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Entre os atos, os fatos, e o ser social

Você não é livre, ainda que tenham lhe sujeitado esta ideia. Mas também não é um sujeito sem escolhas, é preciso falar. Quando você nasceu, já preexistia um mundo no qual você foi inserido, o que significa dizer que o modo como este mundo se comportava influenciou diretamente no modo como você se constituiu enquanto sujeito. Sei que o exercício de abstração às vezes é difícil, mas é sempre necessário. Assim, quando falo em um mundo que nos antecede, falo também de um mundo de ideias, de conceitos, de significações e de representações. Percebe? Você não é livre de todas as amarras sociais, mas, mediante a compreensão da sua realidade, pode fazer outras escolhas, novas escolhas – ou não.  Isso quando você ultrapassa o limite entre o ser e conhecer o processo que constitui esse ser. Em outras palavras, é preciso escolher entre a pílula azul e a vermelha.

Por Rafhael Peixoto, do Litera Tortura.

Quem sou eu neste mundo? Quem é você neste mundo? Um exercício constante de aproximações e distanciamentos, eu diria. Eu me pareço com aquele outro, logo, me aproximo. Eu não me reconheço naquele outro, logo, eu me distancio. É este tensionamento entre o que me é comum e o que me difere que permite que eu construa minha identidade. Novamente: eu me construo com e a partir da minha relação com o outro. A partir do momento em que nos identificamos com outros sujeitos, e percebemos proximidades e similaridades, passamos a constituir um grupo.

Vamos unir o pensamento até agora apresentado? Um sujeito nasce em um mundo já posto, um mundo que é também de ideias. E, neste mundo, ele constitui sua identidade. Mas, e é neste “mas” que moram as complicações, nos construímos ideias acerca daquilo e daqueles que nos cercam utilizando os referenciais dos nossos antepassados, atualizados ou reescritos sob uma nova forma – que às vezes não tem absolutamente nada de novo. Estas ideias ou representações que nos cercam, dadas através da linguagem, também são compartilhadas entre os sujeitos – é o que nos possibilita uma compreensão mínima para que possamos caminhar enquanto espécie. Eu falo cadeira, cada um de nós pensa em uma cadeira diferente, mas todos esses pensamentos possuem uma série de características que são imutáveis e que nos permite compreende-las como elemento uno. É isso que nos permite entender o outro e fazer com que o outro nos entenda minimamente.

Nós construímos as representações também utilizando como referencial aquilo que o mundo emprega como ideal a ser alcançado, aquilo que a nossa cultura estabelece como padrão. Afinal de contas, pensamos e nos colocamos no mundo tentando alcançar aquilo que é ser homem, aquilo que é ser branco, hétero, religioso, etc… Ou, compreendendo o outro polo, sendo o oposto daquele que não é homem, que não é branco, que não é hétero, que não é religioso – caindo aqui na armadilha da língua, que me faz constituir um mundo no masculino e que me faz referenciar o feminino por oposição, como “aquele que não é homem”. Em suma, identidades que buscam se firmar tendo como referencial um modelo majoritário. E que, neste intento, se faz auto excludente. Ou seja, se uma coisa é positiva, construímos uma ideia de que a coisa que se opõe é negativa ou menos valorizada, já que trabalhamos na lógica da bipolaridade. Neste sentido, nem todas as ideias e representações que construímos acerca do outro são positivas para as identidades e para os sujeitos. Para ser primeiro, eu faço do outro um segundo. E fazemos isso de forma intencional ou não, eis um ponto importante.

Agora, abordemos outra questão: somos sujeitos HISTÓRICOS sociais. Isso significa dizer que correspondemos ao mundo que existia antes de nós em larga medida, porque somos mais história do que os anos que temos de vida. Lembra da formação dos grupos por similaridades que falamos a pouco? Pois bem, todo grupo social possui uma história de afirmação ou negação dentro do meio cultural em que vivemos. Assim, você, enquanto sujeito, carrega a história desse grupo ao qual pertence. Essa simples percepção nos faz relativizar toda uma construção de pensamento acerca dos sujeitos, uma vez que os indivíduos possuem históricos diferenciados a partir dos olhares e grupos que o constituem. O passado se sobrepondo ao presente, como também dito anteriormente. É por isso que não faz sentido comparar um homem e uma mulher esperando que os sujeitos respondam da mesma forma ao tratamento dado ou uma mulher negra e uma mulher branca, ou ainda comparar uma criança branca e uma criança negra que seja posta em uma mesma situação, como as pessoas tem tentado argumentar em relação à fantasia do carnaval. Cada sujeito e grupo possui uma história que precisa ser levada em consideração.

Quando se constitui uma ideia acerca do sujeito pertencente a outro grupo, e a firmamos enquanto laço histórico-social, a sua desvinculação é extremamente complicada por diversos motivos. Dentre estes motivos, podemos destacar a ideia de que o acesso a essa mudança não é horizontal, nem instantâneo. A questão é que nós, seres humanos, não temos um software de atualização que permita que todos os sujeitos mudem as suas percepções individuais de forma simultânea. Muito menos estamos de acordo e compartilhamos as mesmas crenças acerca da vida e das relações nela estabelecidas. As ideias, por sua vez, tem um tempo diferenciado para a total mudança, passam de geração em geração em uma perspectiva extremamente cronológica. Também neste sentido, é preciso considerar que uma mudança social atinge inicialmente os grandes centros, e como uma onda, alcança as periferias – em um processo lento. Uma mudança nunca é total ou nunca atinge a totalidade dos sujeitos. Um exemplo claro disso é a internet: você vê um conteúdo que é amplamente conhecido e divulgado, mas um tempo depois aparece aquele seu amigo compartilhando o mesmo conteúdo como se fosse novo, porque ele até então não o conhecia. Percebe como uma mesma coisa tem um tempo de maturação para que seja difundida? Daqui a dois, vinte anos, ainda aparecerão pessoas que não conhecem essa mesma história. Ou ainda temos as páginas que mudam a forma de contar a piada, utilizando seus próprios símbolos e linguagem, mas que permanecem com a piada. Da mesma forma, as mudanças sociais de pensamento demoram a se propagar. É por isso que quando uma ação no tempo presente é realizada, ela não pode ser descontextualizada, nem desconsiderar o seu histórico.

É fato que se pudéssemos deixar de lado todo o discurso, todo o histórico e toda a história, teríamos uma situação nua, dada no presente, e como tal, isenta de compromisso com a interpretação que se firma ao longo do tempo. Mas este não é um cenário possível. Morgan Freeman, certa vez, disse que no momento em que se deixassem de debater questões raciais, elas deixariam de existir como questões raciais. E eu até concordaria com tal posicionamento, se não acordássemos no dia seguinte, sofrendo o impacto do dia anterior. Neste sentido, é preciso construir uma linha de pensamento que nos possibilite refletir a questão, tão importante quanto perceber em que se sustentam as argumentações, em grande parte deixadas de lado nos discursos proferidos.

Bem, toda esta reflexão inicial serve para chegarmos ao ápice do texto, e também sua conclusão, que se concentra na percepção que certas pessoas têm dos movimentos sociais e do posicionamento destes frente a atitudes que são vistas como racistas ou preconceituosas. Bem como, possibilitar novos olhares aos sujeitos que compreendem as atitudes mais como “o mundo está chato” ou “o mundo em que tudo é preconceito” do que pelo preconceito em que se apresentam nestas situações. Sendo preciso, neste sentido, pensar o ato presente como um movimento do tempo, e como os sujeitos e seus grupos se posicionaram ao longo da história até os dias atuais.

O Oscar 2016 – e porque não tantos outros anos – não possui atores negros, não porque eles não sejam capazes, mas porque se observado o histórico como elemento fundador, irá se perceber que os negros não tiveram espaço até poucos anos atrás em produções e que estes mesmo negros eram representados por sujeitos brancos. E que, ainda que tenha se aberto a possibilidade para que estes mesmos sujeitos atuem, a mentalidade de quem compõe o outro lado da força ainda corrobora um pensamento social que os impede de serem chamados para ocupar os papéis e consequentemente serem eleitos como melhores atores e atrizes. Lembra do processo estabelecido para difusão de uma mudança de pensamento? (pensamento este que não é unânime socialmente, principalmente após a imediata mudança de ordem social). Pois bem, ele ainda atua e segue sendo onda. A fala magnifica da atriz Viola Davis em seu discurso ao Emmy revela isso, afinal de contas, não se é possível premiar pessoas por papéis que nunca existiram. Da mesma forma que, quando o pai veste a fantasia de macaco no menino, ainda que não tenha tido uma intenção consciente do processo, e neste sentido, o julgamento não recai sobre a índole do sujeito – fruto de um meio social não refletido, ele resgata uma imagem que foi compartilhada em algum momento com um sem fim de pessoas que associa a imagem do sujeito negro ao macaco. E que, em consequência, ajuda na manutenção de um status quo, e na elaboração de um processo identitário que atravessa gerações e que reafirma o lugar ocupado pelos sujeitos e pelos grupos no meio social. É por isso também que não faz sentido pegar uma criança branca, coloca-la em condição semelhante, e esperar que as pessoas se manifestem, porque o passado do sujeito branco social não é o mesmo do sujeito negro. Ou ainda escutarmos que o cabelo de Ludmila parece Bombril em pleno 2016, quando já se imagina que é um passado esquecido, ou ainda, quando a apresentadora do tempo do jornal nacional, Maju, é alvo de piadas preconceituosas, ou ainda, ou ainda, ou ainda… Não é porque certas imagens e associações são construídas de forma mais abrandada, que elas deixam de conter elementos que sustentem um discurso social preconceituoso. E é neste ponto que as pessoas cometem o equivoco de não concordar com a ideia de que há preconceito: porque quanto mais sutis são os movimentos, mais camuflados aparecem e menos reconhecidos são.

Por fim, é preciso pensar que o mundo se constitui e constrói os sujeitos. Mas os sujeitos também se constituem e constroem o mundo. É nossa responsabilidade enquanto ser pensante, possibilitar a construção de novas identidades e de novas significações para o mundo, deslocando os sujeitos das identidades já cristalizadas – mediante a reflexão do processo e reconhecimento dos atos, fatos e do ser social no cotidiano. Somos responsáveis pelos sentidos que produzimos e pelas consequências deste sentido. Um sentido que é coletivo, e que não pode ser pensado individualmente, pois cairemos na armadilha de crer que o preconceito está inscrito no olhar do sujeito para a imagem, e não na imagem/mundo que se constitui frente ao sujeito. Cabe mais que o julgamento do outro em alguns casos, cabe pensar a medida utilizada para se compor as questões sociais, o que falta em larga medida.

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Em tempo: não é uma fórmula, é um movimento. Um movimento de perceber a constituição do mundo e nos implicarmos nesta construção: reforçando ou reconstruindo modelos que nos foram impostos.

Em tempo 2: é sempre possível que todo mundo apresente suas ideias e sintam-se a vontade para fazê-lo neste post também. Mas, antes de tudo, penso que as ideias devam ser construídas diante de argumentos plausíveis. Acima de tudo, elabore o pensamento que você propõe defender, tentando ir além do que você acredita. Busque perceber como se deu a construção deste argumento ou opinião e quais as consequências desta opinião para o todo.

É isso.

 

“Nada sei desse mar, nado sem saber, de seus peixes, suas perdas, de seu não respirar…” Como diz a canção de Kid Abelha, nada sei desta perda, mas na inconstância deste não saber, tento edificar-me através das palavras. Sei que é um exercício de consciência, e antes de tudo, de sentimento. Enquanto caminho entre as palavras, descubro a razão de ser humano. Gostou do que leu? Curta a página do meu blog pessoal no facebook (Um olhar sobre o tudo e o nada)

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