Em livro inédito no Brasil, Chimamanda faz leitor refletir sobre racismo velado

“Ele disse que queria muito conhecer a Nigéria e podia comprar passagens para vocês dois. Você não queria que ele pagasse para você visitar seu próprio país. Não queria que ele fosse à Nigéria, que a acrescentasse à lista de países que ele visitava para admirar-se com as vidas dos pobres que jamais poderiam admirar a vida dele.”

por Helô D’Angelo no Cult

É assim, com tom de provocação, que a escritora nigeriana Chimamanda Ngozi Adichie compõe os contos de No seu pescoço, que chega nesta terça (25) às livrarias brasileiras. O livro reúne doze pequenas histórias da autora do aclamado romance Americanah (2013), publicadas pela primeira vez em inglês em 2009, mas que só agora chegam ao Brasil em português.

Protagonizados por mulheres e homens nigerianos, os contos carregam questionamentos agudos sobre machismo, racismo e colonialismo que, no cotidiano, podem passar despercebidos pelos que não são vítimas dessas opressões.

Em cada conto, é como se o leitor ganhasse um par de olhos nigerianos, e pudesse refletir sobre os próprios preconceitos. Com essa estratégia, Chimamanda explica aos leitores homens como é sentir-se um objeto, aos brancos a sensação de ser vista como “exótica” e aos ocidentais o que significa ser simplesmente taxada de “africana” – como se não existisse diversidade naquele continente.

Em “No seu pescoço” (conto que dá nome ao livro), por exemplo, isso fica muito claro. Akunna é uma jovem universitária que sai da Nigéria e vai estudar nos Estados Unidos, onde se apaixona por um rapaz branco e rico, aparentemente livre de preconceitos.

Aos poucos, porém, ele dá demonstrações de racismo: interrompe Akunna em suas falas, não aceita suas opiniões e não compreende o abismo entre os dois – ele pode rejeitar, com folga uma visita ao Canadá paga pelos pais; ela sequer tem dinheiro para uma passagem de avião de volta para a Nigéria.

Em “Na segunda-feira da semana passada”, acompanhamos Kamara, uma jovem nigeriana que, mesmo tendo mestrado, é obrigada a trabalhar como babá para se sustentar em Nova York – e acaba se percebendo como um objeto sexual aos olhos da patroa, Tracy.

Em “Jumping Monkey Hill”, uma jovem escritora nigeriana vai participar de um workshop de autores africanos só para descobrir, da boca de um inglês “estudioso da cultura africana”, que nenhum dos convidados sabe o que é a “África de verdade”: “Eu sou senegalesa! Eu sou senegalesa!”, grita uma das convidadas do workshop ao ouvir o anfitrião inglês julgar sua literatura como “pouco africana”.

Sem caricatura

Chimamanda nasceu em Enugu, na Nigéria, em 1997. É filha de um professor de estatística da Universidade da Nigéria e de uma funcionária da mesma instituição. Estudou medicina e farmacologia e, aos 19 anos, foi morar nos Estados Unidos para cursar Comunicação e Ciência Política na Universidade Drexel, na Filadélfia. Depois, fez mestrado em arte africana em Yale.

Durante todo esse tempo, escreveu muito: começou com a coletânea de poemas Decisions (1997), a peça For Love of Biafra (1998) e o conto “You in America” (2002). Em 2003, publicou seu primeiro romance, Hibisco roxo, e o segundo, Meio sol amarelo, em 2006. Americanah só viria em 2013, mas antes disso ela já havia ganhado seis prêmios e indicada como uma das vinte pessoas com menos de 40 anos mais influentes da literatura de ficção pela The New Yorker.

Provavelmente por ter se cansado da imagem caricata da África desértica e faminta que povoa o imaginário de muitos estrangeiros, Chimamanda escreve constantemente sobre a política e a história da Nigéria, fazendo questão de mostrar a olhos forasteiros a enorme diversidade de nigerianos e nigerianas que habitam sua terra natal, as cortantes desigualdades sociais, os laços complexos que unem as pessoas e os costumes tradicionais misturados aos hábitos modernos.

Nos contos, narra a história da esposa de um jornalista do jornal antigovernista The New Nigerian que precisa fugir do país por ter falado mal do governo; a trajetória de um professor universitário de Nsukka que pensa ter perdido um amigo durante a guerra do Biafra, em 1967; e nos mostra a vida de uma mulher de um dos clãs que acabaram formando a Nigéria durante as invasões inglesas, no período colonial. Ela também faz questão de citar outros escritores africanos, como Dambudzo Marechera e Chinua Achebe.

Chimamanda, porém, não se coloca no papel de explicar os fatos históricos ou os acontecimentos políticos que narra, e muito menos se dispõe a apresentar os autores que cita. Ela já faz demais ao levar o leitor de fora pela mão enquanto expõe seus sentimentos sobre todos os preconceitos e as opressões que sente. Por isso, a literatura da autora acaba se tornando um convite para conhecer a realidade nigeriana – e quem tiver interesse, que acompanhe.

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