Em 2024, o Brasil viveu seu ano mais quente desde que há registro. Em 2025, o recorde foi quebrado novamente. Enquanto isso se repete, uma pergunta segue sem resposta confortável: quando o termômetro sobe, quem morre primeiro?
Um novo estudo do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), feito com a Fiocruz e os projetos ProAdapta e Ciência&Clima, analisou duas décadas de dados de mortalidade no Brasil — 2000 a 2019, quase 20 milhões de óbitos — para responder exatamente isso. E o que aparece quando se olha a cor da pele de quem morreu é, ao mesmo tempo, esclarecedor e revelador: o racismo ambiental desaparece quando o dado falha em mostrá-lo. Ele só fica mais difícil de ver.
Quando se olha o Brasil inteiro, o estudo encontra algo que, à primeira vista, parece contradizer tudo o que já sabemos sobre desigualdade racial: pessoas brancas tiveram, na maioria das regiões do país, o maior aumento de risco de morte durante ondas de calor — entre 7% e 16%, dependendo do clima local. Pessoas pardas e pretas apresentaram aumentos geralmente menores.
Lido de forma apressada, esse dado poderia sugerir que o calor extremo “não tem cor”. Os próprios pesquisadores pedem cautela com essa leitura. Eles fazem um segundo recorte, só com as regiões metropolitanas, onde o preenchimento da cor da pele nos atestados de óbito costuma ser mais completo. E aí o quadro muda: nessas regiões, o risco entre pessoas pretas se iguala ou supera o de pessoas brancas em várias partes do país, chegando a um aumento de até 30% no semiárido nordestino, o maior valor de todo o estudo.
A diferença entre as duas contas tem uma explicação conhecida por quem trabalha com saúde pública no Brasil: fora dos grandes centros, o campo “raça/cor” nos formulários de óbito ainda é preenchido de forma irregular, por falhas de padronização, capacitação e, muitas vezes, pelas condições de trabalho nas unidades de saúde. O próprio relatório recomenda cautela com o resultado nacional, porque ele provavelmente subestima uma desigualdade racial que, onde o dado é mais sólido, aparece com mais força.
Essa pista ganha reforço em outro lugar. Djacinto Monteiro dos Santos, pesquisador da UFRJ, chegou a um retrato parecido num estudo publicado em 2024 com Fiocruz, UnB e a Universidade de Lisboa, que ele próprio resumiu num artigo no Portal Geledés. Ele olhou só para dentro das 14 maiores regiões metropolitanas do país, onde o dado racial tende a ser mais confiável. Ali, o excesso de mortes por calor entre pretos e pardos, comparado a brancos, foi de 10% no Rio de Janeiro, passou de 40% no Recife e em Belém, e ultrapassou 90% em Curitiba. No recorte mais extremo do levantamento, em Cuiabá, uma mulher idosa preta ou parda tem 203% mais chance de morrer de calor do que uma mulher branca da mesma idade.
Dois estudos, dois bancos de dados, dois períodos quase coincidentes, e um sinal na mesma direção: quanto mais sólido o dado racial, mais visível fica a desigualdade. Isso não é uma falha pontual de um sistema ou outro. É um indício de que o Brasil ainda precisa investir em registrar melhor quem ele perde, para que políticas públicas de proteção e segurança sejam produzidas com urgência olhando para as pessoas e seus territórios.
A ausência de dados nunca significou ausência de problemas. Quando o número não aparece com clareza, é tentador concluir que a desigualdade é menor do que parece. Muitas vezes, acontece justamente o contrário.. Foi assim, por muito tempo, com a violência policial, a mortalidade materna e a desigualdade salarial: levou anos até existirem dados cruzados por raça que tornassem essas desigualdades mensuráveis e visíveis e, a partir daí, possíveis de enfrentar.
O relatório do MCTI ajuda nesse sentido: trata a cor da pele não como categoria biológica, mas como retrato de desigualdades sociais, e é honesto sobre os limites desse retrato fora das capitais. Djacinto chega à mesma conclusão por outro caminho, ao defender que a cor da pele deve ser lida como indicador social, não fisiológico.
Essa relação entre calor e raça já tinha sido documentada fora do Brasil, pesquisas americanas, conduzidas há mais de uma década por epidemiologistas como Carina Gronlund, da Universidade de Michigan, mostraram que pessoas negras enfrentam risco maior de morte em ondas de calor urbano, não por nenhuma característica do corpo, mas por segregação residencial, menor acesso a ar-condicionado, mais exposição ao sol no trabalho e décadas de políticas de moradia que concentraram a população negra nas áreas mais vulneráveis das cidades.
O Brasil tem condições parecidas: os territórios mais pobres, em sua maioria de populações negras, costumam ser mais quentes do que bairros ricos, um efeito que tem nome técnico, ilha de calor urbana, e também tem território e cor.
Djacinto chega a quantificar esse efeito: o concreto e o asfalto das cidades podem deixar áreas urbanas até 5°C mais quentes do que o campo ao redor, e dentro da própria cidade são as periferias, mais densas e com menos árvores, que concentram esse excesso de calor.
Por que isso é pauta de gênero, raça e de SUS?
O estudo também mostra mais mortes por calor entre mulheres, e um padrão claro por escolaridade: quanto menos anos de estudo, maior o risco. Olhar essas camadas juntas — gênero, escolaridade, cor da pele, território — é olhar a vulnerabilidade ao calor do jeito que ela realmente funciona: nada isolada. O dado de Cuiabá ilustra bem isso: a diferença racial sozinha já é grande, mas somada à idade e ao gênero, ela triplica.
Uma mulher negra, com pouco estudo, morando numa periferia sem árvores de uma cidade do semiárido, não é mais um número parado em uma planilha, é o ponto em que clima, raça e gênero se encontram, e é também o ponto que os sistemas de informação do SUS ainda têm mais dificuldade de enxergar com nitidez.
Isso tem peso prático. Sem dados racial robustos fora das capitais, fica mais difícil identificar as necessidades básicas na hora de produzir políticas públicas para segurança climática, planejar ações como centros de resfriamento, planos de contingência, distribuição de equipamentos de ventilação e arborização urbana.
E mesmo nas metrópoles, onde o dado já existe, a resposta de política pública ainda precisa alcançar com mais força as periferias que são as mais impactadas pelo calor extremo.
O relatório do MCTI aponta caminhos concretos que podem qualificar o preenchimento da cor da pele nos sistemas de saúde, principalmente fora das regiões metropolitanas, investir em pesquisa sobre ilhas de calor e território, e desenvolver formas de coletar o que nenhuma base oficial mede hoje, como acesso a climatização, condição de moradia e exposição ao calor no trabalho.
Para que o Brasil enfrente o racismo ambiental, o caminho passa por fortalecer os próprios instrumentos que medem essa desigualdade, fortalecer as soluções comunitárias, ouvir os territórios para produção de políticas e proteger as pessoas. Um campo de raça/cor mal preenchido não é apenas uma falha estatística. É uma política pública que começa sem saber quem precisa ser protegido primeiro.
Mariana Belmont é jornalista, nascida em Parelheiros (extremo sul da cidade de São Paulo), trabalha com articulação e comunicação para políticas públicas. Atuou em cargos no governo sobre questões ambientais e de habitação na Prefeitura da cidade de São Paulo. Trabalhou como coordenadora de comunicação e articulação do Mosaico Bocaina de Áreas Protegidas pelo Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio). Foi Superintendente de Programas e Diretora de Clima e Cidade no Instituto de Referência Negra Peregum. Foi colunista do UOL e agora escreve mensalmente para a Gênero e Número. Também é ativista, parte de movimentos ambientalistas e periféricos. Recentemente foi editora convidada da Revista “Diálogos Socioambientais: Racismo Ambiental” da Universidade Federal do ABCD. É organizadora do livro “Racismo Ambiental e Emergências Climáticas no Brasil” (Oralituras, 2023). Atualmente é Assessora sobre Clima e Racismo Ambiental de Geledés – Instituto da Mulher Negra.