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Devemos perdoar os bolsominions arrependidos?

Brasília, 19h. ouçamos a voz do Brasil.

Por  Lelê Teles para o Portal Geledés 

Lelê Teles (Reprodução/ Twitter)

comia uma kafta picante (kafka, segundo o coveiro da educação), no Beirute da Asa Norte, na companhia da amiga Lívia quando um sujeito adentrou o bar, andrajoso como um mendigo, e cumprimentou a moçada com o megafone.

“boa noite a todos… e Lula Livre”, saudou o pedinte de araque.

o pessoal respondeu com um uníssono Lula Livreeee, como se estivéssemos numa igreja.

percebi que havia, também, no staff do falso sem teto, dois camaradas empunhando, cada um, uma dessas câmeras digitais que gravam em 4K.

“me parece uma perfomance”, observou Livinha, levando uma caipirinha de mangaba à boca batomizada.

o pseudo mendigo seguiu com uma voz jocosa e megafônica: “pelo amor do que vocês acreditam, deem uma migalha do seu conhecimento para essa alma infeliz. como se sabe, todo dia a midiazona nos apresenta mais um bolsominion arrependido. pergunta – e eu pergunto como quem pede uma esmola – merecem perdão essas criaturas abomináveis?”

ruídos inarticulados partiram de todas as mesas. mas o infeliz colocou ordem no caos, dando o megafone nas mãos de Brigitte, uma conhecida atriz de teatro, e ela, megafônicamente:

“acho que merecem sim, chega de tanto ódio, as pessoas fazem cagadas e se arrependem, e esse país não pode continuar dividido ad eternum”.

disse isso e entregou o mega cônico ao ator, que o repassou para um sujeito de gravata frouxa na outra mesa e, este:

“eu sou ateu e não vou cair nessa conversa mole de oferecer a outra face. não dou minha cara a tapa pra ninguém. arrependidos é o cacete, todos os que manifestaram seu arrependimento até agora ou foram chutados pelo governo ou não foram chamados pelo governo.”

“sapientíssimas palavras”, eu disse pra minha companheira.

“olé, olê, olê, olá, Lulaaa, Lulaaa”, gritaram todos.

o megafone seguiu passando de mesa em mesa, a esmagadora maioria dos bêbados – artistas, intelectuais e guardadores de documentos em escaninhos – não absolvia os arrependidos.

parece que o bolsominion está condenado a carregar para o túmulo essa marca de um crime imprescritível e inabsolvível, como um Caim.

conversa vai, conversa vem, e o megafone chegou até nossa mesa.

eu ia gritar: “fodam-se todos esses traidores demofóbicos, homofóbicos, racistas e misóginos”, mas a Lívia foi mais ágil, pegou o megafone e magafou:

“sim e não. Lobão não merece perdão, pois vomita ódio desde que surgiu no mainstream. era aecista, pulou pro picadeiro do Bozo e foi voz ativa nas raves cívicas, sempre será um bosta reacionário e garganta”.

o que representava um miserável questionador meneava a cabeça como se concordasse com ela, e ela prosseguiu:

“Miguel Reale Jr, também é imperdoável, ele foi o mentor do crime político mais brutal já praticado contra as mulheres brasileiras ao articular o impeachment sem crime da presidenta.”

uma garota que fumava do lado de fora do bar gritou com uma pigarreante voz cheia de fumaça e álcool: “muito bem, companheira!”.

Lívia bebericou mais uma caipirinha para regar as palavras e prosseguiu: “é claro que há uma parcela da sociedade que é tão abjeta como Bolsonaro e que partilha com ele o mesmo ódio a tudo que amamos. esses não terão perdão nunca, serão sempre nossos inimigos e serão uma eterna ameaça ao país que sonhamos construir”.

“é isso aí, companheira”, berrou um bigodudo com a boca cheia de carne crua.

“mas temos que ir além disso”, Livia prosseguiu, “se o tiozão do churrasco, aquele cunhado metido a rico, o funcionário público que pede estado mínimo… se esses camaradas são igualmente imperdoáveis, pois são o que são e não deixarão de sê-lo, há outros que merecem, sim, nosso perdão. por isso eu disse sim e não.”

e passou o megafone ao pseudo pedinte. este perguntou pra geral: “alguém quer um aparte?”, e César, o garçom, interveio lá do balcão: “a moça deveria dizer quem é esse bolsominion ingênuo que merece ser perdoado”.

e o microfone volta às mãos da hippie fitness e ela arremata:

“Zuleide, a garota que me ajuda lá em casa. ela sente o quanto perdeu com o voto que deu, ela vê parentes e vizinhos desempregados e se arrepende. do mesmo jeito, tia Gorete, que nunca falou de política em toda a sua vida e, de uma hora pra outra, passou a ser antipetê e a repetir clichês midiáticos como se fosse um robô… todo mundo conhece uma Zuleide e uma Gorete. Zuleides e Goretes merecem, sim, o nosso perdão. pois elas não agiram com a razão, são vítimas de maquinosa manipulação…”

“agora a senhora falou bonito”, pontuou o garça que fez o aparte. Lívia finalizou:

“os bolsonaristas brazucas são uma minoria, mas são arriculados e têm método. é hora de voltarmos às ruas não apenas como uma multidão, mas como formiguinhas, repetindo a linda estratégia do café com bolo pra virar voto. conversar com essas Goretes e Zuleides, ouvir, falar, mostrar que um diálogo é possível e necessário, temos que reconquistar os corações e as mentes das pessoas que foram enganadas”.

aplausos e assobios, o mendigo rasgou as vestes, sacou um trompete e gritou “às ruas, cambada”, e partiu soprando o olê, olá.

palavra da salvação.


** Este artigo é de autoria de colaboradores ou articulistas do PORTAL GELEDÉS e não representa ideias ou opiniões do veículo. Portal Geledés oferece espaço para vozes diversas da esfera pública, garantindo assim a pluralidade do debate na sociedade.

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