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Desesperança é ameaça à democracia, diz presidente da Fundação Ford

Darren Walker fala no 9º Congresso do GIFE sobre os desafios enfrentados por instituições sociais

por Vinícius de Oliveira, do Porvir 

Quem esperava uma palestra com números e gráficos projetados em um telão acabou participando de uma conversa mais humana sobre os caminhos da filantropia no mundo. Darren Walker, presidente da Fundação Ford (segunda maior entidade filantrópica dos Estados Unidos, atrás somente da Fundação Bill & Melinda Gates), contou à jornalista jornalista Laura Greenhalgh na conferência especial sobre filantropia e desigualdade do 9º Congresso do GIFE, fórum que reúne os grandes nomes do terceiro setor do país, como coordenar ações em diferentes países direcionadas à justiça social.

Nascido em 1959, em um “hospital para negros” no estado da Luisiana, no sul dos EUA, Walker fala abertamente de preconceitos e de como experiências pessoais o fizeram subir a “escada da mobilidade social” até se tornar professor universitário e comandar um orçamento que, só em 2015, chegou a US$ 580 milhões (R$ 2,08 bilhões). No cargo há quase três anos, Walker colocou o combate à desigualdade como eixo norteador das ações da fundação, pelo simples fato que pode ser sentida de maneira profunda em qualquer parte do mundo, seja no regime de castas na Índia, na discriminação de mulheres nas mais distintas culturas ou na população carcerária majoritariamente negra em países como os Estados Unidos e o Brasil.

A grande ameaça para a nossa democracia não é o [grupo terrorista] Estado Islâmico, é a desesperança

“Os que são marginalizados na economia também o são nos processos políticos. Tudo isso somado leva a uma grande perda de potencial humano. Com o passar do tempo, você acaba vendo um sentimento crescente de desesperança, porque as pessoas não acreditam que existam oportunidades verdadeiras”, disse Walker. Para o executivo, “a grande ameaça para a nossa democracia não é o [grupo terrorista] Estado Islâmico, é a desesperança”. Quando as pessoas perdem a capacidade de imaginar um mundo melhor, afirma, surgem as manifestações de raiva e de outras frustrações. Na visão de Walker, isso seria perceptível nos Estados Unidos quando se olha para aqueles que estão cada vez mais marginalizados ao verem que o mercado de trabalho não valoriza mais suas habilidades, o processo político demonstra favorecer o topo da pirâmide e a economia os tornou redundantes. Por isso, reitera, a desigualdade precisa ser tratada como tema central por organizações sociais.

Perguntado pela jornalista como uma instituição deve dividir sua atenção entre emergências relacionadas a temas como saúde pública e temas de longo prazo, como a falta de esperança, Walker coloca que o melhor a ser feito é não impor uma agenda aos parceiros executores. Em lugar disso, deve-se ouvir e tratar os problemas com humildade em uma conversa que leve em conta as prioridades para desenvolver o engajamento da sociedade civil. “Se você consegue isso, garante potencial para a transformação da sociedade. E com uma sociedade responsável, [é mantido] o pilar que suporta todas as coisas juntas quando desafios políticos e civis aparecem”.

Ainda falando sobre a realidade comum às fundações e mais precisamente aos investidores, Walker avalia ser necessária uma nova abordagem na relação com parceiros de projetos. “Acho que o desafio atual é que muitos de nós, investidores sociais, vemos os parceiros que recebem dinheiro como prestadores de serviço. Nós os contratamos para fazer nosso trabalho. Não é isso que entendemos por filantropia na Fundação Ford. Nosso papel é de dar voz a representantes de pessoas da sociedade que são desfavorecidas, apoiar suas instituições, liderança e ideias”, explica.

Para lidar com as complexidades do mundo atual, Walker diz ainda que as instituições precisam insistir no desenvolvimento de resiliência, visto que sociedades e democracias (aqui se referindo diretamente ao caso brasileiro) se mostram voláteis. “Se nos concentrarmos apenas nos nossos projetos, não estaremos capacitando a instituição. Você estará criando um produto, importante, mas não a capacidade da instituição de cumprir sua missão”, diz.

O presidente da Fundação Ford também defende uma nova forma de filantropia, que atualiza as ideias defendidas por nomes históricos do terceiro setor americano como Andrew Carnegie e John Rockefeller. Walker considera que hoje os sentimentos de preconceito e marginalização aparecem de forma sistemática e estruturante dentro de nossas sociedades e vão muito além do “estamos fazendo muito dinheiro e precisamos fazer com que ele chegue às pessoas com menos condições para manter as coisas mais calmas”, tal como defendia Carnegie no artigo “The Gospel of Wealth”, do final do século 19. “Hoje não acho que esse tipo de filosofia é suficiente. Precisamos nos envolver com os sistemas e estruturas, o que pode parecer pouco atraente, mas são os lugares onde estão os problemas e onde o poder, a política e a economia convergem”.

A solução, segundo Walker, demanda que se encare um dilema. O sistema que cria privilégios também coloca os privilegiados como responsáveis por mudar o sistema. Em seguida, enumerou uma série de perguntas que, ao final, resultaram em aplausos. “A questão é, como usamos esse privilégio? É para contrapor nossa vantagem? Para derrubar as estruturas que são feitas para reforçar nossos privilégios? Como podemos ter uma democracia onde a prosperidade é compartilhada e com mais pessoas vivendo com dignidade?”.

Perto de 18h30, a conversa estava perto do final quando Greenhalgh pediu que o executivo falasse de seu envolvimento com as artes. Walker se disse um apaixonado pelo assunto, antes mesmo de começar a encarar os primeiros degraus da escada social. Sua avó era doméstica e trazia roupas, brinquedos, livros e revistas da casa dos patrões. Para uma criança que não tinha acesso à cultura, as palavras tiveram um poder transformador. “Nunca pude ir a um museu ou ter a experiência de vivenciar as coisas que via ao virar as páginas, mas conseguia sair da minha vida diária e e viajar para outro mundo. Isso mexeu com a minha imaginação”, relembra.

Sim, pobres precisam de comida, mas também precisam de beleza e das mesmas coisas que eu e você. Eles precisam de alimento para a alma

“Não concordo com a ideia de que a arte seja para privilegiados ou um extra que vem depois que outras coisas sejam atendidas. Sim, pobres precisam de comida, mas também precisam de beleza e das mesmas coisas que eu e você. Eles precisam de alimento para a alma. Aqueles sírios que estão em campo de refugiados na Jordânia precisam desesperadamente desenvolver a capacidade de imaginar. Eu sou muito comprometido e apaixonado pela arte e esse é um motivo pelo qual mantemos os programas sobre o tema na Fundação Ford”.

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