema. 

Benedita foi docente na Pró-Apoio Comunitária (PAC) centro de formação em audiovisual e cinema fundada por Antônio Pitanga para a juventude do Morro do Chapéu da Mangueira e Babilônia.  Atuou em pelo menos três produções do cinema brasileiro: Abolição de Zózimo Bulbul de 1988, Mulheres: Uma Outra História da Eunice Gutman, O curta-metragem documental Benedita da Silva, também de Eunice Gutman  e em Pitanga de Camila Pitanga e Beto Brant. 

A história de vida e atuação política de Benedita da Silva merece um longa de ficção, série ou mesmo um documentário que faça justiça ao seu legado. Seria uma boa oportunidade de revertermos a escassez de longas de ficção sobre  figuras políticas, sobretudo negras. Vale lembrar que Marielle Franco só se tornou pauta no nosso audiovisual depois do se assassinato, infelizmente. 

Quando questionada sobre a importância do cinema na sua vida, ela foi categórica em dizer: Trago a Bíblia numa Mão e o Cinema na Outra. Nesse momento de disputa de narrativas precisamos apostar nas figuras que consigam transitar com fé e verdade nos dois campos para trazer boas novas de justiça social. Vale lembrar que nesta guerra cultural que estamos vivendo, as igrejas evangélicas já entraram na disputa para silenciar as esquerdas.

 

 

Viviane Pistache. Doutoranda em Psicologia e Cinema pela USP. Roteirista da O2 Filmes e crítica de cinema e teatro em parceria com o Portal Geledés. (Foto: Arquivo Pessoal)

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