E se fosse o inverso?

Noite de ontem. Eu já havia sintonizado a TV nos canais que transmitem ao vivo o movimento nos EUA, programação preferida, quando recebi mensagem de uma amiga. Vale dizer que nossas noites não têm sido noites quaisquer, né? Estamos no meio de uma pandemia, a orientação oficial dos órgãos de saúde preconiza o distanciamento social como principal estratégia para contenção de um vírus que para muitos se notabiliza por sua capacidade letal (de modo especial, para aqueles muitos de sempre) e o mundo lá fora bradando: vidas negras importam! A pandemia, afinal, tem se apresentado como um momento singular para a agudização de nossas mazelas sociais e para a exposição de nossos pactos quebradiços.

A mensagem que recebi me informava de um “incidente” envolvendo uma criança negra de 5 anos, que estava ali em Recife, sob os cuidados de uma patroa branca, no alto do quinto andar dum luxuoso condomínio, enquanto a mãe, mulher negra, deambulava pelos arredores com os cachorros da patroa, plena pandemia!, decerto cumprindo diligentemente mais uma de suas funções essenciais. Essa criança, desconfortável com a ausência momentânea da mãe, saiu do apartamento, foi impedida uma única vez por quem deveria lhe garantir cuidados, tomou sozinha o elevador, subiu até o nono andar e despencou de uma altura de 35 metros. A patroa foi presa em flagrante por homicídio culposo, onde não há intenção de matar, pagou fiança e responderá em liberdade. Ante a notícia, minha amiga me perguntava, triste, incrédula: “Lu, q q a gente vai fazer?”

A amiga e eu já vínhamos entoando a nossa falta de fé no mundo. Constantemente compartilhávamos a sensação de que nosso esmorecimento atual estava aniquilando nossas utopias, tão necessárias à produção inventiva da vida. Naquela troca de ontem, ela se assombrava com o fato de que, nos noticiários, o quadro estava sendo emoldurado como “acidente” e a madame, além de já andar solta por aí, estava gozando do privilégio de manter sua identidade branca preservada. Por sua vez, a carinha sorridente da criança negra segue sendo exposta e os gritos de sua mãe negra, em vídeos, seguem sendo ouvidos.

Ainda ontem, li diferentes postagens sobre o ocorrido (não sei ainda como nomeá-lo), a maioria delas afirmando a incontestável culpa dessa mulher e clamando por justiça, ou seja, a transformação da tipificação do crime em homicídio doloso, seguida da devida responsabilização penal.

Fora a convicção das perversões da branquitude que, dentre suas incontáveis atrocidades, insiste em manter profissionais trabalhando no decurso de uma pandemia (e eram pelo menos duas, já que também integrava a cena uma manicure essencial), eu fiquei me fazendo perguntas, buscando respostas que não teria e que possivelmente não terei.

Há quem afirme que a patroa apertou o nono andar para a criança subir. Há quem afirme, portanto, que esta seria uma prova contundente de que ela fez tudo intencionalmente. O que ressoa pra mim é: se fosse filho seu, ou sobrinho, ou qualquer criança sangue-azul-do-seu-sangue, teria apertado ela o nono? Teria ela, sem demora, se impacientado com a impaciência da criança? Ou exerceria a contento o cuidado que lhe havia sido confiado? Pergunto tudo isso sem saber mesmo as respostas, tentando não ceder ao impulso da indignação e da raiva.

Ao abrir os olhos hoje cedo e sentir de pronto o peso de um coração que parece ter tombado do nono andar, eu queria apenas que isso não tivesse acontecido. Sabe? Mágico assim, não aconteceu. Ou sei lá, se insistisse em acontecer, que tivesse sido algo resultante de um acidente de fato – acidente aqui definido como uma daquelas circunstâncias inelutáveis, que escapam a qualquer forma de controle humano.

Lidando com os impossíveis e com a teimosia dessa realidade crua que nos arranca pedaços dia sim dia sim, fui ver se encontrava palavras, em alguma reportagem ou postagem, que me aquietasse. Que me botasse pelo menos a refletir, de novo e de novo, sobre o contexto todo, as estruturas tão desiguais, a sordidez de nossa história. Algo que rememorasse os caminhos percorridos, salpicados de sal e sangue, e apontasse os caminhos a percorrer.

Não encontrei ainda essas palavras. Para além de evidenciar os nefastos efeitos do racismo, elas, no geral, terminam com reflexões que incitam a punição ou a violência como saída única. Recebi abaixo-assinado cobrando a imediata prisão da patroa, li até posts e mensagens protestando por seu linchamento público, sua morte lenta. Apesar de andar mesmo muito desacreditada do mundo e das gentes que o habitam, essa continua não sendo a minha aposta, e espero que nunca seja: a justiça como vingança.

Fora a perda irreparável de uma criança, mais uma criança negra, o que particularmente me salta aos olhos e me devasta é o pano de fundo dessa cena cheia de símbolos e significados, cheia de nós. Nós, no sentido dos entrelaçamentos e das alianças possíveis; nós, no sentido da formação de um povo nascido e criado na/da violência colonial, montagem que se atualiza a cada vez que um corpo negro tomba diante de um corpo branco neste país.

Sem respostas, eu só acumulo perguntas: e se fosse o inverso? A empregada negra exercendo a responsabilidade pela guarda de uma criança relutante em acatar sua primeira e única ordem, subindo sem supervisão a um nono andar para, minutos depois, se lançar ao ar sozinha, caindo de uma altura de 35 metros? E se fosse o filho branco da patroa branca naquele chão?

Minhas certezas instantâneas: a empregada não contaria com a salvaguarda de uma fiança. No centro de uma pandemia e esta mulher, ato culposo ou doloso, estaria trancafiada numa cela, sua identidade devassada, sua biografia arruinada, sua existência liquidada, seu horizonte lacrado.

Tem uma frase da Maria Lúcia da Silva que diz: “Para refletirmos sobre o efeito do racismo, teremos de falar de história, teremos de levar em conta que as condições históricas são o pano de fundo sobre o qual se desenvolve a história pessoal e coletiva de um indivíduo ou grupo étnico, aspectos que dão a estrutura, a base sobre a qual será o indivíduo acolhido ou não em seu processo de desenvolvimento.”

Acho que é disso que se trata. É sobre isso que precisamos pensar e falar. É isso que precisamos implodir.

Teria a empregada a audácia de assumir um risco dessa proporção? Se sim, sobre qual base seria ela julgada pelo crime cometido? Que estrutura é esta que tanto destoa da que ora acolhe a patroa? Que base é esta que desmorona ao receber o peso magro de uma criança negra, fazendo ruir com ela a sustentação necessária para que ela simplesmente permaneça viva?

E já que não podemos mudar nossa história indigna, que esforços temos feito hoje para não repeti-la?


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