terça-feira, dezembro 6, 2022
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Em novo livro, ator e escritor Lázaro Ramos fala sobre a conexão do afeto

Ator e escritor fala da comunicação no universo adolescente em 'Você não é invisível'

Lázaro Ramos não sabia ao certo para quem estava escrevendo quando começou a narrar as peripécias de Carrinho em Você não é invisível. A filha Maria Antônia tinha cinco anos e ele lembra de entrar em uma loja de brinquedos para crianças e ficar um pouco surpreso com a setorização: “A loja tinha brinquedos relacionados ao cuidar para as meninas e os relacionados ao explorar para meninos.” Lázaro escreveu então uma crônica sobre a experiência, mas nunca fez nada com ela. E quando chegou a pandemia, em 2020, começou a escrever sobre o encontro de um menino com a irmã que esbarra na falta de comunicação. A história cresceu, Lázaro mostrou para a editora que o acompanhou na publicação de Na minha pele e pronto, a história virou o livro Você não é invisível.

Na narrativa, Carrinho, apelido do adolescente Carlos, e Vitória são irmãos, moram com o pai e têm pouco contato com a mãe, que os deixou para sair em busca dos próprios sonhos. “Carrinho e Vitória foram criando a história pra mim, eu não tinha muito controle. Comecei a procurar coisas que gostaria de ter ouvido na minha juventude, eu queria ter ouvido assim ‘você não é invisível’, ‘você não precisa ficar sozinho nas suas angústias’, ‘você pode exercitar sua liberdade e descobrir os seus limites”’, conta Lázaro. A história se passa no momento em que a pandemia exige isolamento total. Os irmãos precisam, então, encontrar formas de se comunicar com o mundo e de ter uma vida social por meio dos recursos oferecidos pela tecnologia.

Carrinho faz lives, participa de grupos e burla as regras ao ler um diário da irmã. Enfrenta a solidão própria da pandemia e também da adolescência, embora esteja o tempo inteiro em contato com muitos outros jovens. É um típico adolescente do século 21, uma condição que Lázaro observa com cuidado e curiosidade. “O livro tem uma intenção que é falar sobre a qualidade da comunicação e que é importante resgatar a comunicação mais próxima, do olho no olho, do afeto, do toque, das conversas simples, próximas tomando um pote de sorvete. Mas, como é um processo que os jovens vivem, têm prazer, tento falar sobre isso abordando o equilíbrio e tentando estimular ao melhor uso dessas comunicações variadas que existem.”

Nada é à toa em Você não é invisível. Se Lázaro explora os vários modelos de comunicação tanto na esfera gráfica quanto na linguagem, ele também se preocupa em manter um ritmo de narrativa muito próprio do universo adolescente. “A trajetória do personagem é essa: como usar esse modelo de comunicação de forma positiva, rica”, explica. “A intenção do livro é abrir esse leque de possibilidades. É possível se comunicar através das redes sociais, através de lives, de gravações, mas a escrita é um bom lugar de comunicação também.” Lázaro sugere aos jovens leitores que experimentem mandar uma carta mais longa falando das próprias sensações e vivências. Ou ainda, que tentem aprimorar os meios já existentes, porque mesmo na tecnologia há várias possibilidades. “Parece que, às vezes, isso nos afasta ao invés de nos aproximar”, lamenta.

Entrevista /Lázaro Ramos

A solidão, mesmo estando conectado com o mundo, é um dos temas do livro. Essa sensação pode ser especialmente grande na adolescência. Como lidar com isso?

Acho que a intenção do livro é falar que é importante identificar esses momentos e não permanecer sozinho nas suas angústias. Hoje em dia dá pra gente procurar auxílio em todos os lugares, seja de pessoas próximas, afetuosas, e, às vezes, até projetos de rede de apoio em rede social , ou conversar com um adulto próximo em quem você confie. A mensagem é justamente essa, o título é Você não é invisível, mas talvez queria dizer “você não precisa ficar invisível, não precisa ficar sozinho”. Porque, na adolescência, a gente pensa que é sozinho, que as coisas só acontecem com a gente. O livro é assim, com contos, aventura, história e emoção. Meu desejo é esse, não me fixar em um estilo literário

Esse é seu primeiro livro para jovens. Você fez um para adultos, Na minha pele, e outros infantojuvenis. Por que escrever para adolescentes?

Não sabia que estava escrevendo para essa faixa de idade, descobri depois que comecei. Acabei fazendo um livro que é uma conexão entre meus livros infantis e infantojuvenis e Na minha pele, que é meu livro para adultos. É um livro que faz uma conexão de intencionalidade, de falar sobre a boa convivência coletiva, falar sobre a autoestima, a identidade, isso tudo perpassa minha obra literária e essa é exatamente essa conexão.

A ideia de ser quem ele quiser ser é importante para Carrinho, quase uma necessidade. Por que essa ideia está tão presente no livro?

São duas coisas que o livro tem: esse desejo de estimular a conhecer a história de seus antepassados, o livro fala muito sobre isso, mas ao mesmo tempo se apropriar da nossa história e escrevê-la. Isso, para um jovem negro, tem um sentido de um resgate de uma história que muitas vezes não é conhecida, muitas vezes a gente valoriza quem está distante e não presta atenção em um familiar que está bem próximo, que tem coisas que dirão muito para nossa construção, para nossa identidade. É sobre isso.

Por que optar por uma mãe ausente em Você não é invisível?

Essa mãe surgiu como desejo de fazer uma provocação porque, em geral, quando a gente conta essas histórias, e até na vida, o homem vai embora em busca de seus desejos e sonhos e alguns abandonam a família. Muitas mulheres ficam em casa e abrem mão dos seus desejos, isso é uma realidade. E o livro provoca outro raciocínio. Você vê como o menino reage a isso e como a menina reage a isso. No final, tem o brinde que é o que essa mãe oferece a eles como legado. É a última parte do livro e confesso que deu trabalho, eu queria que fosse muito sensorial e expressasse muito uma emoção e o desejo de falar dessa presença que ela mantém, mesmo estando distante. E mesmo indo em busca dos seus sonhos. É para a gente pensar nisso mesmo.

Qual vai ser, na sua opinião, a carga mais negativa que esse período de pandemia vai deixar na vida desses jovens? O isolamento ajudou a rever valores e propósitos?

Não faço a menor ideia, nem sei se nós repensamos valores e propósitos. No começo da pandemia se dizia muito que a gente teria um aprendizado, que voltaria para o interior, para valores mais simples, que a gente ia se conectar mais com a natureza, ia comer mais saudável, que ia se conectar mais com nossa família. Não sei nem se a gente aprendeu isso ou se criou um sobressalto. O sobressalto, eu vejo muito, é que alguns medos apareceram, algumas angústias apareceram e acho que a gente ainda não consegue calcular qual o legado da pandemia. Particularmente, com a convivência forçosa 24 horas com meus filhos e esposa, a gente se conhece muito mais e se conectou em alguns lugares após momentos de conflitos. Mas é uma experiência muito pessoal. Acho que a gente vai entender isso mais pra frente, porque ainda é muito recente. Inclusive, acho que a gente precisa ficar atento para esse movimento nos jovens, para que a gente esteja pronto para auxiliá-los em cima daquilo que vai surgir e que a gente não consegue calcular.

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