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Espelho das iabás

Espelho das iabás

A literatura de Conceição Evaristo como defesa e processo de autorreconhecimento da mulher negra

Por Bianca Santana Enviado para o Portal Geledes

Um dia, agora ela já sabia qual seria a sua ferramenta, a escrita. Um dia, ela haveria de narrar, de fazer soar, de soltar as vozes, os murmúrios, os silêncios, o grito abafado que existia, que era de cada um e de todos. Maria-Nova um dia escreveria a fala de seu povo.
Conceição Evaristo, em Becos da Memória

“Oiá descobriu sua beleza nos espelhos de Oxum”
Reginaldo Prandi, em Mitologia dos Orixás

Iabás, na tradição iorubá, são as orixás femininas. As mais conhecidas no Brasil são Iemanjá, Oxum, Oiá-Iansã, Nanã. Cada uma delas representa uma força da natureza; tem poderes, características e instrumentos próprios. Duas possuem espelhos: Oxum, senhora das águas doces, dona da vaidade, da fertilidade e do ouro, e Iemanjá, dos mares e oceanos, mãe dos orixás e dos homens, rege as emoções. O espelho permite contemplação, percepção e reconhecimento. E também proteção, defesa: pode refletir de volta raios indesejados.

Bianca, menina negra branqueada desde o nome, encontrou nos livros a possibilidade de descobrir mundos. Mas eles não eram espelhos. Por mais que os adorasse, sentia falta de ler histórias como as contadas por sua mãe, por sua avó e pela vizinhança do conjunto habitacional onde crescera. A conflituosa relação com as patroas, de afeto e solidariedade, mas também de humilhação e injustiça. A criatividade para alimentar as crianças quando não havia dinheiro para o pão. A água puxada do poço para lavar as roupas da freguesia e da família numerosa. As ervas caçadas no mato para curar e benzer. O desenraizamento por migrações e despejos. Narrativas que, detalhadas na oralidade, nada deviam para aquelas tão distantes lidas na escola e nos livros.

Só no último ano do ensino médio teve nas mãos um livro que registrava episódios próximos, familiares, semelhantes às histórias que viveu ou que ouviu tantas vezes no banco de concreto de frente para o campinho, ou da avó, enquanto esta bordava ponto-cruz. Arminda, professora de língua portuguesa, recomendou um livro que não estava no planejamento: “Quarto de Despejo, de Carolina Maria de Jesus. Tem na biblioteca, acho que você vai gostar”. Em um primeiro momento, detestou. Nem sempre é fácil olhar o espelho. E aquela tristeza toda era para estar em livro? Texto tão curto, violento, cada soco no estômago. Deve ter também se incomodado por ver em letras impressas, quase frias, os segredos que ouvira como sagrados.

Foram necessários ainda alguns anos para a Bianca jovem perceber a importância daquela leitura. Ao acessar a universidade e encontrar gente tão diferente dela, conheceu um cursinho popular do movimento negro, em que percebeu uma cumplicidade, naquele momento inexplicável. Com o convite de um professor para que escrevesse uma reflexão profunda sobre suas origens, colocou em palavras: “Quando me descobri negra”. As perguntas que apareciam de quando em quando desde a infância, mas logo iam embora, passaram a ser centrais: de onde veio minha família? Como foram as tantas resistências à escravidão? E os detalhes pós-abolição? Foi simplesmente: “Boa sorte, podem ir embora para a completa miséria”? O que foi feito para a reparação, a emancipação, a cura de tantos traumas? Por que meu cabelo sempre foi chamado de ruim? O que acontece com o meu corpo que sinto até tontura quando vejo meu cabelo solto com tanto volume? Por que em lugares pobres tanta gente se parece comigo e na universidade tão pouca? Quem já escreveu sobre isso tudo? O que posso ler? Descobri-me Oxum. Voltei à Carolina, cheguei aos textos teóricos de Sueli Carneiro e Jurema Werneck. Pelos Cadernos Negros li poesia e contos de Conceição Evaristo. Mas foi na prosa poética da autora que me encontrei no espelho. Especialmente em Maria-Nova, personagem de Becos da Memória, que tem tanto de Conceição, de Bianca e de mulheres negras que se reconhecem na leitura e na escrita.

Maria-Nova crescia. Olhava o pôr do sol. Maria-Nova lia. Às vezes, tinha uma aflição, ela chorava, angustiava-se tanto! Queria saber o que era a vida. Queria saber o que havia atrás, dentro, fora de cada barraco, de cada pessoa. Fechava o livro e saía. Torneira de baixo ou torneira de cima? Hoje estou para o sofrimento… Maria-Velha parece que adivinhava os desejos de Maria-Nova. E, quando a menina estava para sofrer, a tia tinha tristes histórias para rememorar. Contava com uma voz entrecortada de soluços. Soluços secos, sem lágrimas. Sabia-se que ela estava chorando pela voz rouca e pela boca amarga.
Conceição Evaristo, em Becos da Memória

Maria-Nova. Mas também Maria-Velha, Vó Rita, a Outra, Ditinha, Mãe Joana, Negra Tuína, Cidinha-Cidoca, Maria Cosme, Custódia. Tão diferentes entre si. Tantas possibilidades de ser mulher negra nas histórias que vamos adentrando e recuando ao percorrer os becos da favela que formam Becos da Memória. Sem falar nas 13 personagens de Insubmissas Lágrimas de Mulheres (2011), cada conto nomeado por uma delas – Aramides Florença, Natalina Soledad, Shirley Paixão… –, a cada narrativa, a complexidade, sem estereótipos reducionistas, de ser mulher negra.

Como escreveu o pesquisador Marcos Antônio Alexandre, no artigo “Vozes Diaspóricas e Suas Reverberações na Literatura Afro-Brasileira”: “por meio de uma tessitura de narrativas de mulheres, Conceição Evaristo legitima histórias de outras mulheres. Seus contos se tornam macrossignos que nos permitem rememorar histórias e vozes diaspóricas que têm urgência de se fazerem ouvidas”. Encontrar cada uma dessas vozes é uma possibilidade de encontrar-se a si mesma. Um dos poderes do espelho.

Cada cena, cada diálogo, cada reflexão dos contos e romances de Conceição Evaristo não são palavras matematicamente encaixadas com o objetivo principal de compor boa literatura. Elas encarnam uma dor poucas vezes verbalizada. Como se dessem corpo, consistente, a memórias difusas do que não se sabe ao certo se aconteceu. Ou não se sabia. Até que virasse palavra.

Maria-Nova, talvez, tivesse o banzo no peito. Saudades de um tempo, de um lugar, de uma vida que nunca vivera. Entretanto o que doía mesmo em Maria-Nova era ver que tudo se repetia, um pouco diferente, mas, no fundo, a miséria era a mesma. O seu povo, os oprimidos, os miseráveis; em todas as histórias, quase nunca eram os vencedores, e sim, quase sempre, os vencidos. A ferida dos do lado de cá sempre ardia, doía e sangrava muito.
Conceição Evaristo, em Becos da Memória

Como nos ensinou Sueli Carneiro, o projeto em curso no Brasil, desde a abolição, no mínimo, é de hegemonia branca. Ele opera pela exclusão e pela violência contra pessoas não brancas, especialmente negras e indígenas. A manifestação mais evidente desse projeto é o genocídio de jovens negros, com um assassinato a cada 23 minutos; 63 jovens negros assassinados por dia no Brasil.

No imaginário social, esse projeto também aparece em uma leitura de passado que omite a violência e a resistência à escravidão, encoberta as estratégias de branqueamento e silencia vozes e memórias da população negra. Becos da Memória estava finalizado em 1988. Foi publicado pela primeira vez somente em 2006, quase 20 anos depois. Quantas dificuldades encontrou Conceição Evaristo para colocar seu romance a serviço de todas nós?

E mesmo que tantas vezes a obra de Conceição seja rotulada como literatura de mulheres negras, em uma tentativa de redução, o que ela produz é literatura. Sua obra ultrapassa as barreiras que tantas vezes confinam mulheres negras a estereótipos. Uma escritora de tamanha grandeza se colocar publicamente como mulher negra, e escrever sobre mulheres negras, nos oferece outro poder do espelho: de defesa daquilo que nos oprime. A escrita se coloca também como luta política para desbravar novas possibilidades de existência, para que caibamos todas e todos.

Maria-Nova sentia que era preciso modificar a vida, mas como? Saiu desesperadamente calma a andar pela favela. Conhecia de cor, de olhos fechados muitos becos, porém alguns ainda eram-lhe estranhos. Mãe Joana nunca gostou que seus filhos fossem muito além da área em que moravam. Tinha medo, muito medo que eles se perdessem, quando estivessem distantes de casa. Maria-Nova, entretanto, furava o cerco. Amava a mãe, mas era impossível não ir ao mundo.
Conceição Evaristo, em Becos da Memória

Ao ler tantas mulheres negras que furaram o cerco, Conceição, Ana Maria, Maria Firmina, Carolina, Francisca, Elisa, Mãe Beata, Sueli, Jurema, Beatriz, Lélia, Geni, Alzira, Mel, Luana, Maria Rita, Charô, Joice, Nathália, Monique, Preta, Maitê, Renata, Cidinha, Djamila, Stephanie, Jarid, Giovana, Jenyffer, Elizandra, Priscila, Lu, Marli, encontramos espelhos que nos permitem reconhecimento e disputa pelas histórias, pelos escritos, pelas vivências. No belíssimo neologismo de Conceição: nossa escrevivência.

Bianca Santana é escritora e jornalista. Doutoranda em ciência da informação e mestra em educação pela Universidade de São Paulo (USP), é autora do livro Quando Me Descobri Negra (Sesi-SP, 2015).

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