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Caro Dr. Drauzio, vamos conversar?

Caro Dr. Drauzio, vamos conversar?

Dr. Drauzio, acabo de ler o terceiro livro da sua trilogia intitulado “Prisioneiras” e gostaria de fazer algumas observações para que possamos avançar neste importante debate. Respeito muito sua dedicação e seu posicionamento ao afirmar que: “Profissão caprichosa a medicina, capaz de criar empatia mútua entre dois estranhos em questão de minutos”. De fato, médicos que exercem sua profissão com amor e honram um código de ética conseguem adentrar nos mais diferentes universos. Mas, é importante ressaltar que, apesar disso, sempre serão meros observadores e escutarão apenas aquilo que os pacientes querem contar, desde uma perspectiva privilegiada em razão da vulnerabilidade do interlocutor.

Por Gabriela Cunha Ferraz, do Justificando 

Apesar de trazer uma importante discussão sobre a agressividade do sistema prisional, o vão aumento dos números de encarceramento e a seletividade do processo, o livro me inquieta em diversas partes e, por isso, tomo a liberdade de escrever e apontar os trechos que merecem passar por uma reflexão crítica.

O primeiro é, sem dúvida, a própria apresentação, em que o senhor menciona que este é o fim de uma trilogia que começou com “Estação Carandiru” e foi seguido por “Carcereiros”. Nas primeiras 3 páginas do livro, o senhor omite uma importante informação que precisaria estar em destaque. Todo o livro e toda a sua experiência se limita à uma única unidade prisional do país, localizada no estado que recebe os maiores recursos financeiros para manter o sistema funcionando (ou quase). Esse detalhe é fundamental para esclarecer que a narrativa usada nas 276 páginas seguintes não representa, nem de longe, o vasto universo de mulheres presas no Brasil.

Dentre as falhas técnicas presentes no livro, cito duas. No capítulo intitulado “Os Filhos” (p. 46), o senhor faz a seguinte afirmação: “(…) Voltam da maternidade com o bebê, que será amamentado e cuidado por seis meses nas celas de uma ala especial (…) As celas para onde as mães são transferidas ao dar à luz contêm um bercinho e prateleiras com mamadeiras e fraldas, roupinhas penduras para secar em varais com barbante e boa parte dos utensílios das casas de um recém-nascido”. Pois bem Dr. Drauzio, sinto dizer que esse trecho não representa, em nada, o sistema carcerário feminino.

O senhor já foi na penitenciária de Ilhéus, por exemplo? Ou em Manaus? Nestes espaços, não existem celas especiais para mães e nem nenhum dos objetos descritos em seu texto. Na maioria das vezes, as mães desconhecem os direitos previstos na Lei de Execuções Penais e não sabem que o tempo mínimo para manter o bebê é seis meses. A administração penitenciária não “deixa” que os filhos fiquem com suas mães, eles estão apenas cumprindo a lei para evitar mais problemas judiciais em um sistema já falido. A desinformação está a serviço da crueldade do sistema penitenciário e o momento da retirada dos bebês é um verdadeiro cenário de tortura psicológica.

Outro momento completamente desnecessário está na página 85 quando o senhor afirma nunca ter atendido uma paciente com infecção alimentar e completa afirmando: “O pão é crocante, bem assado, como o das boas casas do ramo”. Depois de ler este trecho, o leitor pode ter vontade de dispensar seu café da manhã para aproveitar o desjejum no presídio. Isso não é a verdade do sistema. Na mesma São Paulo, já recebemos denúncia de unhas encontradas dentro da comida dos bebês. Em Tocantins, em uma audiência pública, recebi a denúncia de presas que tomavam leite em um copo feito a partir da garrada de água sanitária cortada ao meio.

Neste mesmo trecho, o senhor afirma que eventuais desconfortos gástricos “são causados por alimentos trazidos pelas visitas aos domingos.” Ao invés de demonstrar tamanha certeza em uma afirmação equivocada (até porque o senhor fazia um trabalho voluntário uma vez por semana e deve ter passado ao largo da maioria das diarreias vividas pelas presas), este seria um excelente momento para que o senhor questionasse como são feitas as revistas dos alimentos trazidos para dentro das unidades prisionais. Não sei se o senhor já teve a desgraça de acompanhar uma revista, mas, muitas vezes, os agentes transferem todos os alimentos cuidadosamente organizados pelos familiares para bolsas plásticas transparentes, misturando pudim com feijão e revirando aquela papa como se fosse lavagem de animais. Não posso afirmar, mas talvez essa seja a origem dos desconfortos diagnosticados em suas consultas.

Uma observação transversal que me incomodou durante toda a leitura foi a perspectiva utilizada para descrever o presídio feminino. O senhor reparou que, em nenhum momento, consegue se libertar de uma visão masculina? Em diversas partes, o senhor se limita a interpretar o universo feminino, a partir do masculino. A comparação é uma constante em todo o livro. Frases como: “Cena como essa jamais teria ocorrido em cadeia de homens” ou “nas cadeias masculinas, homossexuais são proibidos de servirem refeições” estão presentes em todo o livro.

Sinto dizer Dr. Drauzio, mas a sua lente está equivocada. Não somos objetos de comparação, somos indivíduos inteiros que interagem de forma única.

Mas, sem dúvida, a parte mais desnecessária da obra está no 4 capítulo que pretende versar sobre a sexualidade da mulher presa em uma clara manobra midiática para atiçar a curiosidade dos leitores mais desatentos como, por exemplo, do Pedro Bial. Em nada nos interessa saber se existem classificações internas baseada na orientação sexual de mulheres presas. Esses relatos servem apenas para aumentar os estereótipos e nublar a nossa visão quando falamos em erradicar o superencarceramento de seres humanos. Em uma frase que é absolutamente lamentável, o senhor ainda emite uma opinião pessoal sobre aquilo que jamais entenderá: (…) Vestiam camisetas largas que lhes disfarçavam a silhueta e bermudas compridas, com os pelos das canelas à mostra. Não estivesse em um presídio feminino, julgaria serem homens”. Antes dessa triste afirmação, teria sido útil questionar a possibilidade de usar lâminas de barbear ou produzir ceras caseiras em um presídio. Ou, quem sabe, enfrentar seus preconceitos e o nosso interesse em manter as canelas depiladas como forma de manter a simbologia do que é considerado “feminino” dentro de uma sociedade machista.

O senhor se arrisca ao afirmar claramente que “se atendo uma mulher de 25 anos sem filhos, há duas possibilidades: é infértil ou gay”. Essa é uma frase que, apenas, não pode ser dita. O senhor não conheceu todas as mulheres presas e não pode usar sua experiência como cláusula generalizadora de um universo extremamente vasto.

Apesar de todas essas falhas – que ainda incluem errar o nome da própria unidade prisional descrita no livro e de uma série de adjetivos e passagens desnecessárias, usadas ao descrever o espaço como, por exemplo: “delicadeza feminina”“caprichosas”“o interior das celas é bem cuidado”“o gosto das mulheres por manter a casa limpa”“todas falam ao mesmo tempo”“meio do pandemônio” e “o chão brilha”, tenho ainda uma grande observação a ser feita.

O senhor dedica 3 capítulos para narrar histórias de mulheres que serviram de “ponte” para o sistema e foram presas ao levar drogas para o interior das unidades prisionais masculinas. Essas histórias ocupam uma grande parte da sua narrativa e levam o leitor à uma conclusão mentirosa e leviana. Não, Dr. Drauzio, as drogas não entram no sistema penitenciário através das vaginas das mulheres. No livro, o senhor afirma desconhecer a existência de outros meios de transporte (p.66), mas posso afirmar que existem sólidas pesquisas sobre o assunto, sendo a maior delas cuidadosamente elaborada pelo Instituto Terra, Trabalho e Cidadania (ITTC), que há mais de 20 anos trabalha dentro de unidades de detenção feminina.

Suas conclusões não refletem a realidade e atrapalham a construção de políticas públicas que valorizem a dignidade da pessoa presa. As revistas vexatórias são consideradas verdadeiras formas de tortura dentro do sistema prisional e não podem ser encorajadas. Não digo que as mulheres atendidas tenham mentido para o senhor. Digo, apenas, que, ao contrário do que o livro deixa a entender, elas não são maioria e suas histórias servem para engrossar o caldo midiático. Uma freira um dia me falou a seguinte frase: “Nem a maior vagina do mundo comportaria toda a droga que existe dentro de um presídio”. Acho que, depois disso, não precisamos estender esse assunto.

Eu entendo que o livro está marcado por uma boa vontade em “humanizar” a situação das pessoas que estão em situação de cárcere, mas isso não pode ser feito à todo custo e nem de forma a reforçar estereótipos. No epílogo, o senhor relaciona a criminalidade à três fatores, sendo eles:

(1) infância negligenciada;

(2) falta de orientações firmes e

(3) convivência com pares que vivem na marginalidade.

Desconheço a fonte de pesquisa usada para chegar à essa conclusão, mas, certamente, existem muitos outros fatores que contribuem para formar este complexo universo.

À luz dessa questionável conclusão, o senhor acaba fazendo uma perigosa relação entre classes sociais desfavorecidas e criminalidade. Já eu, afirmo, por outro lado, que essa não é a origem da criminalidade no nosso país. Vivemos em um país onde o cárcere existe para cumprir a função clara de segregar a população indesejada, na visão daqueles que detém o poder da caneta. Mas, a criminalidade não tem nada a ver com isso, vez que, muitas vezes, os donos das canetas são aqueles que deveriam estar atrás das grades. Os grandes bandidos do país usam terno e traficam 500kg de droga em seus helicópteros, aeroportos privados ou grandes latifúndios no centro do país. Criar uma suposta guerra às drogas serve para matar nossos jovens, segregar os pobres e acobertar os verdadeiros bandidos. Então, que tal escrever sobre isso? O senhor se descreve como alguém aficionado pelo mundo do crime e, por esta razão, poderia se debruçar sobre as artimanhas da grande classe de homens brancos e ricos do Brasil. Arriscaria dizer que seria um best seller, digno de virar minissérie na Globo.

Gabriela Cunha Ferraz é advogada, militante, mestra em Direitos Humanos pela Universidade de Estrasburgo e Realizadora do Projeto Vidas Refugiadas (www.vidasrefugiadas.com.br)

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