segunda-feira, setembro 20, 2021
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O Rio de janeiro continua… segregacionista

O samba de Gilberto Gil, intitulado de “Aquele abraço” não tem o mesmo teor desse texto, e certamente não é para ter, dado a diferença dos propósitos. Na música, Gil conta sobre uma característica muito clara do povo carioca, mas eu faço ao leitor duas perguntas: Que característica é essa?  Que povo é esse? Bom, como isso aqui não é uma conversa direta, onde o agente expositor faz uma pergunta e o agente receptor responde, cabe a mim responder a minha própria pergunta. 

O Rio de Janeiro cantado por Gil, comunicativo e receptivo, é característico da classe popular da cidade. Aquela classe que não detém muitos privilégios e que enfrenta todos os dias a violação dos seus direitos mais básicos. Não digo aqui que outras classes não possam ser receptivas, mas destaco que o senso de comunidade precisou ser praticamente institucionalizado na classe popular. Com isso, percebo que personalidades comunicativas e receptivas são características moldadas desde muito cedo no chamado “povão”,  dada a necessidade de cooperação entre as pessoas de um determinado local para ultrapassar as barreiras impostas pelo segregacionismo estrutural da cidade do Rio de Janeiro. Por aqui, pais e mães, segregados pelo sistema, precisam acordar de madrugada , para encarar o trânsito e o longo trajeto para o trabalho, enquanto as crianças precisam conhecer desde cedo o motorista do ônibus que ela precisava pegar, assim como quem divide com elas o ponto de ônibus. Conhecendo as pessoas ali envolvidas no trajeto, chegar à escola torna-se uma vivência um pouco menos difícil.

Percebe-se que o segregacionismo na cidade do Rio é profundo, não à toa o chamei anteriormente de “estrutural”. Quando os não-brancos puderam trabalhar e serem pagos por isso,  foram impossibilitados de permanecer em espaços urbanos e usufruir de condições básicas de sobrevivência. À nós, restou a periferia. Com isso, posso afirmar que dignidade, respeito e direitos tinham cor, gênero e poder aquisitivo.O povo preto não podia ter terra, logo não tinha casa. Só ganhava boa remuneração quem tinha o privilégio de ter tempo para estudar, já que a comunidade preta tinha que trabalhar exaustivamente para sobreviver, então estudar ficava para depois. Poucos de nós puderam estudar e mesmo assim encararam as barreiras impostas pelo racismo. 

A realidade continua a mesma, porém com alguns retoques de modernidade. De fato, nos dias de hoje, a periferia pode estudar. Mas a estrutura faz com que essa opção promova os mesmos resultados de antigamente. Por mais que hoje o Estado forneça serviços a precariedade desestimula e obriga  a classe necessitada a ir buscar uma fonte exaustiva de dinheiro que dê a ela sobrevivência porque a necessidade é diária e não há tempo e base o suficiente para que essas pessoas possam ter a tranquilidade de investir no futuro. Essa é matriz do segregacionismo Carioca: A sistemática violência de impedir que a classe preta e pobre pense no futuro. 

Peço desculpas a Gil. O Rio de Janeiro pode até continuar lindo, mas ele também continua segregacionista, racista, machista e insustentável.

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