domingo, junho 26, 2022
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Escritora escreve carta a Machado de Assis sobre candidatura de Conceição Evaristo à ABL

Pedimos à Eliana Alves Cruz um texto sobre a candidatura de Conceição Evaristo a uma cadeira na Academia Brasileira de Letras (ABL) e a importância de ela se tornar uma imortal da instituição. Eliana escreveu uma carta a Machado de Assis, criador da academia, em que expõe os fatos. Leia abaixo:

Por Eliana Alves Cruz, do São Paulo Review

Foto: Pablo Saborido/CLAUDIA

Estimado Joaquim Maria Machado de Assis,

No momento em que escrevo esta missiva a Academia Brasileira de Letras está a menos de um mês de completar 121 anos. O tempo passou muito rápido, não é mesmo? A ABL foi inaugurada apenas nove anos depois da libertação dos escravizados, no dia 20 de julho de 1897, inspirada na instituição que lhe era análoga na França — que existe desde o século XVII — e teve a ti como primeiro presidente. Foi outro dia que estavas ali, discretamente posicionado na cena das comemorações da abolição da escravatura. Demoramos, mas o achamos na foto. Logo tu (me permita tratá-lo com esta intimidade, pois és figura de minha profunda estima e consideração desde os tempos em que a escola determinava que eu lesse o que escreveste quando eu era ainda muito jovem), caro Machado, um homem negro nascido no morro do Livramento. Se soubesses como andam as comunidades cariocas nos tempos de hoje… Nem te conto! Imagino vossas crônicas se vivesses neste futuro não sonhado, mas este é assunto para outra hora, pois agora quero dizer-lhe que relembrei esses fatos porque nesta segunda década do século XXI, ilustríssimo Joaquim, ainda contam-se nos dedos os que como tu são afro-brasileiros e ocuparam ou ocupam uma cadeira na Academia por ti tão amada.

Pois sim, Machado, pois não… No lugar iluminado em que certamente estás ouviste comentários sobre a escritora Conceição Evaristo. Uma senhora distintíssima. Professora, doutora em literatura, premiada e aclamada aqui e em terras estrangeiras. Não posso ler Olhos d’água sem que me emocione até às lágrimas em diversos trechos. Isso apenas para mencionar o texto mais famoso da autora mineira, ganhador de um dos principais prêmios literários do país. Imagino o que não terão dito dela Maria Firmina dos Reis, nossa primeira romancista negra, ou a brilhante Carolina Maria de Jesus nos chás que devem tomar por aí.

A boa notícia, querido Bruxo do Cosme Velho, é que o talento dela é tanto, mas tanto, que motivou uma campanha para que ocupe um lugar na tua ABL que, enquanto converso aqui contigo, já passa de 22.230 pessoas. Sim, sei que na tua época isso era uma multidão, visto que o Rio tinha por volta de 522 mil habitantes apenas, mas é muita gente ainda hoje. Nestes tempos em que as redes sociais e outros veículos parecem suplantar os livros no interesse da população. A nossa escritora atendeu ao apelo e se candidatou à cadeira 39, recentemente deixada por Nelson Pereira dos Santos para se juntar a vocês.

A notícia complicada é que, assim diz a imprensa, alguns dos teus pares na Academia enxergam isso como “pressão” ou “intimidação”. Que massada! Sabes o que mais, caro Assis? Concordo com eles. Sim, existe uma parcela muito grande da população brasileira — e me encontro nela — que não suporta não se ver nos principais espaços de poder de nossa sociedade. Existe uma multidão incrivelmente maior do que a população carioca dos vossos tempos que clama por ver reconhecido o talento e a capacidade dos seus. Somos 54% de uma população nacional que já passou dos 200 milhões. Eu te disse que era muita gente! Conto-te que, apesar dos números, o maior sucesso das principais instituições brasileiras neste meio milênio e dezoito anos é deixar-nos de fora de seu apertado círculo de mandatários ou com uma sub-representação de exceções que justificam a regra excludente.

Li o teu discurso de abertura da ABL, em julho de 1897. Não foi longo, mas preciso. Nele falas de tradição e de solidez, mas acenas para o futuro. Destaco uns trechos: “…a Academia nasce com a alma nova, naturalmente ambiciosa. (…) A Academia Francesa, pela qual esta se modelou, sobrevive aos acontecimentos de toda casta, às escolas literárias e às transformações civis. A vossa há de querer ter as mesmas feições de estabilidade e progresso”.

Pergunto-te, Machado: o que seria mais ousado e ambicioso do que ver a potência brasileira de múltiplas vozes verdadeiramente representada nos ocupantes da Academia? O que poderia dar mais solidez a tal instituição do que ter este enorme e plural povo em suas fileiras, finalmente fazendo jus àquele anseio de liberdade que o levou aos festejos da abolição? Tudo isso sem prejuízo à independência que lhe é tão cara, pois sabemos que a ABL é um instituição privada e tem a liberdade de decisões como um valor a ser preservado, mas se ela tem por fim o que está em seu estatuto, ou seja, “a cultura da língua e da literatura nacional”; se levam realmente a sério o que disseste em teu discurso aos novos membros — “… que vossa obra seja contada entre as sólidas e brilhantes páginas da nossa vida brasileira” — mais uma vez te pergunto: Como estamos de fora há tanto tempo dessas páginas como autores ou personagens protagonistas? O clamor vem daí, meu caro.

Outras questões me intrigam. Está bem que sabemos que, a exemplo da irmã mais velha da França e outras pelo mundo, embora leve “letras” no seu nome, não necessariamente um membro precisa ser escritor desde que seja notável em sua área de atuação. Tu sabes o que o Brasil tem passado nos últimos 120 anos. Tu sabes que a casa que fundaste junto a tantos brilhantes intelectuais sobreviveu aos golpes sofridos pela nação e as tentativas de usos os mais variados, mas não sem ceder aqui e acolá, concordas? Se assim não fosse, que cousa justificaria entre os imortais alguns nomes tão ligados a governos e outros poderes e menos às artes? E se assim é por que classificar como uma pressão negativa esta que faz a população agora?

Como vês, estou cheia de indagações, mas tenho uma certeza. Não queremos apenas figurar em foto nas paredes da casa imponente na Avenida Presidente Wilson, no centro do Rio de Janeiro das tuas memoráveis crônicas, contos e romances. Queremos ver nosso fazer literário também imortalizado nas “brilhantes páginas da nossa vida brasileira”, visto que a ABL funciona como um ambiente de trocas intelectuais, realizando conferências, publicações, editando o Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa e atuando como referência das letras nacionais para o planeta. Pergunte ao Lima Barreto, que deve andar por aí, o que significou para ele ter sido seguidamente preterido neste espaço. Muito lindas todas as homenagens feitas a ele recentemente, mas não teria sido justo, além de supimpa, o seu reconhecimento em vida?

Por fim digo que temos o maior orgulho de tê-lo como um gênio mundialmente reconhecido e comparável aos maiores da humanidade. Lamentamos que tenham tentado retirá-lo do nosso pertencimento com seguidas maquiagens de embranquecimento, nos retratos que nos chegam aqui no século XXI. Eu mesma guardo uma nota de dinheiro de umas três décadas atrás em que tua imagem mais parece a de qualquer barão do açúcar ou do café. Os abolicionistas Joaquim Nabuco e José do Patrocínio estavam junto contigo no grupo dos primeiros membros da Academia Brasileira de Letras, logo, a mim me parece uma loucura cansativa ainda estarmos falando de tais coisas a esta altura da vida nacional. No entanto, como não falar se tantos temos e tivemos e que lá mereciam estar? Martinho da Vila, Muniz Sodré, Salgado Maranhão, Nei Lopes… só para citar uns poucos.

Sigo tendo fé. Muito caminhamos, embora ainda falte bastante. Como disseste na obra prima Memórias póstumas de Brás Cubas: “A pior filosofia é a do choramingas que se deita à margem do rio para o fim de lastimar o curso incessante das águas”. Aos que se detêm à margem do rio sem perceber que já é tempo, digo que as águas nos trazem a força de nossa rica história e ao mesmo tempo elas nos conduzem à belíssima e relevante obra de Conceição Evaristo.

Caso possas inspirar algumas mentes desde o mundo dos ancestrais, humildemente te peço que o faça. Fico tentada a pedir que reveles aquele famoso segredo que há tanto tempo nos intriga, mas se resolveres por responder a esta singela mensagem, não me digas se Capitu traiu ou não o Bentinho. É uma delícia não saber.

Um forte abraço,

Eliana Alves Cruz

*

Eliana Alves Cruz, carioca, escritora e jornalista (colabora com o site The Intercept Brasil), pós-graduada em comunicação empresarial. Eleita conselheira municipal de cultura do Rio de Janeiro na linha de literatura. Vencedora do concurso de romances da Fundação Cultural Palmares/MINC 2015, com a história baseada na trajetória de sua família, desde a metade do século 19, na África, até nossos dias. Autora na coletânea Cadernos Negros 39 (poesias) e 40 (contos), do Quilombhoje literatura. Também está no livro Perdidas, histórias para crianças que não tem vez, da Imã Editorial. Acaba de lançar seu segundo romance: O crime do cais do Valongo (Editora Malê).

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