Choque de antirracismo

Nessa triste mamata chamada Brasil, há um elemento central, inescapável, incontornável, óbvio e ululante: a questão racial

Mário Covas (1930-2001) disse que o Brasil precisava de um “choque de capitalismo”. Covas, um social-democrata, obviamente não entendia por “capitalismo” este velho oeste dos dias atuais: liberar a Amazônia para o extrativismo ilegal, rifar o governo para os lobbies do centrão, acabar com o Iphan para soterrar o nosso passado sob estátuas da liberdade (sic) da Havan.

Penso que ele jamais imaginaria um imbecil a favor da tortura e do extermínio de pobres/negros pela polícia levado à presidência —no colo da maioria dos “liberais” brasileiros. E haja aspas nesses “””liberais”””.

Creio que o ex-governador se referia, com “choque de capitalismo”, a acabar com os conchavos, o fisiologismo, os privilégios. Trocar o “homem cordial”, do Sérgio Buarque de Holanda (1902-1982), pelo cidadão com direitos e deveres iguais de uma democracia liberal. Mas “democracia liberal”, entre nós, é tapume sobre a barbárie, com um adesivinho “ESG”.

Há uma confusão recorrente sobre o conceito de “homem cordial”. “Cordial” não é gentil, mas quem age guiado pelo coração, não pela razão. Abrir a porta para alguém é cordial, pedir a cabeça de alguém numa bandeja, também. “Homem cordial” é aquele juiz, garçom, promotor ou guarda de trânsito que tem uma lei pro desconhecido, outra pro vizinho. No país do “homem cordial”, a frase “as instituições estão funcionando” é sempre falsa.

Nessa triste mamata chamada Brasil, há um elemento central, inescapável, incontornável, óbvio e ululante que incompreensivelmente não é o cerne de todas as discussões e campanhas, matérias e manifestações: a questão racial. Joaquim Nabuco (1849-1910) escreveu e o Caetano cantou: “a escravidão permanecerá por muitos anos como a característica nacional do Brasil”. No entanto, por um delírio coletivo, fingimos não sofrer dessa chaga. Racismo? Onde?

Minha filha me perguntou, aos cinco anos: por que os pobres são negros? A resposta correta seria “porque brancos como nós sequestramos 5 milhões de africanos e os escravizamos por três séculos, daí os libertamos ao Deus dará, logo aprovamos leis para persegui-los e montamos uma incrível estrutura de exclusão que funcionou perfeitamente por um século”. Não foi o que eu disse pra minha filha. Contei a parte da escravidão, pus a culpa nos portugueses. Do que rolou depois, tentei fugir.

O Brasil é um horror. Ouvi de um intelectual negro, professor da USP, aos 70 anos, que ele dorme apavorado toda noite achando que os filhos de 30 podem ser assassinados pela polícia. Qualquer homem preto, na rua, de noite, no Brasil, pode ser assassinado pela polícia.

Sob o manto da democracia racial, o Brasil mata milhares de jovens negros por ano e impede que tantos outros tenham chances. Nós, brancos, temos que acordar pra essa questão urgentemente. Ela diz respeito à metade da população. Às duas metades, na verdade.

A quem estiver interessado a lutar contra o fosso racial brasileiro, vai rolar segunda-feira (6) o evento Quilombo nos Parlamentos, na Ocupação 9 de Julho, rua Álvaro de Carvalho, 427, em São Paulo, pra promover candidaturas negras ao Legislativo.

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