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Das mãos que fizeram o mundo

O ano era 1990 e tantos, e lá estava sentada, embaixo do pé de coração de negro aquela senhora tão negra quanto o nome que dera a fruta, com os cabelos grisalhos, mas não tão grisalhos. Eram meio acastanhados, reflexo das tintas que durante anos insistiu em usar para disfarçar o sinal de velhice, já que rugas em seu rosto não se viam.

Por Ruhana Berg da Silva Araújo, enviado para o  Portal Geledés 

Foto: Monkey Business

Àquela altura, eu já era uma criança crescida, como os adultos costumavam a falar, e nas minhas mãos haviam um pente que eu ansiosa tentava passar pelos fios de cabelos crespos da minha amada avó. A mulher que em suas mãos carregava o mundo.  

Entre um pentear e outro, eu lembrava as perguntas que não paravam de brotar da minha mente e as minhas prediletas era sobre a sua infância. Eu queria saber de todos os “issos” e “aquilos” que fizeram da minha amada avó a dono do mundo inteiro. Às vezes, ela respondia com um saudosismo que parecia sendo a alma saindo do corpo e buscando em um espaço qualquer os objetos da memória, outras, era tomada por um abuso semelhante a quando se chupa um pedaço de limão ou uma manga verde. E eu, aquela invasora de infâncias alheias, entre um pentear e outro esperava sair da boca da minha avó todas as histórias, que eu, em um mundo tão distante, nem poderia imaginar. 

E as respostas eram sempre ditas de forma rasa, e assim eu pensava: deve ser por causa da idade, minha vó não lembra mais de nada! Certa vez, ela me falou que sua mãe casara com outro homem, a quem desde muito pequena aprendeu a chamar de pai. E ele foi seu pai pela vida inteira. Ela também me falou sobre alguns vizinhos, as plantas, o interior. Também me falou sobre o seu casamento, o riacho, os parentes falecidos.  E assim ela sempre me falou, e a fala era sempre a sua forma de comunicação. Era sua maneira de bem dizer. 

E ela dizia tudo, menos as letras. As letras eram seus dedos que borrados de tintas marcavam seu nome. E foi entre tantos penteados, mangas e canas que minha avó me falou sobre nunca ter ido à escola e ter se formado no cabo da enxada. Mas como assim vovó? E criança trabalha? Mas como não! Respondeu a matriarca. E naquele momento ela resolveu me contar uma história. A sua história. Começou me falando sobre a sua infância pobre, sobre seus irmãos e o quanto seu pai e sua mãe eram batalhadores. E me falou que aos cinco anos de idade seu pai a levou para trabalhar lavoura porque não tinha opção, ela enquanto filha mais velha tinha que se sacrificar para salvar os seus irmãos. 

E das palavras quase construídas os lápis saíram das mãos, orgulhosa por ter uma missão, mais vale uma boa ação do que um caderno na mão. Aquela menina preta, com nome de princesa, estava longe de estar no país das maravilhas. E no meio da roça, o sol escaldante causava um delírio, mas era o delírio da fome, da barriga vazia, da falta que gritava, mas falta de que?

A minha vó nunca disse o nome, nunca disse o que faltou. E quando a palavra queria sair, entalava como se inchasse na garganta e sufocasse, sufocasse até desistir de dizer e os olhos tornavam-se duros de uma dureza de quem não soube chorar. E eu ainda criança vim descobrir tempos depois que aquela palavra era infância. Assim como também descobri em uma conversa regada de cheiro de laranjas e bolachas cream crackers que depois da lavoura minha vó trabalhou em uma granja, e que perdera dois filhos, mas ela, tão acostumada a perder, não soube saber que aquilo era perda.

E quando meu avô se foi, ela havia ganhado algo pela primeira vez que insistiu em fugir a sua vida inteira: a liberdade. E quando foi livre, descobriu que a liberdade pra vir cobrou o seu preço, e foi-se a sua saúde. Até que um dia, não havendo mais nada para levar, o destino levou o seu corpo e com seu corpo levou a sua alma.

E eu, já adulta, não pude contar uma história para a minha avó. Não pude falar sobre a cabidela que faz falta, do sarapatel e do moído.  Não pude falar sobre os domingos animados, da laranja e da bolacha. Mas também não pude contar que finalmente compreendi que das suas mãos foi construído o mundo, que aquelas pequenas mãos que se esforçavam para segurar a enxada, tinha o peso de tantas outras, que assim como as dela, sangravam, mas de tão convencidas que haviam nascido para sangrar, se orgulhavam do sangue que escorria.

Eu não contei para a minha vó, que o que ela chamou de missão, na verdade tem o nome de exploração. Mas que finalmente eu entendi que das suas mãos se fez o mundo e que ela era dona do mundo inteiro. 


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