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Mulher, Nordestina, neta de índia e apesar do País, não desiste nunca!

Ela começa mais um dia pensando o que fazer para dar certo na sua independência financeira. Mulher, descendente de índio (avó paterna era índia, Matilde Ana do Espírito Santo – sobrenome católico, como de costume ao catequizá-los) e Assistente Social, formada há 2 anos e meio mas sem oportunidade de exercer a profissão.
Tentando entender como funciona a máquina giratória da vida de uma mulher de meio século…

Por Silene Vasconcelos de Farias, enviado para o Portal Geledés 

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É, isso não se aprende na escola…Isso não se aprende com ninguém…A mulher vai vivendo e aprendendo…

Vendo a realidade nua e crua ficamos ainda mais confusos… No país onde agora se aposenta com 60 % de tudo que você contribuiu a vida toda e por longos anos, uma mulher como ela que, começou a trabalhar ( formalmente), “tarde”, não tem critérios para se aposentar porque ainda não contribuiu todos os anos que pede a regra, mas também, não consegue trabalho digno porque já tem 50 anos de idade…

É minha gente, essa conta não fecha. E pra completar, ela ainda tem problemas sérios de saúde. Uma doença autoimune que, pra complicar mais ainda não tem cura e pouca gente já ouviu falar,

Sarcoidose. Ela ataca severamente suas defesas e seus órgãos, sendo mais comumente os pulmões, sua visão e seu fígado, fazendo os médicos que olham seus exames todas as vezes fazerem a mesma pergunta: Você bebe? Pois seu fígado fica praticamente, como se você fosse um alcoólatra.
Essa mesma doença, lhe causou uma certa vez um derrame pleural tão severo que teve que fazer uma broncoscopia e pleuroscopia lhe deixando fragilizada por dias. Quando isso ocorreu, ela trabalhava numa financeira e o médico lhe deu de atestado apenas 15 dias, para que ela não precisasse passar pela tal perícia do nosso querido INSS, então trabalhou um dia(tendo que subir escadas, mesmo sem força, pois não tinha elevador…) e ficou mais 10 dias de repouso, retornando ao trabalho em seguida.

Pois então, sem vitimização, ao desenvolver essa doença, ela ficou limitada, tendo vários princípios de pneumonia, crises fortes de falta de ar e demais sintomas da doença autoimune, causando vários dias de afastamento obrigatório do trabalho. Resultado? Acabou perdendo seu emprego…

Hoje, ela não sabe se foi bom ou ruim, embora no dia, tenha ficado arrasada por ver que outras mulheres como ela, estavam ali lutando pela mesma dignidade da sobrevivência, mas não tiveram sororidade com ela, confesso que alguma aliança nesta empresa até existia… Ah, mas ela era muito, mas muito seletiva. Aquela velha questão de xenofobia mesmo. Mas esse assunto é pra outro artigo…

Então, lutava pela sua dignidade diariamente, mas também com uma doença que queria lhe impedir o direto à vida, o direito de ir e vir. Logo, ao ser desligada fez um balanço da sua vida e pensou: – Se não posso trabalhar, vou me aposentar. Mas para nosso INSS ela tem “condições plenas” de trabalhar, lhe negando o seu direito ao auxílio-doença. Então foi procurar emprego, voltar ao mercado de trabalho. E não pensem que esperou o seguro-desemprego acabar, procurou logo após 3 meses de desligamento. Já foi até para umas entrevistas de emprego, mas no final, nenhuma empresa lhe deu alguma vaga, sequer a oportunidade de experiência. E pasmem, todas as vagas pleiteadas, foram em cargos nos quais ela tem experiência de no mínimo 10 anos …

Eis o país da contradição, você não pode se aposentar por ter SÉRIOS problemas de saúde, mas também não tem oportunidade de voltar ao mercado de trabalho porque já é considerado velho para tal. Vai entender… Mas ela é mulher, nordestina, neta de índia e apesar do País, não desiste nunca ! Vida que segue…

Porto alegre, 04 de Fevereiro de 2020


** Este artigo é de autoria de colaboradores ou articulistas do PORTAL GELEDÉS e não representa ideias ou opiniões do veículo. Portal Geledés oferece espaço para vozes diversas da esfera pública, garantindo assim a pluralidade do debate na sociedade

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