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Como São Francisco fechou as portas ao fascismo

Como São Francisco fechou as portas ao fascismo

Dias depois de projetarem-se em Charlostesville, supremacistas brancos tentaram provocar o berço da cultura hippie. Veja a reação, praticamente ignorada pela mídia

Por Maurício Ayer Do Outras Palavras

Milhares de pessoas foram às ruas de São Francisco no sábado, 26 de agosto, dizer não ao ódio, ao racismo e ao ultranacionalismo. Após uma semana tensa, sob a ameaça de que um comício convocado por grupos de extrema direita terminasse em confrontos violentos, à imagem do ocorrido dias antes em Charlottesville, a população e as instituições da cidade californiana conseguiram derrotar os “supremacistas brancos”, a ponto de fazê-los cancelar o ato.

A chamada ao comício, cujo mote seria a defesa da “liberdade de expressão”, inspirou-se por um macabro oportunismo. O grupo de extrema direita Patriot Prayer, sediado no estado de Oregon, pareceu ver na “publicidade” que tiveram os acontecimentos de Virginia uma chance de alavancar sua plataforma política, ignorando o saldo da morte de uma estudante e dezenas de feridos. As declarações condescendentes e atenuadoras do presidente Donald Trump em relação aos acontecimentos encorajaram esta aventura.

Mas por que São Francisco? Charlottesville é tida como uma cidade progressista (ou “liberal” na linguagem estadunidense) no estado de Virginia, com grande população de jovens universitários; fazer um comício em São Francisco teria o potencial simbólico de criar uma provocação na cidade símbolo da cultura progressista e da tolerância no país.

 

Acendeu-se o alerta vermelho. A deputada democrata Nancy Pelosi, eleita pelo 12º distrito da Califórnia, zona que inclui o parque de Crissy Fields, onde o ato foi programado, imediatamente levantou a voz para denunciar publicamente o grupo como neonazista. “É um grupo de supremacistas brancos (white supremacists), neonazista”. O prefeito de São Francisco, Ed Lee, também se posicionou contrário à realização do comício, afirmando não ver razão para se correr risco de violência trazido por um grupo de fora em circunstâncias estranhas.

Os Crissy Fields, no entanto, são uma área militar sob administração federal, portanto fora da jurisdição da prefeitura, que certamente teria negado a autorização ao comício. Ocorreu o contrário: os ativistas obtiveram da direção do parque a autorização que precisavam e tudo indicava que o ato seria realizado.

Ao longo da semana, a discussão acirrou-se. O tema do comício disputou a prioridade do noticiário apenas com a aproximação do furacão Harvey na costa do Texas. Pelosi lançou nota à imprensa reafirmando tratar-se de um “comício supremacista”, que deveria ser combatido pelas instituições democráticas. Em entrevista à rede NBC, o líder do Patriot Prayer, Joey Gibson, que se autodeclara de etnia “japonesa”, afirmou que Pelosi “mente” e que seria “frustrante” descobrir que entre todos os líderes programados para falar no comício havia apenas um homem branco. Disse ainda que não defende extremistas como “neonazistas, comunistas e antifas”, e que entre os coletivos participantes há um grupo transexual.

No entanto, os atos organizados até hoje pelo Patriot Prayer têm contado com forte presença de facções declaradamente fascistas, como recentes eventos em Portland e Seattle. Para o comício na Califórnia, aliás, convocaram os Oath Keepers, uma conhecida milícia que ostenta armas em público, para “garantir voluntariamente a segurança do evento”.

São Francisco não comprou essa conversa. A sociedade rapidamente mobilizou dezenas de contraprotestos. A própria prefeitura organizou um evento “pela tolerância” em um local distante de Crissy Fields, no Civic Center, oferecendo shows e atividades para crianças, com o intuito de criar um outro polo e evitar o confronto violento. Em função disso, alguns grupos definiram o Civic Center como destino de suas marchas, partindo de bairros como Castro (conhecido distrito gay) e Mission (tradicional região habitada por mexicanos e outros latino-americanos, que também concentra intelectuais e artistas).

O leque de estratégias de protesto foi amplo. Houve chamadas para marchas e convocações ao confronto direto, além de muitas mensagens espalhadas por praças, parques, bares, restaurantes, centros culturais, universidades, por toda parte. A mais anárquica e mordaz foi a de donos de cachorros, que reuniram seus melhores amigos para transformar Crissy Fields em um campo minado de bosta para receber os discursos fascistas. Em contraposição purificadora, um outro grupo reacendeu a forte chama da cidade que é berço da cultura hippie e programou um ato não violento para após o comício: cada um levar vassoura, pá, sacos de lixo, velas e incensos, suas melhores e mais potentes energias, e ali fazer uma pajelança cívica para purificar a área de qualquer traço físico e espiritual de intolerância.

Diante da reação de repúdio tanto da população quanto das instituição políticas de São Francisco – e talvez já satisfeitos com a publicidade obtida –, o grupo organizador cancelou o comício. Gibson disse que não queria “cair na armadilha” que estavam preparando para ele e marcou uma coletiva de imprensa em outro parque, a praça Alamo. A polícia então cercou e isolou o local, confinando a coletiva a uma casa ao lado da praça.

No sábado, dezenas de milhares de pessoas foram às ruas em passeata, defendendo a tolerância e o amor contra o ódio e o fascismo. No bar Zeit Geist, no bairro de Mission, conversei com Jeremiah, artista que faz parte do coletivo 100 Days of Resistance (uma resposta ao plano dos 100 primeiros dias de governo de Trump). Jeremiah acredita que a intenção do grupo fascista ao trazer para o proscênio figuras de etnias e identidades de gênero diversas é “turvar a água”, tornar menos claros os seus contornos ideológicos e com isso ganhar terreno. (Qualquer semelhança com grupos como MBL, que investem na figura de um Fernando Holliday como “líder” negro e homossexual, não será mera coincidência.)

A progressista São Francisco derrotou os fascistas e bateu-lhes a porta na cara. O prefeito Lee declarou à Fox News que “se as pessoas querem ter um palanque em São Francisco, melhor terem uma mensagem que contribua para as vidas das pessoas em vez de procurar meios de agredi-las”. “É por isso que certas vozes têm muita dificuldade de serem ouvidas atualmente”, completou.

Não se pode desprezar a esperteza política desses grupos. A cidade se uniu diante da ameaça fascista, derrotou-a e respirou mais tranquila. Mas é certo que o grupo organizador conseguiu grande exposição midiática, que procurará capitalizar de alguma forma. Por enquanto, São Francisco permanece um território livre onde, segundo um cartaz que encontrei ao pé de uma mesa no tradicional bar Zeit Geist, “o ódio não tem morada”.

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