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“Ele não quer ela…”

Boa parte de setores da esquerda tem acompanhado com grande expectativa a indicação do PT baiano à prefeitura de Salvador.

Por Carla Liane N. dos Santos*, do Probus

Reprodução/Facebook

A estratégia de pulverizar candidaturas, sobretudo de mulheres negras, pode esconder a real pretensão do Partido dos Trabalhadores para esta cidade.

Os últimos burburinhos apontam para a escolha e a indicação da candidatura da Major Denice Santiago, mulher negra com importantes serviços prestados à população baiana, agente importante no combate ao feminicídio e à violência contra as mulheres.

A pergunta que não quer calar é: por que a escolha da major, se havia uma outra candidatura, com maior protagonismo e participação social, encabeçada por Vilma Reis, socióloga, militante histórica do movimento de mulheres negras, com uma destacada experiência como ouvidora geral do Estado? Por que não ela?

Será que se esperava mesmo a indicação de Vilma Reis em um partido em que o seu governador no Estado comemora gols guilhotinando as cabeças de jovens negros que rolam nos vales da morte, dia a dia nas periferias desta cidade?

Estamos falando de uma pré candidata, engajada na defesa dos direitos humanos, que com a cara e a coragem historicamente denunciou as múltiplas violências e os excessos perpetrados pelo modelo de segurança pública do Estado.

Como o representante político desse “modelo” apoiaria uma mulher negra, socióloga, militante-raiz, que produziu pesquisas denunciando os abusos de poder engendrados no bairro do Beiru e que sempre se posicionou ao lado dos condenados desta terra?

A candidatura de Vilma Reis desde sempre pautou centralidade na temática racial e suas interseccionalidades. Seria a primeira vez na história que as vozes de pretas e pretos ecoariam em um projeto de gestão de uma cidade que possui quase a totalidade da sua população composta por esse contingente. Com isso, teríamos uma candidatura popular, feminista e verdadeiramente afrocentrada.

Minimizar ou invisibilizar esse movimento faz parte da velha dinâmica do racismo e do patriarcalismo impregnada de forma estrutural na cultura política brasileira, alimentada pelo autoritarismo e pelo patrimonialismo, sobretudo em tempos de avanço neoliberal e neofascismo a serviço da financeirização e da mercadorização das relações sociais e da própria vida.

Nesse cenário, de forma amoral, os senhores brancos convidam os “nossos” para as suas “salas de estar”. Fazem-nos acreditar que ascenderam ao poder e no final do jantar depositam os ossos e os farelos nos seus pratos, com um sorriso nos lábios e com um tapinha nas costas, como um gesto de cordialidade e grande feito.

De modo particular, a lógica do patriarcado e do colonialismo utiliza as mulheres negras como propriedades descartáveis, viola suas dignidades, utilizando-as como objeto dos seus desejos mais nefastos. Apostam na armadilha autofágica das disputas por vaidades fúteis e no final ainda dizem que é coisa de mulher. É a lógica do: “Elas que lutem!” “Elas que se matem!”.

O que acontece nos bastidores da corrida eleitoral para a prefeitura de Salvador no campo da chamada “esquerda”, com candidaturas como as de Olívia Santana (PCdoB) e Fabya Reis (PT), militantes históricas dos movimentos sociais, reflete esta luta: o bom combate de mulheres negras bem intencionadas, que arregaçam as mangas e ousam enfrentar, denunciar e combater as múltiplas injustiças e as violações espelhadas no extermínio da nossa juventude, nos índices alarmantes de feminicídio, na LGBTfobia, na crueldade perpetrada contra as nossas populações de rua, na falta de direito à cidade, no gigante invisível da informalidade, no desemprego estrutural e suas conjugadas humilhações e denegações.

Contraditoriamente, o que estamos assistindo neste enredo protagonizado pelo Partido dos Trabalhadores nas eleições municipais em Salvador é a tática bastante perversa e machista, atípica para setores ditos progressistas, de nos tomar como objeto subjugado e manipulável, a serviço do jogo das identidades e das representações. Ou seja, neste jogo, “eles” dão as cartas, têm o poder da decisão final, ditam os rumos.

Vale dizer que uma vez reconhecida a indiscutível força do movimento “Agora é ela” protagonizado pela informalmente chamada “Bancada do Feijão” e pela força do movimento negro baiano, a cúpula do PT baiano utiliza a mofada estratégia de usar os nossos contra nós mesmos. Uma antiga estratégia para nos dividir, nos aniquilar e nos desviar das questões centrais que gritam no cotidiano soteropolitano. Como por exemplo, a absurda especulação imobiliária na cidade do carnaval-capital.

Diante do inexorável papel do feminismo negro na correlação de forças da política soteropolitana e até mesmo baiana, os senhores brancos no topo de suas “casas-grandes”, mais uma vez, lançam mão de toda e qualquer reengenharia política e negociação para nos acorrentar. Montam uma pesada artilharia para nos encurralar, difícil de transpor e combater, carregada de jogos de interesses e conciliações ocultas.

Há um refinado tom de perversidade no racismo e na dominação masculina, traduzida no componente da violência simbólica, nem sempre vista e/ou bem interpretada aos olhos do senso comum. Esse mecanismo é revestido por uma falsa legitimidade, por um sentimento de casamento perfeito, traduzido no ideal do “felizes para sempre”.

Nesse jogo de negociação e conflitos há uma arriscada armadilha lançada para nos confundir acerca do reconhecimento de quem são os nossos reais adversários.

Penso que em nome do destacado trabalho desenvolvido pela major Denice Santiago em prol do combate à violência contra as mulheres à frente da Ronda Maria da Penha, do indiscutível legado de Olívia Santana e de Fabya Reis, lideranças fundamentais no combate ao modelo patriarcal, os movimentos de mulheres da Bahia deveriam convocar as pré-candidatas a participarem de uma plenária geral das mulheres negras da Bahia com o objetivo de discutirmos coletivamente os anseios dos movimentos e a sua melhor representação para a disputa para a prefeitura.

A esquerda baiana como um todo, e nela o Partilho dos Trabalhadores, foi forjada no chão da construção coletiva e popular adotando o princípio dialético da autocrítica e da superação de suas contradições. Decisões e acordos de gabinetes não fazem parte desse repertório.

O povo negro de Salvador está tendo a oportunidade histórica de aquilombamento, podendo falar de igual para igual sobre as dores que nos atingem e começar a construção de um projeto de cidade que tenha nossa cor e a cara da nossa resistência.

Precisamos de uma candidatura feminina e feminista insubmissa, insurgente, corajosa, que saiba daquilo que é inegociável para nossa gente.

Mulheres pretas que conheçam a Salvador profunda, dispostas ao enfrentamento do racismo estrutural e de todas as violências a ele conjugadas que nos machucam, nos invisibilizam e nos subalternizam de forma perversa. Chegou a hora de colocarmos “os dedos nas feridas” abertas da política soteropolitana branca, autoritária, retroalimentada por sede de dominação, que sempre esteve nas mãos das poucas famílias poderosas que sempre negociaram as nossas cabeças. Não se enganem: essa gente, dona das heranças e riquezas da nossa cidade, não nos quer na sala de estar. Reforça as estruturas que nos colonizaram historicamente e sustenta os privilégios de uma minoria em detrimento da exploração e do extermínio do nosso povo. Não nos interessam acordos com essa lógica da necropolítica. Nossas vidas e dignidades são irredutíveis.

Nós negras e negros, educadores, pesquisadores e militantes temos o compromisso ético e político em não só apoiar, mas também contribuir na construção desse projeto político feminino, feminista e negro para nossa cidade. Vamos articular espaços de aquilombamentos.

Essa cadeia da desigualdade precisa ser interceptada em prol de um projeto político progressista e emancipador para esta cidade, que demova essa pirâmide que tem na base as mulheres pretas e pobres.

A lógica da capitania hereditária e das dinastias precisa de uma alternativa séria, responsável e factível. A via legítima é a escuta dos movimentos sociais. Sem a coletividade não há legitimidade. É junto com o povo que se decide a representante do melhor projeto de cidade.

Precisamos avançar com a força popular. Não é hora de desânimos, rupturas e nem recuos. Nenhum passo atrás.

Os poderosos poderão deter uma rosa, mas jamais deterão uma primavera negra soteropolitana.

“Agora é ela, agora somos nós.”

Salvador, 31 de janeiro de 2019.

 

Carla Liane N. dos Santos, Dra. em Ciências Sociais, Profa. Titular da UNEB

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