segunda-feira, setembro 27, 2021
InícioÁfrica e sua diásporaPatrimônio CulturalE se o Brasil negro voltasse à África?

E se o Brasil negro voltasse à África?

Com direção de Lázaro Ramos, Namíbia, não!, em temporada no Teatro da Caixa Cultural, põe em foco uma ordem (absurda) do Governo brasileiro que determina que os descendentes de africanos voltem todos à África

O ano é 2016, mas o assunto não é esporte. Esqueça as Olimpíadas. Na peça de Aldri Anunciação, em cartaz até domingo no Teatro da Caixa Cultural, o tempo ali é de grande polêmica. Por determinação do Governo, todos os brasileiros descendentes de africanos teriam obrigatoriamente que regressar à África. Com direção do ator Lázaro Ramos, Namíbia, não! põe em cena esse debate com muito humor e rigor, aguçando reflexões sobre as relações contemporâneas do Brasil com o seu passado africano. Na entrevista a seguir, Lázaro expõe seus posicionamentos e conclui: “Toda discussão que ponha em evidência a relação Brasil-África eu acho importante. Acho fundamental a gente pensar sobre as nossas origens”.

 

O POVO – O que está em jogo nesse momento em que um ator consagrado como você assume o papel de diretor de um espetáculo?

Lázaro Ramos – Olha, eu já tinha tido algumas experiências como diretor, mas tudo em teatro infantil. Essa é a minha primeira direção para adultos, digamos assim. O engraçado é que nessa peça aconteceu algo muito particular. O Aldri Anunciação, autor do texto, que é meu amigo de muito tempo, me mostrou a dramaturgia e eu me identifiquei de cara. Mas não tive vontade nenhuma de fazer como ator e fui sincero com ele. Disse que via imagens muito fortes para aquele texto e que me interessava em dirigir. Então, essa experiência de direção não foi algo pensado, programado, foi algo natural e que me foi despertado pela própria peça. 

OP – E o processo que se seguiu foi todo assim, tão tranquilo?

Lázaro – Foi, sim. Eu estava rodeado de amigos. Estava voltando a trabalhar em Salvador, fazendo teatro novamente. Além do Aldri, que também está em cena como ator no espetáculo, tive a Ana Paula Bouzas como assistente de direção. Era uma festa. Agora, claro, nem tudo foi fácil, não. A montagem, por exemplo, nos obrigou a passar por um exercício doloroso de desapego. Do texto original para o texto que está em cena, fizemos um corte de nada menos que 26 páginas. Essa dificuldade, por maior que seja, é natural para quem está habituado com o teatro. Além disso, o espetáculo toca em questões que eu acredito muito como pessoa e como artista e isso acaba sendo o mais importante no correr do processo. 

OP – O que mais te encantou nesse episódio, a princípio absurdo, de o Governo brasileiro obrigar, de uma hora para outra, que os descendentes de africanos regressem à África?

Lázaro – A verdade. Eu não vejo esse fato que o espetáculo sugere como ficção. Para mim, isso tudo, por mais absurdo que pareça, pode, sim, acontecer. O espetáculo é absolutamente verdadeiro porque consegue mostrar um equilíbrio muito grande nessa discussão sobre identidade. Eu não acho que a identidade seja uma prisão. Por exemplo, entendo perfeitamente que tem uma África mítica que nos cega, uma África que também é estereotipada. Mas entendo também que é possível olhar para essa relação Brasil-África fora dessa questão da escravidão. Essa semana, vi uma frase no Facebook que concordo plenamente e acho que dialoga muito com esse espetáculo. Uma moça escreveu assim: “Eu não sou descendente de escravos, sou descendente de africanos escravizados”. Eu penso assim, mas esse é o meu jeito particular de pensar e viver minha identidade.

OP – O que o Lázaros Ramos faria se recebesse a ordem do Governo de deixar o Brasil e ir embora para a Namíbia?

Lázaro – Eu ia apanhar muito, viu. Ia apanhar porque não ia aceitar de forma alguma essa ordem do Ministério da Devolução. Eu sou brasileiro, amo isso tudo aqui, não sairia daqui de jeito nenhum!

OP – Uma coisa muito bacana do espetáculo é que esse debate é feito de forma muito leve. Falando, tentando imaginar essa situação, tudo pode parecer muito tenso, mas, no espetáculo, o humor se sobrepõe…

Lázaro – Exatamente. Esse foi o nosso maior desafio. Que humor trazer para essa cena? A gente não queria um espetáculo sisudo, mas também não queria um espetáculo cômico, em que o riso não promovesse nenhuma reflexão. Pelo contrário, a gente queria exatamente a reflexão. Uma coisa muito boa já veio com o texto. O Aldri não fez uma dramaturgia determinista, fechada. O fato de ser dois personagens com visão bem distintas em cena é muito interessante. Um que quer ficar no Brasil, outro que acha melhor reencontrar a África e ir mesmo para a Namíbia. Esse conflito, essa discordância, tem um potencial cômico muito rico.

OP – Que função você acha que esse tipo de debate cumpre?

Lázaro – Toda discussão que ponha em evidência a relação Brasil-África eu acho importante. Acho fundamental a gente pensar sobre as nossas origens. Mas essa leitura é muito minha. Eu sou negro, nasci em 1978, uma época de grande afirmação negra na Bahia. Eu nasci no ano de fundação do Ilê Aiyê, vivi num bairro de maioria negra, o Garcia… Fiz parte, durante muito tempo, de um grupo de teatro que tem na afirmação negra sua grande preocupação, o Bando de Teatro Olodum… Então, Namíbia, não!, de alguma forma, é a reafirmação de algo que venho dizendo não de agora, mas de toda a minha vida.

OP – Na TV, você está no ar na novela Lado a Lado também transitando por essas mesmas questões. Você diria que a televisão brasileira tem avançado nesse debate sobre a nossa negritude?

Lázaro – Eu acredito que nós negros ainda temos que enfrentar uma lacuna forte na direção e na dramaturgia… Faltam autores e diretores negros, com um olhar mais específico para essas questões todas. Mas vejo, sim, um avanço imenso no protagonismo. Eu estou falando com você depois de gravar cenas da Revolta da Chibata para uma novela das 18 horas! Isso é algo extraordinário! Claro, sempre é possível avançar, mas vejo com muita alegria o lugar do negro e das questões ligadas à negritude na televisão brasileira.

OP – Por fim, aproveitando que você mesmo identifica essa lacuna de diretores negros, queria saber dos seus planos de voltar a assumir esse papel.

Lázaro – Além de um desejo, a direção é um caminho natural que vejo na minha carreira. Eu quero muito dirigir teatro e não só teatro. Penso também em outras linguagens.

SERVIÇO

Namíbia, Não!

O quê: Peça de Aldri Anunciação com direção de Lázaro Ramos. 

Onde: Teatro da Caixa Cultural (Avenida Pessoa Anta, 287 – Praia de Iracema).

Quando: Hoje a amanhã, às 20h; e, no domingo, às 19h.

Quanto: R$ 20 (inteira) e R$ 10 (meia entrada)

Outras info.: (85) 3453 2770

RELATED ARTICLES