segunda-feira, agosto 8, 2022
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Educação e reflexões de uma professora na quarentena: feitos, jeitos, defeitos e efeitos

“Se a educação sozinha não transforma a sociedade,
sem ela tampouco a sociedade muda”. Paulo Freire

Devo dizer, a priori, que não pretendo aqui trazer dados oficiais sobre os efeitos da quarentena em qualquer perspectiva, mas dá minha opinião a partir das minhas percepções nos diálogos com as pessoas, nos acompanhamentos das famigeradas “lives”, na produção de “memes” e nos grupos de whatsapp, dentre outros.

Dito isto, quero tecer meus comentários a partir de algumas provocações que tem me incomodado nestes dias de quarentena, especialmente ao que concerne à educação básica, meu lugar de fala.

O que a educação tem com tudo isto? Quais os efeitos da quarentena na educação pública? Como estão nossos alunos? Como vãos os pais? O que a sociedade espera de nós? Como a sociedade ver a educação e os seus profissionais? Quem são os heróis? Quem vai consertar a sociedade depois de tudo? Como estão as escolas para quando for necessário o retorno? Como estamos nos preparando para o fenômeno “pós-pandemia”? Que currículo teremos? Que Projeto pedagógico estamos pensando? O que será de nós? O que farão de nós professores?

Desde que a Organização Mundial da Saúde – OMS declarou estarmos vivenciando uma pandemia, venho acompanhando diversos curtas com mensagens altruístas para o enfrentamento ao isolamento social e na maioria deles em algum ponto, a educação é citada para dizer que somos a esperança, mas em nenhum momento a nós são dados o título de heróis.

Em momento alguma há um gesto de carinho para conosco. Ninguém diz que seremos nós, os professores que vai ter a grandiosa missão de reorganizar a sociedade, a partir da sensibilidade que nos é própria, de “sermos psicólogos”, cuidadores, assistencialista e formadores, das gentes que retornarão ao espaço privilegiado do saber, do ser e do fazer. Porque os estudantes, não voltarão os mesmos, seus desejos são outros que não os mesmos que tinham até o dia da cisão forçada. Eles virão mais sensíveis, mais brutos, mais conectados, mas descrentes da escola, pois nela não há investimentos que de fato atenda seus anseios, suas reais necessidade.

Este imensurável desafio, é imposto a nós sem nenhuma preocupação com o nosso estado, seja emocional ou de preparo profissional que nos capacite para o incerto que está por vir.

Vamos aos feitos.

“Lives, “webnários”, “webconferências”, reuniões remotas. Neste novo tempo, estas iniciativas são valiosas, mas “a corda que muito estica uma hora quebra”. Todos os dias ouco “não aguento mais tantas lives!”, “Me perdi, tinha três agendada no mesmo horário,” ouvir ainda “ É muita live teórica, mas ideias para ser colocada em prática, nada!” É claro que diante do contexto, esta foi a saída encontrada para que nos mantivéssemos de alguma forma mantendo nossa identidade docente, nossos pertencimentos, mas necessitamos mais. Precisamos nos “desligar” e viver o “luto”, o silêncio, a quarentena.

Aulas remotas, entrega de kits pedagógicos, montagem de videoaula, rádio aula, aula show!. Nossa, como é importante tudo! Preciso dizer sem nenhuma preocupação em parecer prepotente, “Nós somos o máximo!” Ninguém faz o que fazemos. É muita criatividade dos professores para manter vivo a arte do aprender, do ensinar e do conhecer. Porém realço, na faculdade não aprendemos gestão cultural, artes cênicas, produção gráfica ou construir roteiro artísticos ou teatral. Nós estudamos educação! Sabemos mesmo é fazer plano de aula, projetos didáticos pedagógicos, discutir o currículo, encontrar caminhos para a aprendizagem. Portanto, é preciso enaltecer os professores que fazem estas coisas muitas vezes mirabolantes, mas não podemos exigir em hipóteses alguma que isto seja uma regra. Não há demérito para o que não conseguem. Fiquem paz. Eu não os condeno.

Há que se dizer, o caos trouxe muita produção intelectual. Professores têm construído materiais lúdicos com muita criatividade, as aulas remotas desabrocharam flores em terras de solo batido; os órgãos competentes têm demonstrado preocupação com os protocolos de segurança; nunca se acompanhou tanto os dispositivos e regulamentações legais. É um marco!

Dos feitos na educação durante a quarentena, porém, nada foi mais importante do que a aprovação do Fundeb Permanente, apesar da tentativa governamental em desarticular. A união de todos os profissionais de educação permitiu que saíssemos vitoriosos. Isto nos deixa um pouco mais esperançosos. É fato!

Dos jeitos:

Nesta pandemia, dentre tantas as lições, a maior estar no descortinar da realidade, especialmente a da educação. Este desvendar por vez é maquiado com os jeitos que nós, profissionais de educação, vamos dando ao longo da nossa docência. E não está sendo diferente agora. Antes dávamos jeitos na falta do lápis do aluno carente, no fardamento daquele menino que não pode comprar; dávamos jeitos nas fantasias para os eventos culturais. A festa para os pais, para as mães sempre conta com nossa contribuição financeira para podermos fazer bonitos.

Os jeitos agora tem a forma do contexto vivido. Continuamos a incrementar com o nosso bolso as atividades que enviamos as crianças; por causa das aulas remotas, muitos tiveram que aumentar sua internet, comprar um aparelho novo de celular para dá conta às exigências que os aplicativos requerem; isto sem deixar de dizer que nos “viramos” para dominar os desafios tecnológicos devido à ausência dos investimentos em tecnologias digitais de informação e comunicação e da não capacitação aos envolvidos no processo de aprendizagem.

E assim, sem os feitos, vamos nos acomodando e dando jeitos.

Dos defeitos:

Fico pensando, diante dos feitos e jeitos, há espaço para os defeitos? Pois bem, sim e como tem! Um deste está na inconveniente exigência para que nós cumpramos com atividade remotas com uso particular de nossa internet, nosso computador, nossa sala, nossa intimidade; em falando da intimidade, já fico apreensiva quando entro em sala de reunião, penso logo nas possibilidades de atos falhos a ser cometido por um dos participantes a qualquer momento; Nós somos profissionais e precisamos buscar este respeito. E ser avesso a esta ação nada tem a ver com insensibilidade. É busca por respeito.

Outro ponto a ressaltar está na enganosa percepção de que estamos democratizando o acesso ao conhecimento quando sabemos das profundas desigualdades educacionais que afetam um grande número de estudantes Brasil afora, sobretudo, os alunos que vivem nas periferias da cidade e no campo. Sendo estes últimos, os mais prejudicados;

Há defeito também no acompanhamento à saúde emocional dos professores. Outro dia me animei com a divulgação de uma live para tratar sobre o assunto. Me empolguei, mas logo frustrei-me. Pensei que obteria alguma ajuda para mim, ao contrário era mais uma explanação teórica sobre o tema. Para que serviria mesmo a teoria se o que eu precisava mesmo era ouvir algo que me tirasse as tristezas, inseguranças e medos que no momento me persegue?

Dentre todos os defeitos vejo a segregação de estudantes socialmente desfavorecidos dos bens culturais e sociais, etc. Há estudantes sendo drogados, agredidos sexualmente, fisicamente e emocionalmente dentro de suas casas. Há meninos e meninas passando fome; há crianças sem espaços para brincar e muitas delas estão ficando só em casa, pois mães “solo” têm de trabalhar.

Os efeitos:

Na verdade, ainda nos encontramos no epicentro da quarentena, o que temos de certo é a incerteza; isto terá efeitos ainda sem precedentes nas nossas vidas pessoais e profissionais. Tenho medo que o efeito “aula remota” vire rotina e o nosso lugar, já tão desvalorizada caia no descrédito, pois corremos o risco de que isto sirva de argumentos para quem defende a educação familiar e do fortalecimento da privatização da educação pública; haverá efeitos sobre os modos de ensinar e aprender e isto é sem volta.

Precisaremos muito mais do que dominar os conteúdos curriculares; haverá a educação pós-pandemia, e esta já está em formatação; caberá a nós, saber o que faremos com ela. Ou nos adequamos, ou pereceremos frente aos novos estudantes que sem ansiedade esperam por nós, novas plataformas, nova sociedade.

Os efeitos serão grandiosos ao tocante as subjetividades dos sujeitos; aos modos de compreender este fenômeno do nosso tempo; e teremos de nos posicionar ideologicamente, cientificamente e tecnicamente. Haverá a necessidade de nos refazer docentes.

Nunca a sociedade dependerá tanto educação como agora! E é nesta hora que ocuparemos nosso lugar de heróis desta nação. Não há heroísmo fora da educação. Se há bons profissionais de saúde que executam com primor o seu trabalho é porque tiveram bons professores que os ensinaram para além da técnica. Conheceram professores que fez do conhecimento a prática da liberdade e da não opressão.

Na volta ao ensino presencial, as experiências desse período de reclusão e da profunda ruptura aos modos de ensinar, servirá ao um novo tempo e acredito que apesar de todas as nossas reais fragilidades a educação será fortalecida, sem dúvida “Devagar iremos longe”.

Se uma “Andorinha só não faz verão”, o efeito parceria será estratégia indispensável. Vamos sim precisar nos apoiar uns nos outros e nos compreendermos classe. Que isto seja um compromisso entre nós.

Com estas perspicazes considerações, quero dizer que não pretendi responder a todas as questões que provoquei. Pois eu também busco por suas respostas.

Penso que é preciso repensar nossa trajetória histórica e dá a educação a importância que merece. Está mais do que provado que sem ela não haverá sociedade justa para todos e nem seremos capazes de reerguer o mundo depois de uma pandemia sem precedentes, que de alguma maneira afeta a todos.

Espero que o principal efeito desta quarentena na educação seja pela busca de uma humanidade mais responsável, solidária e que percebam o conhecimento como o único caminho capaz de nos colocar no eixo e evoluirmos como gente.

Para finalizar estas minhas reflexões destaco a importância da instituição escola para a efetiva transformação social. É no contexto de insegurança, desesperança, de vulnerabilidade social que a educação desponta como caminho para a mudança. Sem dúvida, não seremos nós que encontraremos a cura da Covid-19, mas teremos a belíssima função de refletir seus efeitos e auxiliar os estudantes para a vida em sociedade após longo período de excesso de (des)informação e isolamento social.

** Cledineia Carvalho Santos. Professora da Educação básica. Licenciada em Letras Vernáculas. Historiadora. Mestra em Cultura e Sociedade

 


** ESTE ARTIGO É DE AUTORIA DE COLABORADORES OU ARTICULISTAS DO PORTAL GELEDÉS E NÃO REPRESENTA IDEIAS OU OPINIÕES DO VEÍCULO. PORTAL GELEDÉS OFERECE ESPAÇO PARA VOZES DIVERSAS DA ESFERA PÚBLICA, GARANTINDO ASSIM A PLURALIDADE DO DEBATE NA SOCIEDADE. 
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