Estudante denuncia agressão e racismo em festa da USP

Bárbara Ferreira Santos

Um estudante de Ciências Sociais da Universidade de São Paulo (USP) afirma ter sido vítima de agressão física e de racismo na madrugada de sábado, 11, durante uma festa do Centro Acadêmico XI de Agosto, da Faculdade de Direito da USP, no Largo São Francisco, centro da capital. A entidade estudantil nega a versão do rapaz e diz que investiga o caso.

João Henrique Custódio, de 30 anos, afirma que apanhou de três seguranças quando entrava na festa Cervejada do Peru com mais quatro amigos. Segundo ele, o grupo estava em um apartamento no centro quando viu que havia uma festa perto do local. “Quando chegamos na festa havia barras de metal na rua, como as de eventos da Prefeitura, e ninguém na porta para orientar, então entramos.”

O estudante conta que foi o primeiro a entrar no local e se distanciou do grupo. Segundo ele, os colegas foram barrados depois de entrar, informados que a festa era paga e retirados do local pelos seguranças. “Quando eu voltei para ver por que os meus amigos ainda estavam perto da entrada, fui surpreendido por uma chave de braço de um dos seguranças”, explica. Ele afirma que depois recebeu socos e pontapés na costela e na bacia e que foi jogado contra as grades.

“No início eu achei que eram skinheads me batendo pelo fato de eu ser negro e homossexual, mas não. Eram as pessoas que deviam fazer a segurança da festa”, afirma. “Nenhum dos seguranças conversou comigo, eles já vieram me batendo, tentando me tirar de lá. E, claramente porque eu sou o único negro do grupo, fui o único agredido.”

Thiago Clemente de Amaral, de 31 anos, um dos amigos de Custódio que estavam no local e ex-aluno da Faculdade de Direito, afirma que os seguranças usaram de força física para retirar todos os estudantes da área. “Eles foram brutos com todos, mas usaram força desproporcional contra o João. E os óculos dele ainda foram jogados no chão e quebrados.”

Custódio conta que, quando afirmou aos seguranças que chamaria a polícia, um deles se identificou como policial e chegou a ameaçar o grupo. “Ele disse que a coisa ia ficar grave se chamássemos a polícia.”

A Polícia Militar foi acionada e chegou ao local cerca de meia hora depois, informaram os jovens. Custódio conta que o segurança que se identificou como policial quis conversar reservadamente com os PMs. “Eu fui atrás, porque queria saber o que ele ia falar. Queria que ele se identificasse”, diz. “Ele então se revoltou e disse: Seu negrinho de merda, não se intromete que a coisa vai ficar feia.”

Os amigos foram encaminhados para o 8.º Distrito Policial (Brás), onde Custódio fez um BO. “Não me deixaram incluir racismo porque não tinha testemunha.” Ele fez exame de corpo de delito e aguarda o laudo para abrir um processo.

Centro Acadêmico

Em nota, o XI de Agosto nega a versão de Custódio e afirma que mostrou aos estudantes um alvará da Prefeitura autorizando o uso do espaço público, mas que os jovens se negaram a sair. “Não houve socos. Não houve agressão. Não houve, tampouco, tentativa do lado dele (Custódio) de dialogar conosco”, explica a nota.

Por telefone, o diretor do centro acadêmico Gabriel Beré afirmou que o XI de Agosto investiga o caso.

Ele afirmou que os seguranças da festa foram contratados por meio de uma empresa terceirizada. A diretoria disse que informaria o nome da empresa e dos seguranças, mas não foi localizada novamente até as 20 horas de ontem.

 Leia a matéria:

Hoje nasci negro

Fonte: O Diário

+ sobre o tema

Gordofobia que vem de casa

M. é muito autoconfiante, mas me enviou este email...

Homem que mantinha site contra negros, nordestinos e gays é condenado

A Justiça Federal condenou a seis anos e sete...

Campanha nacional de combate ao racismo é lançada

A Contracs e diversas entidades se uniram à CUT...

Para pesquisadora, mito de ‘país tolerante’ silencia debate sobre racismo na Holanda

Carolina de Assis Patricia Schor, da Universidade de Utrecht, condena...

para lembrar

Fracassa tentativa de acordo para acabar com greve de policiais baianos

por Luciana Lima Terminou sem acordo a reunião que discutiu...

Debate sobre racismo domina entrevista na véspera de City x Tottenham

Técnicos e jogadores das equipes falaram sobre preconceito de...

Skinheads são presos por racismo e agressão a negro em SP, diz polícia

Por: Kleber Tomaz Suposto morador de rua alega que foi...

Angolanos exigem desculpas de Dilma, por assassinato de estudante

Reivindicação foi feita por um grupo de aproximadamente 150...
spot_imgspot_img

Racismo influencia abordagem policial e processo por tráfico de droga

As pessoas acusadas por tráfico de drogas em São Paulo são jovens, negras, pobres e moradoras das periferias. Essa população constitui o alvo da...

Adriana Sousa ganha Prêmio Tese Destaque USP/2023

A pesquisadora Adriana Tolentino Sousa, Doutora em Educação pela Faculdade de Educação da USP, é uma das ganhadoras do Prêmio Tese Destaque USP/2023, na Grande Área...

Estudo mostra que Pará tem 2º maior percentual de negros mortos pela polícia: ‘forma de apagar pessoas que vivem à mercê da vulnerabilidade’, diz...

Um estudo realizado em 8 estados do Brasil em 2022 colocou o Pará com o segundo maior percentual de negros mortos em operações policiais: foram 93,90% dos...
-+=