sábado, novembro 27, 2021
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Carta dos docentes negras e negros da USP: Pelo direito á diversidade na USP!

Docentes negras e negros da Universidade de S. Paulo lançaram carta à administração da USP  denunciando o racismo institucional na universidade. A carta intitulada “PELO RESPEITO À  DIVERSIDADE NA USP” avalia que o caso da morte do estudante Ricardo Lima da Silva no CRUSP  (Conjunto Residencial da USP) no dia 26 de maio não foi um fato isolado, mas fruto da “inequívoca  existência do racismo institucional na USP, da ausência efetiva de políticas públicas para superar o  racismo, a falta genuína de interesse em um verdadeiro acolhimento de pessoas negras na  universidade”.  

O documento lembra que, muitas universidades ao redor do mundo, perceberam a importância e os  benefícios de “políticas de valorização da diversidade e de acolhimento, de educação e enfrentamento  a abusos, assédios e discriminações étnico-raciais” enquanto vigorou um silêncio institucional da  reitoria ante a morte trágica do estudante. O episódio ocorrido com o estudante da Geografia, dentro  das dependências da universidade, envolve toda a comunidade USP e não apenas a Faculdade a qual  o aluno pertence. 

Assim, docentes que assinam o documento propõem quatro iniciativas a serem implementadas pela  USP:  

1) criação do escritório USP-Diversidade Étnico-racial para acompanhamento e proposição de pautas  relativas à diversidade, inclusão, políticas antirracistas e medidas de acolhimento e permanência a  estudantes periféricos, negras e negros, composta por 3/4 de professores negros e negras da USP; 2) serviço de assistência social e acompanhamento composto por especialistas conhecedores e  engajados ao tema das discriminações e do racismo;  

3) inclusão da diversidade como critério de mérito na composição de bancas para contratação,  avaliação de projetos de pesquisa, composição das equipes dos projetos, progressão na carreira e  demais atividades na USP.  

4) atendimento urgente das demandas dos estudantes quanto à permanência, alimentação e moradia. E, finalmente, a carta assinada por docentes negras e negros conclamam a administração da USP a não  mais compactuar com as manifestações do racismo estrutural que “vem ceifando vidas, adoecendo  pessoas, desestimulando os esforços dos seus quadros negros de servir na instituição e dificultando  sobremaneira o pleno desenvolvimento das potencialidades dos estudantes negros.” 

Carta dos docentes negras e negros da USP: PELO RESPEITO À DIVERSIDADE NA USP!

Sociedades e instituições democráticas cujos princípios se assentam sobre direitos humanos, valores  republicanos e inclusão da diversidade buscam continuamente melhoria desses parâmetros, os quais  são entendidos como parte incontornável do processo civilizatório. A tardia adoção de políticas  afirmativas de cunho sócio racial trouxe aos campi da USP um contingente de estudantes negros jamais  visto nessa instituição.  

Apesar dos inegáveis ganhos atrelados a essas medidas hoje, na USP, infelizmente, o discurso de  importância da diversidade étnico-racial e a correspondente presença da população negra nos seus  campi ainda carece de práticas efetivas que inequivocamente acolham os valores enunciados e os  plasmem em atitudes e políticas antirracistas efetivas.  

As circunstâncias até aqui conhecidas que levaram ao desespero e ao suicídio anunciado do jovem  estudante negro no Conjunto Residencial da Universidade de São Paulo – CRUSP nos causou profundo  desalento, tristeza, comoção, compaixão, mas também indignação. Se não é por falta de  documentação e de pesquisas que ressaltam o estresse sofrido sobretudo pelos mais pobres, como  explicar a manutenção da exiguidade das condições enfrentadas pelas negras e negros periféricos que 

estudam da USP e precisam morar no CRUSP? Como os docentes da USP lidam com a diversidade nas  suas salas de aula? Quantas vidas mais perderemos após o imenso sacrifício vencido para estar na  Universidade? Por que a USP não acolhe as reiteradas sugestões do seu minúsculo corpo docente  negro? Essas são fruto de nossas vivências, pesquisas e dedicação incessante a toda sociedade  brasileira. Até quando o discurso da diversidade em nossa comunidade acadêmica irá ignorar o sangue  e as lágrimas derramadas pelas vidas negras decorrentes da:  

1) inequívoca existência do racismo na USP;  

2) ausência efetiva de políticas públicas para superar o racismo;  

3) falta genuína de interesse por um verdadeiro acolhimento das pessoas negras pela/na Universidade  que resultariam em medidas institucionais para a resolução dos problemas há muito conhecidos.  

Muitas universidades ao redor do mundo já perceberam a necessidade de convergência entre discurso  e prática, e os benefícios de políticas internas de valorização da diversidade e de acolhimento, de  educação e enfrentamento a abusos, assédios e discriminações étnico-raciais. Como podemos  entender o silêncio institucional em face da morte trágica do estudante negro? E que providências  serão tomadas para que tragédias análogas não se repitam?  

Nós, professoras e professores negros da USP, lamentamos profundamente que os inúmeros avisos,  pedidos, informações e clamores não tenham sido suficientemente levados em conta pela instituição.  E que as contínuas denúncias de racismo, assédio moral e falta de estímulo ao desenvolvimento das  potencialidades dos estudantes negros e periféricos tenham esgarçado a desesperança do jovem  negro, desencadeando a perda irremediável da sua vida tendo em vista inações e olhares impassíveis.  Para que a USP se translade do discurso à prática efetiva, urgimos:  

1) criação do escritório USP-Diversidade Étnico-racial constituindo uma comissão permanente, com  recursos destinados a ela, que contenha professores de origem periférica, negros e negras para a  proposição e gerenciamento de pautas relativas à diversidade, inclusão e ao antirracismo na USP; 

2) serviço de assistência social e acompanhamento composto por especialistas conhecedores e  engajados ao tema das discriminações e do racismo;  

3) inclusão da diversidade como critério de mérito na composição de bancas para contratação,  avaliação de projetos de pesquisa, composição das equipes dos projetos, progressão na carreira e  demais e atividades na USP.  

4) atendimento urgente das demandas dos estudantes quanto à permanência, alimentação e moradia. 

Conclamamos a administração da Universidade de São Paulo a não mais tolerar a continuidade do  racismo estrutural que vem ceifando vidas, adoecendo pessoas, desestimulando os esforços dos seus  quadros negros de servir na instituição e dificultando sobremaneira o pleno desenvolvimento das  potencialidades dos estudantes negros. E que o respeito, seriedade e afinco dedicados pela instituição  ao conhecimento também sejam empregados com o mesmo vigor nas políticas de valorização da  diversidade e de ações antirracistas recentemente assumidas.  

Assinam o documento as professoras e professores: 

Adriana Alves – IGc- USP 

Alessandro Oliveira dos Santos – IP – USP 

Dennis de Oliveira – ECA – USP

Eunice Almeida da Silva – EACH – USP

Eunice Aparecida de Jesus Prudente – FD – USP

Fernando Fagundes Ferreira – FFCLRP – USP

Gislene Aparecida dos Santos – EACH- USP

Ivan Cláudio Pereira Siqueira – ECA-USP

Márcia Lima – FFLCH- USP 

Rosenilton Silva de Oliveira – FE – USP

** ESTE ARTIGO É DE AUTORIA DE COLABORADORES OU ARTICULISTAS DO PORTAL GELEDÉS E NÃO REPRESENTA IDEIAS OU OPINIÕES DO VEÍCULO. PORTAL GELEDÉS OFERECE ESPAÇO PARA VOZES DIVERSAS DA ESFERA PÚBLICA, GARANTINDO ASSIM A PLURALIDADE DO DEBATE NA SOCIEDADE. 

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