Dica de Leitura: “Lugar de Fala”, de Djamila Ribeiro – Vozes Subalternas em Busca de Existência

22/01/26

O livro “Lugar de Fala”, de Djamila Ribeiro, lançado em 2017 como o primeiro volume da coleção Feminismos Plurais, surge como um manifesto urgente contra o silenciamento histórico imposto a mulheres negras em uma sociedade marcada por desigualdades raciais e de gênero. Nele, a autora, filósofa e militante, defende o conceito de “lugar de fala” não como privilégio identitário, mas como direito estrutural de grupos subalternizados a romperem com a autorização discursiva branca, masculina e heteronormativa, permitindo que vozes excluídas contribuam para novos projetos civilizatórios. Inspirada em pensadoras como Sojourner Truth, Lélia Gonzalez, bell hooks e Patricia Hill Collins, Ribeiro ilustra como o feminismo negro amplia horizontes ao interseccionar raça, gênero, classe e sexualidade, expondo opressões entrecruzadas que o feminismo hegemônico branco ignorou por séculos.​

Essa obra ressoa profundamente no Brasil contemporâneo, onde o racismo estrutural e o sexismo persistem em espaços de poder, como universidades, mídia e política, negando protagonismo a corpos negros femininos. Ribeiro argumenta que o “lugar de fala” emerge da militância coletiva, transformando experiências de marginalidade em resistência e reexistência, como exemplificado pela indignação de Sojourner Truth em 1851: “E não sou uma mulher? Olhem para meu braço!”. Ao citar Sueli Carneiro e Audre Lorde, a autora desmonta mitos da fragilidade feminina reservada às brancas, revelando como mulheres negras sempre trabalharam nas ruas, sem o luxo de “ganhar as ruas” como slogan feminista, pois isso define sua existência precária. Essa perspectiva decolonial não busca vitimismo, mas visibiliza como a ausência de epistemologias negras perpetua hierarquias violentas, impedindo uma cidadania plena.​

Contudo, o conceito de “lugar de fala” proposto por Ribeiro enfrenta críticas legítimas por seu viés reformista, que se limita a pleitear inclusão em instituições capitalistas e coloniais sem questionar suas bases profundas. Críticos apontam que a ênfase em narrativas identitárias elide contradições de classe e condições objetivas de exploração, reduzindo o racismo a uma questão moral passível de correção por “escuta” e quotas, em vez de revolução estrutural. Embora Ribeiro negue que o conceito silence outros ou ignore classe, sua aplicação prática muitas vezes gera disputas antagônicas, onde vozes não-negras são deslegitimadas em debates sobre negritude, fomentando uma lógica excludente disfarçada de empoderamento. Essa tensão revela um limite: o livro brilha na denúncia, mas peca ao não transcender o horizonte liberal, propondo nichos de visibilidade em vez de desmantelar o sistema que os nega.​

Em última análise, “Lugar de Fala” permanece essencial para compreender como discursos autorizados perpetuam apagamentos, convidando a uma reflexão coletiva sobre quem define a humanidade no Brasil. Sua força reside na afirmação de que falar não é mero ato verbal, mas garantia de existência política para os historicamente silenciados. No entanto, para avançar além do incômodo gerado em privilegiados, o feminismo negro precisa aliar-se a lutas anticapitalistas, evitando que o “lugar de fala” se torne outro instrumento de divisão em vez de transformação radical. Ribeiro acerta ao ampliar o feminismo, mas o debate exige mais: romper regimes discursivos exige, também, romper estruturas econômicas que os sustentam.

Compartilhar