segunda-feira, setembro 20, 2021
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Desafios das mulheres negras no mercado de trabalho

As mulheres negras enfrentam desafios históricos na sua inserção no mercado de trabalho. A escravização deixou marcas duradouras na trajetória laboral desse grupo populacional, as quais perpassam início precoce e saída tardia do mercado de trabalho; desemprego elevado; concentração em ocupações subordinadas; bloqueios à competição por posições com maiores remunerações e prestígio e então, baixo retorno em relação ao avanço da escolaridade; ameaças constantes de rebaixamento e expulsão, provocadas por mudanças sócio-econômicas, mudanças no ciclo de vida ou pelo racismo direto. No contexto da pandemia provocada pelo novo coronavírus, o conjunto desses desafios tem se agravado, renovando em bases ainda mais complexas o desafio de lutar por um padrão civilizatório em que a interseccionalidade seja vista como ponto de partida incontornável da ação estatal e social, e não como mero recorte.

“Pra começo de conversa”

Como já nos ponderou Beatriz Nascimento², a escravização estabeleceu o lugar da mulher negra na hierarquia social do país. A dinâmica do sistema econômico pós-abolição alimentou-se dessa hierarquia: por meio de mecanismos mais ou menos explícitos de discriminação, reservou-se à mulher negra papéis subordinados no mercado de trabalho. Ao mesmo tempo, consolidou-se o mito da democracia racial, escamoteando os sujeitos da exploração contra estas mulheres e os prejuízos materiais e simbólicos sofridos por elas. A condição permanece atual, de modo que apesar de avanços conceituais³ e materiais recentes⁴, pessoas brancas continuam sendo percebidas como superiores e mulheres negras como diferentes e inferiores. 

Papéis sociais e imagens de controle 

Tal diferença ou inferioridade não ocorre no vazio. Ela se dá a partir do entendimento de que mulheres negras são inferiores em relação a outros grupos sociais por conta da cor da pele. Quando você escuta que se “parece com a Globeleza” ou que alguém foi criado por uma “mãe-preta”, não se trata de elogio, mas de uma restrição a que papel uma mulher negra pode ocupar. Exatamente por isso é que intelectuais como Lélia González e Patricia Hill Collins escreveram sobre o assunto, refletindo sobre as condições das mulheres negras no Brasil e nos Estados Unidos. Apesar da teorização de Collins ter outra base social de referência, junto com González ela nos ajuda a entender que interdições acometem esse grupo no mercado de trabalho e, em escala mais ampla, os controles sociais sobre suas trajetórias de vida.

Autora Papel Social Descrição
Lélia González Mulata “Produto de exportação”. Designa a exploração sexual da mulher negra humilde, considerada bonita, por turistas e burgueses, articulada à comercialização folclorizada da cultura negra brasileira, em particular das escolas de samba.
Doméstica O termo abrange a atuação da mulher negra na prestação de serviços de baixa remuneração: empregada doméstica, merendeira escolar, “servente” em supermercados e hospitais, etc.
Mãe-preta Exerce a função materna para as crianças brancas. “Exemplo extraordinário de amor e dedicação”, representa a negra acomodada que aceitou a escravização passivamente 

Fonte: González, 2020a⁵, 2020b⁶, 2020c⁷

Autora Imagem de controle Descrição
Patrícia Hill Collins Mammy Mulher negra assexuada, vocacionada ao trabalho físico, querida e com autoridade na família branca, mas que conhece seu lugar. Justificar o confinamento das mulheres negras ao trabalho doméstico e oculta sua exploração por famílias brancas. Equivalente à Mãe-preta.
Matriarca Mãe má, negligente. Trabalhando fora, não cria seus filhos, contribuindo para seu fracasso. Justifica a pobreza nas famílias negras e culpa as mães, tirando as políticas sociais e econômicas de perspectiva. Dissimula a relação entre o crescimento da chefia feminina nas famílias negras e o encarceramento em massa dos homens negros.
Mãe dependente do Estado Trabalhadora que faz uso dos benefícios sociais. Por isso, é vista como acomodada, que foge do trabalho e transmite esses valores aos filhos. Estigmatiza a “mãe solteira”, responsabilizando-a pela sua pobreza e de sua comunidade. Essa imagem de controle esconde as causas estruturais da pobreza da população negra e desqualifica a fecundidade de mulheres negras. Depois, evolui para a imagem da “rainha da assistência social”, que “casada com o Estado”, vive do dinheiro suado de cidadãos que trabalham e pagam impostos.
Dama Negra Mulher negra qualificada que se vale das ações afirmativas para assumir vagas de emprego que deveriam se destinar a pessoas mais merecedoras, notadamente homens brancos. Beneficiárias do “racismo reverso”.
Jezebel Mulher negra de comportamento sexual “desviante”. É vista como sexualmente agressiva.

Fonte: Collins, 2019⁸

São esses papéis sociais e imagens de controle que autorizam, por exemplo, que “patrões” reclamem que mulheres negras não querem ser mais domésticas porque recebem Bolsa-Família (o “correto” mesmo seria aceitar um salário miserável). Ou que informam às pessoas brancas que é “justo” reclamarem de “racismo reverso” quando são lançadas ações afirmativas antirracistas. Ou ainda, que informam aos colegas de trabalho “confundirem” empatia de mulheres negras com disponibilidade sexual.

Ações discriminatórias

Mas como a discriminação se concretiza no mercado de trabalho? Como as mulheres negras saem perdendo em ocupações, rendimentos e saúde mental? 

Em primeiro lugar, com a reserva social de ocupações subordinadas. De acordo com dados anuais da PNADC 2019 – pré-pandemia, portanto – as mulheres negras  somam cerca de 40 milhões e 600 mil pessoas. Dessas, pouco mais de 15 milhões e 500 mil estão fora da força de trabalho; e pouco mais de 4 milhões, não possuem ocupação. Em outros termos, somente a metade está no mercado de trabalho. 

Das que trabalham, mais de 3 milhões e 600 mil estão no trabalho doméstico e cerca de 5 milhões e 700 mil no setor informal. A maioria recebe até dois salários-mínimos, isto é, valores abaixo de R$ 2.090,00. Também dentre as que trabalham, apenas 5 milhões de mulheres possuem ensino superior.

Em segundo lugar, com ações discriminatórias específicas. Abaixo, listamos estratégias discriminatórias baseadas no gênero que podem ser utilizadas por homens, em particular, para desestabilizar as mulheres negras que estão no mercado de trabalho.

Estratégia Descrição
Interrupção frequente Homem sempre interrompe a mulher e ela não consegue concluir seu raciocínio.
Apropriação Homem se apropria da ideia da mulher, especialmente quando é difícil rastrear seu surgimento. 
Infantilização Ataque à capacidade intelectual da mulher, por meio da explicação de situações óbvias ou de assuntos que a mulher tem domínio em tom professoral.
Manipulação Violência psicológica, visando atacar a autoconfiança e a autoestima da mulher. Ex: “Você está louca, não foi nada disso”.

Fonte: Liguori, 2017, com adaptações aos termos em inglês⁹.

Também adiciono a essas estratégias a “apropriação funcional”, isto é, quando um homem subordinado hierarquicamente tenta se apropriar da função da chefe lhe “atravessando”, fornecendo informações erradas ou incompletas para dificultar sua tomada de decisão.

Na articulação entre gênero e raça, os agentes discriminadores – neste caso, homens e mulheres brancos – podem utilizar outro conjunto de recursos. Grada Kilomba nos ajuda a pensar a respeito. 

Política Descrição
Espacial “De onde você é?” Travestida de curiosidade, serve à deslegitimação do lugar que a mulher ocupa, dando a ela a sensação de que ela não deveria estar ali. O que se espera é que a mulher exponha sua trajetória de vida, a partir de um território subordinado, e então justifique sua presença singular no espaço branco.
Do cabelo “Que cabelo macio!” “Como você lava seu cabelo [afro]?” Disfarçada de admiração e interesse, a primeira ação autoriza a violação do corpo da mulher negra, pelo toque sem licença. A segunda revela uma associação entre negritude, sujeira e selvageria, retomando a visão de que o cabelo de origem africana só é aceitável se alisado.
Sexuais Sedução da mulher negra – “Vênus” – por meio do racismo direto ao homem negro, fazendo-a se sentir mal em relação à sua coletividade; ou confinamento da mulher negra à função de servente maternal da família branca – só é aceita se for assim.
Da pele “Para mim você não é negra”: expressa a dificuldade de pessoas brancas em acolher a negritude de modo positivo. Hierarquização de negras de pele mais clara em relação às negras de pele mais escura: valorização da “mulata”.

Fonte: KILOMBA, 2019¹⁰.

Há, ainda, o que podemos chamar de política do racismo recreativo, em que representações supostamente engraçadas de mulheres negras – piadas – são reproduzidas por pessoas brancas porque são consideradas formas aceitáveis de racismo (Moreira, 2019)¹¹

Do ponto de vista da mulher negra, isso pode resultar em condições como a segregação no espaço de trabalho (a negra única em função de prestígio ou negras reunidas em funções de serviço) e busca exagerada por performance (responsabilidade pela perfeição da raça, redundando numa “negra forte e autosuficiente” que sofre calada).

Essas formulações nos ajudam a identificar as pressões que as mulheres negras sofrem: 

  • para se sentirem inadequadas ou não-merecedoras de determinado trabalho e então, sabotá-lo ou abandoná-lo; 
  • acerca do questionamento constante sobre uma história individual de superação da pobreza, de militância ou de qualidade do trabalho (especialmente para beneficiárias de ações antirracistas, o dito “eu sei porque você está aqui”);
  • para “disciplinarem” o cabelo e o corpo, buscando alcançar “boa-aparência” e ao mesmo tempo, desvencilharem-se de investidas sexuais;
  • para executarem tarefas de cuidado e serviço, mesmo sem responsabilidade associada à função (como servir água, organizar uma reunião e fazer sua ata, receber convidados); 
  • para se dissociarem da própria cor e de suas referências culturais e religiosas de matriz africana no processo de ascensão profissional;
  • quanto à punição exagerada do erro individual ou na punição individual pelo desempenho da equipe, mesmo sem as comandarem;
  • ao confrontarem o humor racista de pessoas brancas, ao mesmo tempo em que são consideradas sensíveis e exageradas por colegas e chefes quando se indignam diante da magnitude da ofensa recebida.

 

Instituições e políticas públicas

Ações discriminatórias baseadas nos aspectos acima só permanecem vivas porque instituições – empresas, organizações sociais, órgãos públicos, famílias, etc. – e mesmo políticas públicas permitem que elas tenham continuidade seja reforçando-as, seja não fazendo nada a respeito. Como já nos demonstrou Cida Bento¹², há critérios raciais implícitos no processo de recrutamento e seleção. No geral, quando as mulheres negras conseguem furar a bolha e integrar o mercado de trabalho, não são selecionadas para atividades que envolvam representação (porque não possuem “boa aparência”); e são bloqueadas ou encarregadas com reservas para cargos que possuem atividades de comando, planejamento, manejo de equipamentos sofisticados e controle de recursos. 

Para a interdição das vagas, a explicação dada às negras é “a vaga já foi preenchida”, “encontramos uma candidata mais adequada ao exercício do trabalho”. Já quanto ao sentido, sem qualquer novidade, isso sustenta-se: 

[…] na resistência do branco em aceitar alguém socialmente considerada como subordinada ocupando o comando com outros brancos. A hierarquia social baseada na raça e igualmente no gênero estabelece que a uma posição inferior na relação ampla entre brancos/negros homem/mulher deve corresponder uma posição inferior no trabalho onde o lugar de uma jamais seja ocupado pelo outro (Bento, 1995, p. 484).

Por fim, como também nos pontua Bento (idem), em situações de conflito racial aberto no mercado de trabalho, pessoas brancas utilizam a negritude e todas as suas variantes como ofensa direta; e demitem a pessoa negra para que aquele se resolva.

“Cumé que fica?” – ou rotas de saída

Não há imobilismo nesse estado de coisas. É por obra do movimento negro que hoje existem ações afirmativas antirracistas nas universidades, no serviço público e nas maiores empresas brasileiras e multinacionais. O conhecimento acima sistematizado, produzido por intelectuais de diferentes matrizes, pode inclusive ajudar em intervenções, visando reduzir os vieses raciais na formação, desenvolvimento, contratação e promoção de mulheres negras.

Do ponto de vista individual, as saídas possíveis para as mulheres negras são “tornar-se negra”, apoderando-se desse conhecimento produzido para transformar as armadilhas encontradas no caminho. Para as pessoas brancas, a saída é: também assimile esse conhecimento e não se imobilize quando detectar seus privilégios. Aja pela transformação, em diálogo constante com organizações negras.

Do ponto de vista coletivo, qualquer que seja sua cor, construa uma rede de profissionais antirracistas, que seja capaz de realizar ações concretas em favor das mulheres negras no mercado de trabalho. Institucionalmente, se engaje, apoie e instigue a renovação da gestão de pessoas, combatendo a ausência de mulheres negras em todos os escalões do seu espaço de trabalho. Pesquise, sugira e dê suporte à institucionalização de comitês pela equidade de gênero e raça, que têm avançado cada vez mais nas empresas, especialmente as maiores – as quais têm poder de influenciar suas cadeias de subcontratação com as medidas adotadas. Dê sugestões, impulsione e divulgue bolsas de estudo, premiações e contratações voltadas para mulheres negras feitas por empresas, organizações sociais, associações e governos.

Socialmente, engaje-se no controle social da agenda pública de correção das desigualdades raciais, já fixadas nas leis de ação afirmativa nas universidades, institutos federais e do serviço público do governo federal e de diferentes unidades federativas; acompanhe a implementação da lei de ensino de história e cultura afrobrasileira nas instituições de ensino que seus familiares frequentam; incorpore a visão crítica elaborada pelo movimento negro quanto à segurança pública e encarceramento, bem como seus impactos objetivos na vida de mulheres e famílias negras; e exija políticas públicas que tenham as mulheres negras, pobres e faveladas como eixo central de intervenção¹³. São ações que, interconectadas, têm o potencial de produzir mudanças substantivas para a geração que já está no mercado de trabalho, bem como para a geração que ainda entrará, ambas fortemente afetadas pelas demissões e pelos soluços da educação pública e da seguridade social ocorridos na pandemia.

Resistências existirão, afinal, “quando a mulher negra se movimenta, toda a estrutura da sociedade se movimenta com ela”¹⁴. Mas como mostramos, as armas capazes de enfrentá-las já estão disponíveis. Parafraseando Marielle Franco, as mulheres negras mobilizam múltiplas inteligências para fazer frente a ausência de direitos, lançando mão da solidariedade e da criatividade para concretizar conquistas próprias que beneficiam toda a coletividade. Contrariando o caminho da desesperança, reverberamos nossa potência e generosidade por todos os cantos, como flores que rompem asfaltos.

 


¹ United Nations Human Rights Fellow of African Descent, Mestre em Desenvolvimento Econômico, com concentração em Economia Social e do Trabalho (Unicamp), Especialista em Planejamento e Orçamento (Enap), Bacharel em Administração (UFBA). Agradeço à Cecília Bizerra pelos comentários que permitiram o aperfeiçoamento do texto.
² https://www.geledes.org.br/a-mulher-negra-no-mercado-de-trabalho-por-beatriz-nascimento/?gclid=CjwKCAiAmrOBBhA0EiwArn3mfJrvkB89vNo5MCTUILEf1yF5Ch0o2x8uy8blDVS75mxth1npxo0DdhoC-MYQAvD_BwE
³ Como os conceitos de racismo institucional e estrutural, por exemplo.
⁴ Como os programas de suporte às mulheres negras, a exemplo do Programa Marielle Franco do Fundo Baobá, do qual faço parte; e do Prêmio Lélia González, realizado pela Associação Brasileira de Ciência Política, entre outros.
⁵ GONZÁLEZ, Lélia. Cultura, etnicidade e trabalho.: Efeitos linguísticos e políticos da exploração da mulher. In: RIOS, Flávia; LIMA, Márcia (Orgs). Por um feminismo afro-latino-americano: ensaios, intervenções e diálogos. Rio de Janeiro: Zahar, 2020, p. 25-44.
⁶ GONZÁLEZ, Lélia. A mulher negra na sociedade brasileira: Uma abordagem político-econômica. In: RIOS, Flávia; LIMA, Márcia (Orgs). Por um feminismo afro-latino-americano: ensaios, intervenções e diálogos. Rio de Janeiro: Zahar, 2020, p. 49-64
⁷  GONZÁLEZ, Lélia. Racismo e sexismo na cultura brasileira. In: RIOS, Flávia; LIMA, Márcia (Orgs). Por um feminismo afro-latino-americano: ensaios, intervenções e diálogos. Rio de Janeiro: Zahar, 2020, p.75-93.
⁸ COLLINS, Patricia Hill. Pensamento Feminista Negro: conhecimento, consciência e a política do empoderamento. São Paulo: Boitempo Editorial, 2019.
⁹https://www.geledes.org.br/o-machismo-tambem-mora-nos-detalhes/
₁₀ KILOMBA, Grada. Memórias da plantação: Episódios de racismo cotidiano. Rio de Janeiro: Cobogó, 2019.
¹¹ MOREIRA, Adilson. Racismo Recreativo. São Paulo: Sueli Carneiro/Pólen, 2019.
¹²https://www.geledes.org.br/wp-content/uploads/2011/10/16466-50750-1-PB.pdf

¹³ FRANCO, Marielle. A emergência da vida para superar o anestesiamento social frente à retirada de direitos: o momento pós-golpe pelo olhar de uma feminista, negra e favelada. In: BUENO, BURIGO, PINHEIRO-MACHADO, SOLANO (org). Tem saída? Ensaios críticos sobre o Brasil. Porto Alegre: Editora Zouk, 2017.

¹⁴ Angela Davis, em momentos variados.

Leia também: 

** ESTE ARTIGO É DE AUTORIA DE COLABORADORES OU ARTICULISTAS DO PORTAL GELEDÉS E NÃO REPRESENTA IDEIAS OU OPINIÕES DO VEÍCULO. PORTAL GELEDÉS OFERECE ESPAÇO PARA VOZES DIVERSAS DA ESFERA PÚBLICA, GARANTINDO ASSIM A PLURALIDADE DO DEBATE NA SOCIEDADE. 
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