Cidinha da Silva e as urgências de Cronos em “Tecnologias Ancestrais de Produção de Infinitos”

Em outra oportunidade, dissemos que Cidinha da Silva é, assim como Lélia Gonzalez e Sueli Carneiro, autora importante para entendermos o Brasil de hoje e de amanhã. O que mais nos interessa nesta ideia é a maneira como a autora o faz: por meio de suas crônicas. Cidinha é famosa por elas, isso não é novidade. E se não surpreende a qualidade dessa sua prosa breve e fincada no agora de sua escrita, o encantamento com ela nunca se perde. E, mais uma vez, vemos isso se materializando em Tecnologias ancestrais de produção de infinitos (Martelo). 

As crônicas de Tecnologias ancestrais de produção de infinitos trazem em si a criticidade tão marcante de Cidinha da Silva. Atenta às coisas, a autora parece ter uma espécie de antena ligada, sempre à espreita de todo tipo de argumento que tão habilmente transforma em texto. Tudo a serve como matéria-prima. E sobre tudo ela tem o que comentar. O melhor é que Cidinha não o faz de qualquer jeito. Ela trata todo e qualquer assunto com seriedade, mesmo quando a ironia e o sarcasmo envolvem suas palavras. 

Como de costume, os temas das crônicas de Cidinha são os mais variados. Contudo, neste volume temos três grandes blocos nos quais se concentram tópicos aproximados. Na primeira parte do livro (“Carcará”), a pandemia da Covid-19 se faz sempre presente. Seja como tema central, seja por ter deixado rastros. Eis aqui um registro desse tempo traumático do qual nós vivemos. Ter o olhar e as palavras de Cidinha se voltando para tal momento é o mesmo que enxergá-lo a partir de um prisma que se preocupa com detalhes que muitas vezes escapam do campo de visão de outras pessoas. Por exemplo, não foram muitos os que deram o devido valor ao caráter anarquista (mesmo que a autora não se valha do termo em seus textos) que muitas comunidades adotaram para sobreviver àquele período nefasto. Não fosse o apoio mútuo e a ação direta das periferias, subúrbios brasileiros e outras vizinhanças (como pessoas jovens e de menos risco ajudando idosos e pessoas com comorbidade, para ilustrar), o estrago teria sido maior. Cidinha arremata: “a grande lição da pandemia de Covid-19 veio dos becos e das vielas, as ruas típicas das favelas. Estamos por nossa própria conta, ‘nós por nós’ é, ao mesmo tempo, mantra e é atitude de combate. Nós, gente negra, só nos salvaremos da morte se cuidarmos de nós mesmos e um dos outros, se nos responsabilizarmos pelos nossos que mais precisam.” Cidinha desnuda a necropolítica que fez da pandemia um pesadelo maior ainda e a denuncia para além daquele contexto. Um salve aqui para a necessária lembrança das lives diárias de Teresa Cristina, um acalanto que muito nos ajudou naqueles anos e que deveria tê-la elevada a um patamar na arte brasileira muito maior do que ela está. Ela merece muito e nós, como sociedade, ainda não lhe fizemos jus. 

Na segunda parte do livro, “João de Barro”, Cidinha da Silva nos presenteia com uma perspectiva do mercado editorial e cenário literário de quem o vive de dentro, e de forma independente, há muitos anos. Nessa seção da obra, a autora traz reflexões sobre a escrita e o que motiva seu trabalho (“[…] me nutro da ancestralidade […] versus contemporaneidade para criar”) além de se debruçar sobre os dilemas e incongruências acerca de todo o ofício. Nessa, somos postos diante de uma ótima observação que a autora faz a respeito de constantemente trabalhar com editoras de mulheres e pondera sobre a prática de escrever por encomenda. Também está aqui a ótima crítica que a autora faz acerca do livro infantil ABC da liberdade (Companhia das Letrinhas), de José Roberto Torero e Marcus Aurélio Pimenta, ilustrado por Edu Oliveira, no qual se é imaginada a infância de Luiz Gama em um navio negreiro em que toda a violência envolvendo tal hipótese é romantizada, sendo narrada com humor. Uma saga cruel, sádica e racista, como descreve Cidinha. Um texto necessário. Sobretudo, se pensarmos que ainda se faz necessário apontar o dedo para “aberrações” como essa.  

Na última parte do livro, que recebe o título de “Bem-te-vi”, Cidinha nos guia pelo caminho dos afetos. Suas crônicas (às vezes contos?) aqui se voltam para outras questões do cotidiano em que o verniz é menos crítico (embora, sim, a crítica se faça presente) e mais contemplativo. Nessa parte, as relações humanas ganham maior protagonismo. O amor e o desejo estão ao redor — de diversas formas, de variados jeitos — e a plenitude é o alvo. É muito bom poder ver esse lado da vida por meio do olhar de Cidinha, sempre tão perspicaz. 

Não tem mistério: Cidinha da Silva é uma das grandes cronistas que nasceram nestas terras que passamos a chamar de Brasil. E Tecnologias ancestrais de produção de infinitos é mais uma prova disso. Sempre corajosa, é autora que escreve sem medo do confronto. E talvez o confronto seja algo que ela até almeje. Afinal, uma escritora de mão cheia como ela tem a manha de deslocar quem a lê. Contudo, Cidinha também é pessoa muito generosa. E esse seu lado, não raro, aparece por suas letras, como muito bem vemos nos textos do livro que comentamos aqui. Que os infinitos que ela produz nunca deixem de circular. Sobretudo, pelas ruas, onde a matéria de suas crônicas é também onde elas têm mais força. Vida longa!


Arman Neto é filho da Dona Yara e do Seu Chico e cria de Queimados, Baixada Fluminense. Formado pela Faculdade de Letras da UFRJ, é escritor, revisor e preparador de textos. Escreve para o Impressões de Maria desde dois mil e dezoito.

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