terça-feira, outubro 26, 2021
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Da periferia a CEO: Vivi Duarte dá dicas de carreira para mulheres em livro

De vendedora de lojas e atendente de telemarketing até se tornar diretora de multinacionais, a jornalista Viviane Duarte possui uma trajetória de sucesso pessoal e profissional. Negra e nascida e criada na periferia de São Paulo, Vivi conta que desde criança está acostumada a ver pessoas questionando a sua capacidade de romper padrões sociais.

“Quando era menor, ouvia da minha vizinha: ‘Garota, quem é você na fila do pão para querer fazer faculdade? Pobre não estuda, pobre trabalha'”, conta Vivi, em entrevista para Universa. Contrariando as expectativas, ou “hackeando o sistema” — como ela mesma gosta de falar —, a paulistana concretizou o sonho de ter um diploma – se formou em jornalismo pela Faculdade Maringá, e foi além: ocupou cargos altos em diferentes empresas multinacionais (BuzzFeed, Facebook, etc) e, em 2010, criou um Instituto Plano de Menina, que ajuda outras garotas romperem as expectativas da sociedade.

Agora, em agosto de 2021, Vivi conta sua história e dá dicas de como hackear o sistema no livro “Quem é você na fila do pão?”, livro recém-lançado pela editora Planeta. “A obra, na verdade, é uma provocação”, diz a autora. “Essa expressão me persegue desde criança. ‘Quem ela acha que é para querer estudar? Para estar aqui nessa empresa? Para ser chefe?’. Com o livro, quero ajudar outras mulheres a enxergarem o potencial delas”.

Vivi aconselha mulheres a enxergarem seu potencial sem deixar ninguém “furar a fila do pão”. “A gente tem que entender que merecemos estar aonde estamos, ocupar os espaços que ocupamos e que podemos, e merecemos, conquistar aquele pão quentinho e crocante; não o pão velho, murcho”. A seguir, a autora comenta mais sobre o assunto.

Hackear o sistema para ir mais longe

Apesar de falar da própria história com orgulho, Vivi frisa uma mensagem: é preciso parar de romantizar a pobreza, o empreendedorismo e a exaustão. Quanto ao primeiro ponto, a paulistana garante que não está falando sobre apagar do passado; pelo contrário, “foi olhando para a minha história (já trabalhei como empacotadora, vendedora de shopping, ajudava minha avó a fazer compras no Brás) que pude analisar e reparar quais eram as minhas principais qualidades. É importante que façamos isso”.

É afrontoso para a sociedade ver uma mulher que nasceu na periferia ocupando os espaços que ocupo

O que Vivi questiona é o discurso da meritocracia. “Cada pessoa parte de um lugar. Nem todo mundo é herdeiro. Às vezes eu ficava me comparando com colegas de trabalho e esquecia que eles eram de família rica, que tiveram mais oportunidades do que eu. É preciso olhar para a própria história e valorizar cada passo”, comenta.

Para ajudar a quebrar o ciclo de pobreza que atinge, principalmente, mulheres negras, Vivi fundou em 2010 o Instituto Plano de Menina, ONG que fornece formação psicológica e técnica para meninas da periferia de São Paulo. Durante a pandemia, o Plano auxiliou 300 participantes a conseguirem vagas empresas em multinacionais como The Body Shop, Ambev e outras. “Eu gostaria de ter tido esse apoio quando estava começando a minha carreira.”

É com dicas de como “hackear o sistema” que Viviane preenche as páginas de seu livro. “Temos que parar de idealizar o mundo dos negócios. Ele é cruel, já passei por várias situações de abuso psicológico no ambiente coorporativo; isso sem falar do machismo”, desabafa.

O livro traz um mapa de planos para ajudar a mulher a construir a marca dela. A gente precisa aprender a falar bem da gente sem ficar esperando que outra pessoa faça isso pela gente… os homens fazem isso (falar bem de si) desde sempre. É hora de aprendermos a fazer o mesmo

Além do mapa, a obra também traz dicas de comunicação, atendimento ao consumidor, liderança, negócios e de como superar a Síndrome de Impostora – da qual a própria autora revela sofrer: “Levei mais de um ano para escrever o livro, acredita? Eu ficava insegura de escrever… que ironia!”.

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Viviane Duarte é criadora do Instituto “Plano de Menina” e autora do livro “Quem é você na fila do pão? (Foto: Arquivo Pessoal)

“Chega de romatinzar a mulher sobrecarregada”

Outro ponto abordado por Vivi em “Quem é você na fila do pão?” é a exaustão mental e física ao qual estamos expostas no ambiente profissional. “É muito difícil ser uma mulher empreendedora no Brasil. O imaginário público reforça a ideia de que somos ‘multitasks’, de que conseguimos fazer um milhão de coisas ao mesmo tempo. Isso nada mais é do que sobrecarregar a mulher”.

A empresária revela já ter passado por situações tóxicas no ambiente profissional que quase a levaram a um burnout (crise provocada pelo estresse no ambiente de trabalho). “Hackear o sistema exige resiliência. Tem hora que queremos gritar na cara daquele colega machista-branco-opressor que ele é um escroto, mas às vezes essa não é a melhor escolha. Já fui interrompida por homens em reuniões, roubaram minhas ideias, mandaram eu me calar. No passado, a gente nem tinha ideia de que isso era abusivo; hoje temos nome para essas atitudes: mansplaning, manterrupting. Nossa luta não é mais invisível”, diz.

A gente vai pulando esses obstáculos e mostrando quem somos. Na fila do pão, temos que ser sempre a pessoa que quer um pãozinho quente e crocante – não podemos nos contentar apenas com migalhas

Para Vivi, porém, é importante ter consciência de que “caráter não escolhe gênero”. Ela acrescenta: “É muito importante lutarmos pela sororidade – mas não somos obrigadas a compactuar com todas as mulheres. Principalmente com as tóxicas. É preciso ter inteligência emocional para lidar com isso também”.

Vivi garante que só conseguiu chegar aonde está porque segue um lema. “Se você não tem forças para mudar o seu entorno, o importante é cuidar de você mesma primeiro”.

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