sábado, setembro 18, 2021
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“Cara gente branca”: Branquitudes e privilégios de quem pensa ser antirracista no Brasil

Esta reflexão sociológica surge como tentativa de análise sobre uma das consequências contemporâneas do racismo que é a constituição do fenômeno social “cara gente branca¹”, um conceito histórico e sociológico que se tornou popularmente conhecido no Brasil, através das práxis políticas de parcela dos movimentos negros – enquanto uma provocação ao nosso racismo histórico-cultural e estrutural – ao desenvolver uma análise, um olhar crítico, de um grupo social-racialmente inferiorizado em relação, numa perspectiva dialética, ao seu grupo étnico-racial e social opressor, o que demonstra uma forma de se buscar compreender e problematizar as características de exceções e discriminações que caracterizam as ditas sociedades ocidentais por uma perspectiva que privilegia o ponto de vista, as referências e perspectivas daqueles que tradicionalmente nunca tiveram voz.

Para uma melhor definição de nossa análise, aqui será discutida a vertente “progressista”, tanto por um viés “liberal”, quanto de “esquerda”, desse conjunto social que se encontra englobado pela denominação “cara gente branca” que se colocam como não racistas. Destacando nesse processo analítico as suas manifestações antirracistas como exemplos que acabam por revelar as nuances, as particularidades cruéis e alienantes do racismo brasileiro, que é o usufruir de seu privilégio branco numa sociedade ideológica e estruturalmente racista para exercer uma forma de poder decisório de querer qualificar, pautar ou ratificar como se deve dar os processos de lutas antirracistas e pró negritudes, chegando ao cúmulo de exercer um dirigismo sobre como uma pessoa negra e seus coletivos ou expressões de afro resistências devam se portar em suas práticas políticas e reivindicatórias.

Um comportamento elitista e de superioridade moral típico de uma sociedade escravocrata em seu ideário e relações sociais cotidianas, que geralmente se faz mascarar através da argumentação de que o “racismo é uma luta de todos²” – o que é fato – mas sem levar em consideração que o que para eles é teoria, para as populações não brancas, em especial as negras e indígenas, é realidade e que “só” por isso esse tipo de ingerência histórica-social-política deveria ser repensada e evitada, pois reforça herança cultural de que os negros são incapazes de se organizarem e agirem racionalmente, sempre dominados por “instintos naturais”, por pulsões de ódio, inveja e vingança, por isso devendo ser protegidos de si mesmos e orientados pelo caminho da lógica e civilização pela figura – individual ou coletiva – da “cara gente branca” e seu “complexo de branco salvador”, único portador de todas as razões e virtudes. Uma herança contemporânea de nossa naturalização acerca da inferioridade humana das populações não brancas, que manifesta-se no Brasil desde os tempos imperiais até meados do século XX de maneira pública e hegemônica, enquanto referenciais civilizatórios para a organização e desenvolvimento da sociedade brasileira, praticamente sem nenhuma contestação, com exceção dos conjuntos intelectuais negros³ que não por coincidência eram vistos e interpretados por nossas elites, enquanto manifestações não racionais de seres racial e socialmente inferiores, desprovido de valores e significâncias.

Por isso a atitude de querer “legitimar” ou “validar” as ações ou ideário das práxis negras por sujeitos históricos que a elas não são constituintes é interpretado enquanto uma forma de perpetuação dessa herança racista, de nossa formação enquanto nação incompleta e não cidadã. 

O que explica a revolta, no seu sentido de indignação, de verdadeira ojeriza dos atores políticos negros pelo fato do uso da branquitude pelos sujeitos representantes do “cara gente branca” enquanto poder moderador que define o que é valido, socialmente aceitável e apreciável em nossos processos de sociabilidades. Como se independente dessa legitimação e dominação, não pudesse haver vontades, anseios, percepções, saberes e decisões que não orbitem pela concordância ou falsa respeitabilidade que a “cara gente branca” de maneira consciente ou não, acaba por reproduzir e validar com suas ações.

Um processo histórico de relações sociais abusivas e impositivas, que acaba por gerar uma enorme dificuldade dos representantes da branquitude brasileira em aceitar a sua não importância decisória, nesse sentido, a sua não significância para as escolhas e decisões de um outro grupo étnico-racial. O que explica as posturas desse grupo em qualificar as práxis políticas dos grupos sociais marginalizados que se opõe as suas tentativas de ingerências enquanto exemplos de “radicalizações”, de “atos de intolerância”, simplesmente pelo fato dos historicamente interpretados e tratados enquanto os “outros”, os “diferentes”, os “não iguais”,  se organizarem e agir politicamente e socialmente de maneiras que a branquitude não aceita, não compreende e nem se esforça – ou não tem interesse – em buscar compreender. Sendo tal fato decorrente da impossibilidade dos grupos raciais-sociais privilegiados em se colocar no lugar do “outro”, pensar e agir cotidianamente, em todos os aspectos e por todas as perspectivas, levando em consideração o que um outro grupo étnico-racial pensa, de acordo com as relações sociais-políticas-econômicas, de acordo com os círculos sociais constituídos para impedimento de sua plena inserção social e cidadã na sociedade brasileira.

Na história de nosso país, as populações eurodescendentes nunca passaram por tal processo, pois sequer tiveram que imaginar as populações afrodescendentes ou indígenas como seus iguais ou semelhantes, nunca lhe foi necessário pensar e imaginar-se como era ser o “outro”, como era (é) nascer, viver, ser perseguido, estereotipado e morrer – ou ser morto – por ser considerado e definido enquanto o “outro”.

O que nos leva a uma situação indagatória de questionar o fato da “cara gente branca” querer pautar como se deve portar uma pessoa negra ante as agruras a que se encontra exposta nos cotidianos da sociedade brasileira, querer definir de fato o que é ser negro no Brasil, como este deve agir e pensar, se ela mesma – individual ou coletivamente – não consegue desconstruir nem a si mesmo? Nos possibilitando interpretar em pleno século XXI tal atitude enquanto uma reprodução, certamente com outras palavras e expressões, mas, com os mesmos significados racistas e odiosos que construíram as bases das relações sociais discriminatórias no Brasil, que tanto propagam combater, embutidos em frases como “quem você acha que é?”; “coloque-se no seu lugar”; “acha que é gente?”; “se acha importante, não é?” que sempre foram/são dirigidas, destinadas aos “outros” de nossa sociedade.

Realidade que nos faz questionar se os “cara gente branca” realizam de fato algum processo de desconstrução, de repensar e destruir o racismo que eles mesmos reproduzem, que eles carregam dentro de si mesmos? Ser possível aliado, ou querer se portar enquanto tal, num luta antirracista não lhes dá o direito de querer ressignificar o que seja racismo – como por exemplo propagar a existência de racismo reverso – ou querer, insisto, em atrelar para si as decisões para determinação ou não acerca das validades e significâncias, de potências e transformações das práxis políticas dos movimentos-expressões políticas ou reivindicatórias negras.  A incapacidade destes em não aceitar que o seu achismo, que o seu ideário não têm poder decisório é uma novidade aos processos de relações raciais e sociais que ainda está para ser devidamente analisado no Brasil, mas as reações dos “cara gente branca” ante a este fenômeno é um dos exemplos mais nítidos do quanto o questionar ao nosso status quo vigente, estruturalmente arcaico e racista, sempre é utilizado como uma forma de se desqualificar os anseios e perspectivas de construção de uma nova sociedade pelos historicamente minorizados e socialmente descontruídos, despossuídos de sua própria condição humana.

Não percebem por exemplo que “Vidas negras importam” é muito mais que um slogam ou hasthtag, não percebem que é a representação contemporânea de cotidianos, de historicidades e ancestralidades de milhões de pessoas que se colocam/colocaram contra um sistema que a séculos lhes vitimizam, lhes assassina e se alimenta das almas e corpos destes seres humanos. Sendo, portanto, resistências, revoltas, rebeliões que buscam uma outra realidade, não são modismos de Facebook por likes e compartilhamentos, mas sim práxis de vida pela destruição total, sem diálogos ou concessões para com o racismo ou os privilégios oriundos destes. E nos parece que os “cara gente branca” não conseguem compreender tais situações, tais perspectivas.

Antes de acusar ao outro de falsos sectarismos e preconceitos, antes de apontar o dedo ante aqueles que sofrem de fato os efeitos do racismo – e que por isso não precisam ser lembrados ou ensinados de como ele se dá, se constituí e acaba por afetar as vidas das pessoas – e começar a promulgar que “o racismo afeta a todos de maneira igual, pois somos todos seres humanos”; “quanto mais se fala de racismo, mais ele se fortalece”; “nem tudo é racismo”; “vocês acabam sendo mais racistas que os racistas”; “viver de passado não adianta, o que importa é construir o futuro”, acreditamos que o ato de se postar ante a um espelho, se encarando a fundo, sem desviar o olhar ante aquilo que lhe será revelado enquanto exercício de autodescoberta e desconstrução de uma falsa imagética sobre si mesmo e dos privilégios que o racismo brasileiro lhe infere é caminho necessário para aqueles que realmente querem trilhar o caminho do antirracismo de fato. E assim perceber que não cabe querer dirigir ou legitimar as ações, as expressividades daqueles que realmente sabem e sentem – literalmente – o que é o racismo em suas múltiplas facetas e alcances destrutivos.

Não basta ser antirracista, é preciso também combater e buscar a efetiva destruição deste, inclusive daquele que vive, habita e se reproduz dentro de você e a partir de você. Será que os “cara gente branca” estão preparados para isso? Ou vão continuar a imputar suas falhas e incompletudes aos “outros”, para manter em mares tranquilos a sua dissimulada consciência de pretensa pessoa antirracista? 

A resposta, creio, que já sabemos qual é…

Notas bibliográficas: 

¹ Termo originado a partir da tradução literal para português do filme norte-americano “Dear White People” (2014), tornando-se uma expressão utilizada para retratar de maneira sarcástica e provocativa a falta de percepção, ou de desprezo, de pessoas brancas que acabam por exercer uma postura de superioridade, de prevalência ante pessoas, expressões artísticas-culturais ou representações políticas pertencentes a grupos socialmente marginalizados. Exercendo um privilégio de branquitude, que acaba, dessa maneira – de forma consciente ou não – por fortalecer e reproduzir os alicerces do racismo estrutural brasileiro, como que reafirmando o ideário de superioridade intelectual e moral eurodescendente que subsidia a manutenção do racismo em nossa contemporaneidade histórica e social.

²A reflexão, discussão e problematização do racismo e da sua superação, deve ser – ou deveria ser – uma luta de toda a sociedade, mas as formas e como essas práxis ocorrerão é primazia dos grupos étnicos historicamente vitimizados pelo racismo e não por quem é oriundo de sua contraparte socialmente dominante e hegemônica, racialmente descendente do grupo opressor e por isso privilegiado pelo sistema que lhe origina e beneficia enquanto tal. 

³ Manifestações e expressões intelectuais, culturais e artísticas que desde pelo menos o século XVIII, mesmo que de maneira esporádicas e não formalmente organizadas, tem sistematicamente inserindo ao cenário político e intelectual brasileiro as sapiências, saberes e potências das populações afrodescendentes, enquanto base daquilo que viria a ser denominado de cultura popular brasileira, ao mesmo tempo que atesta as variadas formas e expressões de resistência destas populações ante aos racismos cotidianos a que eram submetidas. O que demonstra a existência de todo um conjunto referencial teórico e político antirracista e pró negritude desenvolvido pelas populações afro-brasileiras, que é totalmente ignorado em sua existência, ou renegado em sua significância, pelos sujeitos sociais constituintes do “cara gente branca” em sua sanha de se portarem enquanto elementos de prevalência ou de salvação em relação aos grupos historicamente marginalizados e socialmente inferiorizados na sociedade brasileira.

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Christian Ribeiro (Arquivo Pessoal)

Christian Ribeiro, mestre em Urbanismo, professor de Sociologia da SEDUC-SP, doutorando em Sociologia pelo IFCH-UNICAMP, pesquisador das áreas de negritudes, movimentos negros e pensamento social negro no Brasil. 

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