Conversas sobre o luto: quando uma mãe preta retorna ao mundo das encantadas

O encantamento é uma das principais heranças deixadas por África no coração dos africanos do solo ancestral e na diáspora. Trata-se de uma atitude que aparece enquanto ato de criar, construir e reconstruir mundos. É aquilo que desperta, impulsiona o agir, e dá sentido. (Machado, 2014; Machado e Oliveira, 2022). 

Inspirada por este horizonte de encantamento, proponho aqui uma conversa sobre os processos de luta, o retorno das mães pretas ao mundo das encantadas, e a necessária criação de novos mundos para que suas filhas consigam seguir a caminhada.

Escrevo esse texto quase 30 anos após passar pela experiência de ter que deixar ir, minha mãe preta para o mundo das encantadas. Faço este texto agora, porque ao longo de todos estes anos, por muitas vezes, para me manter viva, precisei re-criar nossa relação para conseguir prosseguir e, deste modo, de forma encantada segurei firme nas mãos fortes e invisíveis da minha mãe preta como forma de sustentação dos meus passos seguintes.

Acrescento nesta conversa os sentimentos compartilhados por tantas outras meninas e mulheres pretas que ao cruzarem a minha vida em diferentes momentos e situações, também tiveram que encontrar formas de re-criar mundos para sustentar os seus passos de continuação. 

Deixar ir, é um processo que se estabelece no tempo existencial e nunca no cronológico. Um processo que apesar de se revelar de forma tão singular para cada uma de Nós meninas e mulheres pretas, o que encontrei de semelhanças no processo cuidadoso de escuta dessas narrativas,  foi o fato de que, não importa a forma e o tipo de relação que se estabeleceu entre mães e filhas pretas, o certo é que no processo vivencial da experiência de deixar ir, toda mãe preta acaba sendo lida, vista e sentida como uma fonte de força, luta e sobrevivência. 

Também no processo de escuta destas narrativas, tive a chance de compreender que mães pretas, em geral, são pessoas que meninas/mulheres pretas, almejam por diferentes motivos, poder vir-à-ser pelo menos 1% do que elas foram. Alguém cuja simples presença re-organiza e desorganiza mundos, seja pela referência daquilo que podemos ou  pela referência daquilo que não queremos.

Sendo esta Presença tão potente pela simples presença, na medida em que compreendemos a possibilidade de não te-lá mais diante dos nossos olhos, re-criar mundos que permitam a continuidade da presença desta Presença é o que imediatamente fazemos, ora de forma saudável, ora de forma desesperadora, mas sempre de forma encantada, pois novos mundos, só são possíveis nos cenários de encantamento.

Fazemos isso a partir da preservação das memórias de afetos, guardando peças de roupas significativas, resgatando fotos que falam das histórias vividas, cantando as canções que conectam, re-fazendo e re-criando as comidas e os encontros de domingos, tentando caminhar pelos lugares que elas caminharam e tentando avançar para realizar os sonhos que elas tiveram e que por motivos diversos, não se tornaram possíveis de realizações no tempo em que viveram. Chorar é praticamente a última coisa que escolhemos fazer, afinal, tentamos provar para o mundo e para Nós mesmas, que elas nos fizeram fortes e preparadas para qualquer tempo.

No primeiro momento, ainda perdidas, somos apenas Elas, porque ainda é difícil saber Ser sem elas. Aos poucos e a partir de diferentes processos, vamos recuperando a nossa história singular para dar prosseguimento e ampliar a história coletiva vivida com elas e com tantas outras mães pretas e, assim, como nos ensina a grande escritora e intelectual brasileira, Conceição Evaristo em seu poema Vozes Mulheres, seguimos atualizando as nossas histórias de resistência.

A voz de minha bisavó (…) ecoou lamentos de uma infância perdida. / A voz de minha avó, ecoou obediência aos brancos-donos de tudo. / A voz de minha mãe, ecoou baixinho revolta no fundo das cozinhas alheias / A minha voz ainda ecoa versos perplexos. / A voz de minha filha recolhe todas as nossas vozes (…). O ontem – o hoje – o agora.Na voz de minha filha, se fará ouvir a ressonância o eco da vida-liberdade.  (EVARISTO, 2008, p. 10-11)

 

Dito isso, penso que quando uma mãe preta retorna ao mundo das encantadas, o Orum certamente fica em festa, afinal, uma mãe preta é em Si mesma uma luta, uma festa ancestral e a certeza de que sementes foram plantadas. Todavia, é aqui no Ayê, que suas filhas choram em silêncio,  ao mesmo tempo em que são convocadas a despertar, agir e ressignificar.

Re-situar o viver passa a ser uma tarefa urgente, não há tempo para choro diante de tudo que dói, não há tempo de paradas diante de um tempo que corre, não há tempo de vazios diante de tantas coisas que precisam ser preenchidas. É preciso agir. É preciso garantir a continuidade em honra, da presença daquela Presença que sustenta.

Neste cenário, ser filha desta ou daquela mãe preta, nos devolve amorosamente para o acolhimento potente da comunidade. Dos laços sanguíneos aos laços de vivência e pertencimento, um grande e diverso movimento se reorganiza para nosso acolhimento. A nossa canção de vida, assim como nos ensinam os mitos africanos, é cantada por diferentes vozes e em diferentes lugares. A canção que nos resgata, tem a tarefa de nos trazer de volta ao nosso caminho e, assim, nos convida a seguir nossa trajetória com novos personagens da comunidade. 

No meu caso, na minha experiência de deixar ir minha mãe preta, entre  tantos outros movimentos, lembro-me que cantamos e dançamos muito em comunidade. De Alcione à Leci Brandão, Dona Ivone Lara, Jovelina Pérola Negra, Clementina de Jesus e um viva para nossa escola de samba Camisa Verde e Branco,  nosso terreiro de afetos e aquilombamentos vividos, experiência que nenhuma teoria será capaz de explicar. Experiências de cuidado, re-construções e tessituras de novas/velhas histórias.

Mas, apesar do apoio da comunidade, existe um caminho, existe uma experiência que é só nossa, e, para vivê-la é preciso conseguir se posicionar com coragem sem perder a amorosidade. Este é o grande desafio que se abre no caminho de quem precisa deixar ir sua mãe preta e ao mesmo tempo sustentar a honra da sua existência. 

Sem saber bem o que e como fazer, durante muitos anos, pela via do encantamento, segurei firme nas invisíveis mãos da minha mãe preta, que me foram guias necessárias, constantes e presentes na minha singular travessia no mundo, me protegendo, acolhendo e me cuidando.

Durante muitos anos, a voz firme, amável e carinhosa da minha mãe preta, que só alcançava a minha existência, foi responsável por acalmar meu coração e ao mesmo tempo me tornar confiante diante de tudo que ainda estava por vir no meu caminho de menina no processo de tornar-se mulher, uma menina-mulher da pele preta em terras colonizadas.

 Sem as invisíveis mãos da minha mãe preta, certamente eu não teria conseguido chegar até aqui, assim como ela também não o teria, se não fosse as mãos invisíveis da minha avó preta que certamente segurou nas invisíveis mãos da minha bisavó preta. 

Uma corrente de pretas velhas sustentando as suas mais novas e deixando a certeza de que aqui ou acolá, somos ancestralidades presentes em todos os tempos. Como nos ensina a filósofa brasileira Katiuscia Ribeiro (2) “Uma gota de sangue da minha avó, atravessou o sangue da minha mãe, que atravessou o sangue da minha existência e, por isso, nos tornamos Nós”

Nos processos diaspóricos de negras africanas pelo mundo, onde violentamente fomos separados da nossa comunidade de sangue e/ou convívio, podemos dizer que, as histórias das nossas bisavós, atravessaram as histórias das nossas avós, que registraram marcas na vida de nossas mães, que  atravessaram os tecidos das nossas histórias, que seguem se re-fazendo como histórias na experiência de vida das nossas descendentes, restituindo, fortalecendo e re-significando os processos de pertencimento na re-existência coletiva e, por isso, seguimos, nos tornando Nós.

Somos histórias, bisnetas, netas e filhas das muitas mães pretas que passaram por aqui. As histórias das nossas pretas velhas com todas as suas dores, no horizonte da ressignificação encantada, ao acalentar a existência de suas filhas, liberam o espírito e possibilitam a re-construção de sonhos, sentidos de liberdade e dignidade ao nosso existir. Por isso, ontem, hoje e sempre, saudamos “Salve nossas pretas velhas!”.

Histórias circulares e coletivas atravessadas por diferentes tempos vividos. Quem é história, ancestralidade, não parte do nada e não chega ao mundo sem saber o porquê. Quem é história tem caminhos e a comunidade preta luta constantemente para que toda filha de uma mãe preta possa ter a oportunidade de viver a plenitude de possibilidades constituintes do seu caminho com amor e dignidade.

Algumas pessoas podem estar se perguntando os motivos desta conversa em forma de texto neste momento, o que posso responder é que o faço, por dois motivos específicos. 

O primeiro deles é porque gostaria de compartilhar esta reflexão com todas as meninas/mulheres da pele preta que precisaram viver a experiência de deixar ir sua mãe preta para o reino das encantadas. Queria compartilhar com cada uma, a dor e a magia desta experiência. Queria com esta escrita, poder dizer para cada uma dessas meninas que re-criar mundos nos ajuda a re-construir caminhos sem a necessidade de apagamento, sem deixar de sentir saudades. Re-criamos mundos para poder prosseguir e não para apagar memórias sustentadoras.

Assim, o tempo, o sagrado tempo, o tempo de Oiá, aquele tempo que diferente do cronológico que se estabelece no horizonte lógico de começo, meio, fim, se desvela como um tempo espiral, onde tudo se realiza.  O tempo que chega sem fim e sem começo, que gira em duplo sentido, criando movimentos que esgotam e renovam sentidos a todo momento com toda sua força e sutileza, pode ser um grande auxiliar de travessias tão longas, perturbadoras, mágicas, solitárias e ao mesmo tempo partilhadas entre eu e minha mãe preta, entre você e sua mãe preta, entre Nós e as nossas mães pretas. 

Deste modo, penso que o luto teorizado é apenas um sinalizador do que pode acontecer, mas não determinante do como devemos pensar, sentir e agir após deixarmos ir as nossas mães pretas para o mundo das encantadas, por isso, insisto em dizer que não há tempos, fases e nem modos específicos, certos ou errados de viver o luto ou a compreensão dos processos de encantamento de deixar ir. O que há é o tempo para cada tempo em acordo aos nossos caminhos. O tempo necessário para que se torne possível os nossos processos singulares de re-encantamentos.

Tempos de intimidade e confiança, tempos de afetos sentidos, vividos e com-partilhados. Tempos de novas parcerias. Tempos onde cruzamos e entrecruzamos os tempos e os mundos até encontrarmos o nosso próprio novo tempo e o nosso novo e particular mundo que terá a tarefa fundamental, de nos recolocar no mundo da história e da coletividade. E que mundos! E que tempos!

Para cada uma das meninas e mulheres de pele preta que precisaram viver a experiência de deixar ir sua mãe preta, ouso dizer que se cada coisa tem seu tempo, o tempo do luto das filhas pretas, dada às histórias que temos, acontece no tempo do tempo e, por isso, é importante saber que cada tempo, tem o seu próprio tempo e o nosso tempo é verdadeiramente o nosso tempo. Respeite-se! O tempo cria, o tempo esgota e o tempo re-cria. Salve o tempo que paralisa, sustenta e movimenta.

Em segundo lugar, também escrevo este texto, não porque sinto que posso soltar as mãos invisíveis da minha mãe preta. Escrevo este texto, neste momento, porque sinto que finalmente posso chorar e deixar passar sobre mim a diversidade de sentimentos que me afetaram ao longo de todos estes tempos e, definitivamente sinto que posso dizer para mim, para ela e para o Nós que Somos –  “Nós conseguimos! Nós podemos finalmente caminhar em paz em nossos mundos e em nossos tempos”. Sinto que nossas mãos apertadas e receosas, que durante tantos anos se apertaram e lutaram por nossas sobrevivências nos diferentes mundos e diante de tantos obstáculos que surgiram em nossos caminhos, agora podem se abrir e com-partilhar o abraço das vidas, o abraço das vitórias, o abraço das conquistas, o abraço ancestral.

Desejo que neste tempo, onde sigo minha caminhada, que minhas mãos visíveis, apoiadas e fortalecidas pelas mãos invisíveis da minha mãe preta, possam servir de apoio seguro para meninas/mulheres de peles pretas deste mundo. Desejo, que em outros tempos, onde continuarei minha caminhada em horizontes de encantamentos, minhas mãos invisíveis possam ser mãos que asseguram a força da ancestralidade que habita em todas Nós, atravessando tempos e gerações.

Desejo um novo tempo para os nossos tempos. 

Descansem em honras Pretas Velhas.

Por aqui, seguiremos em luta pela paz.

Seguiremos resistindo para existir com a plenitude das possibilidades constituintes de nossos caminhos, pois quem tem ancestralidade não veio do nada e nem sem saber o porquê. Quem tem ancestralidade tem caminhos.

Debora Elianne R. De Souza – Psicóloga clínica e social. Educadora antirracista.  Mestra e Doutoranda  em Educação: Psicologia da Educação.


NOTAS:

2 – Profa Dra. katiuscia Ribeiro – Filósofa, Doutora em Filosofia Africana. Mulherista Africana. Coordenadora Geral do Laboratório Geru Maã de Africologia e Estudos Ameríndios UFRJ na área de Filosofia Africana e Indígena. 

REFERÊNCIA

Freire Machado, A. y De Oliveira, E. D. (2022). Filosofia africano-brasileira: ancestralidade, encantamento e educação afrorreferenciada. Cuadernos de Filosofía Latinoamericana, v. 43 n. 126,  enero-junio. 2022

Machado, Adilbênia Freire. Ancestralidades e encantamento como ins´pirações formativas: Filosofia africana e práxis de libertação. Revista Páginas de Filosofia, v. 6, n. 2, p.51-64, jul./dez. 2014.

EVARISTO, Conceição. Poemas da recordação e outros movimentos. Belo Horizonte: Nandyala, 2008.


** ESTE ARTIGO É DE AUTORIA DE COLABORADORES OU ARTICULISTAS DO PORTAL GELEDÉS E NÃO REPRESENTA IDEIAS OU OPINIÕES DO VEÍCULO. PORTAL GELEDÉS OFERECE ESPAÇO PARA VOZES DIVERSAS DA ESFERA PÚBLICA, GARANTINDO ASSIM A PLURALIDADE DO DEBATE NA SOCIEDADE. 

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