quinta-feira, setembro 29, 2022
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Cada um que se recolha ao lixo do seu preconceito

foto: Facebook arquivo pessoal

Li uma matéria no site Geledés na qual uma mulher havia sido esfaqueada por uma vizinha e o crime teria sido motivado por intolerância racial. O fato ocorreu em Ipanema, bairro nobre da zona sul carioca. A Vítima, de nome Claudia Chaves, 47 anos, micro empresária e de cor negra, afirma que a vizinha agressora, de nome Clarice Barbosa, de 61 anos e de cor branca, apesar de morar no apartamento de baixo, costumava subir um andar para colocar o lixo na sua porta. Em todas as vezes em que isso aconteceu, a vítima retirou o lixo em silêncio e levou a lixeira, mas uma hora ela desistiu e resolveu devolver o lixo para a porta da vizinha agressora. Link com a matéria Golpeada na mão com facão, moradora de Ipanema acusa vizinha de racismo: ‘Preto no meu prédio, não’, teria dito a mulher 

por Nêggo Tom no Brasil 247

A atitude de Claudia, de devolver o lixo que era jogado em sua porta de forma desrespeitosa e insana, gerou uma forte discussão entre as duas. Depois dessa discussão, a vizinha agressora desceu correndo até o apartamento em que mora, pegou uma faca e retornou para atacar Cláudia. Ao mesmo tempo em que a golpeava, a criminosa exclamava: “Preto no meu prédio, n&ati lde;o!”, numa clara manifestação de ódio racial e sociopatia em nível máximo. Por sorte, esse ataque de loucura não teve consequências mais graves, embora a meta da vizinha ensandecida fosse golpear Claudia no pescoço.

Observo alguns comentários a respeito do tema racismo e ainda me choco com alguns deles. Alguns dizem que as práticas racistas foram instituídas pelo PT com o intuito de dividir as raças e as classes. Outros dizem que nunca houve racismo no Brasil e que antigamente chamar um negro de “tição”, “azulão”, “suco de asfalto”, “nega do cabelo duro” e “urubu”, eram apenas formas carinhosas de brincar com os estimados amigos pretinhos do seu convívio. Já ouvi dizer até, que antes os negros não se sentiam ofendidos com as injúrias que lhes eram proferidas, mas agora, depois dessa maldita política de afirmação social criada pelos petralhas, não se pode falar mais nada que os negros já se ofendem. Em alguns casos de patologia mais grave, chegam a dizer que os negros agora estão se aproveitando da situação favorável (?) para levar tudo para o lado do racismo. Será?

Há muito tempo atrás, as mulheres não podiam votar, não podiam trabalhar e eram obrigadas até por suas próprias famílias, a se manterem em um casamento de conveniência, ainda que estivessem sendo traídas e ou apanhassem diuturnamente de seus maridos, porque a cultura da sociedade da época lhes impunha isso. E muitas aceitavam. As que contestavam e exigiam ser tratadas com o respeito que todo ser humano merece, eram chamadas de desonradas e perdidas. Hoje, as mulheres já não mais se submetem a esse tipo de tratamento, mas é natural que alguém ainda sinta saudades daquele tempo. Principalmente os machistas de carteirinha e os opressores do direito alheio. Afinal, nada era por maldade. Era apenas para o bem delas. Será?

Em tempos idos, também era aceitável chamar um homossexual masculino de viadinho e uma lésbica de sapatão.  Se eles contrariassem os héteros em alguma coisa então, nem se fala! Prontamente eram repreendidos com uma menção nada honrosa a sua opção ou orientação sexual. Era politicamente correto fazê-lo. Ninguém se importava com isso. Termos como: Xibungo, baitola, mariquinha, rapaz alegre, fanchona, 44 bico largo, entre outros, eram usados em público, carinhosamente, sem maldade ou intenção de ofender. Imagina! Eram simplesmente os pronomes de tratamento mais adequados para aquele determinado “tipo” de gente. Mas hoje, as coisas estão mudando. Se eu chamar um cara de mariquinha no meio da rua, mesmo ele sendo gay, ele já se ofende e chama a polícia.  Vê se pode? Antigamente a gente falava e eles levavam na brincadeira. Será?

A verdade é que sempre teremos alguém com saudades de uma época em que isso ou aquilo era permitido ou não era reprovável. E com certeza, nenhum desses saudosistas se enquadra no perfil dos que eram vítimas de tais opressões. Por sorte e graças a um pouco de evolução de algumas mentes, essas “viúvas” do fascismo lícito estão ocupando um espaço cada vez mais reduzido na sociedade. E tudo graças a uma nova postura e a uma nova atitude dos antigos oprimidos, que agora entendem que merecem e sempre mereceram o respeito que não lhes era dado ou que alguns ainda insistem em não lhes oferecer. Os casos de racismo estão aumentando, não porque a sociedade está ficando mais preconceituosa, mas sim porque os negros não aceitam mais que o lixo dos outros seja colocado na sua porta, em sinal de desrespeito a cor da sua pele e inferiorização da sua natureza.

A sujeira está voltando ao seu depósito de origem e por isso toda a imundice acumulada está vindo à tona, fazendo exalar o mau cheiro contido no coração e no caráter de muitos que se dizem cidadãos de bem. É preciso desenhar para essa gente entender melhor que não será mais tolerado nenhum tipo de desrespeito ao ser humano. Não vai mais passar em branco. Sem trocadilhos. Basta! E estejam certos de que cada vez mais, outros casos de racismo, de violência contra a mulher e de homofobia virão à tona, porque antes os oprimidos, por se sentirem acuados e intimidados, guardavam o lixo dos outr os em suas caçambas, mas agora eles despertaram e apontam que quem suja é que tem que limpar. E que cada um se recolha ao lixo do seu preconceito.

Faca que fere Cláudia, também fere Clarice.

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