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“Eu não represento um movimento evangélico de ódio”, diz o pastor Kleber Lucas, um dos líderes da Caminhada em Defesa da Liberdade Religiosa

Em um momento em que recrudesce a intolerância no país, com aumento do nível de violência, a Comissão de Combate à Intolerância Religiosa (CCIR) e o Centro de Articulação de Populações Marginalizadas (CEAP) realizam a 11ª Caminhada em Defesa da Liberdade Religiosa, no próximo domingo, dia 16 de setembro, na Orla de Copacabana, no Rio de Janeiro. À frente dessa caminhada se encontram líderes de distintas religiões, de católicos, a evangélicos, rabinos e babalaôs, em um ato de  promoção ao respeito pelas diferentes crenças, ideias e pensamentos. Encabeçada pelo professor e babalaô Ivanir Santos, a caminhada conta, entre os líderes religiosos, com a participação do padre Fábio de Mello e do pastor Kleber Lucas.

Por Kátia Mello

Pastor Kleber Lucas por Jackson Garcia

O pastor Kleber Lucas é o entrevistado desta semana da coluna Geledés no debate. Com mais de 25 anos de ministério, o pastor da Igreja Batista Soul se tornou uma das principais vozes em torno da liberdade religiosa e já arrebatou cerca de 3,6 milhões de seguidores no Facebook e quase 500 mil no Instagram. No Rio de Janeiro, o líder evangélico saiu em defesa do professor e babalaô Ivanir dos Santos (entrevistado aqui nesta coluna), quando este foi impedido de concorrer ao Senado. Segundo o pastor, o que houve foi “uma armação política” contrária à dinâmica de um líder que reuniu em torno de si vários religiosos em prol da tolerância.

Geledés – A Caminhada em Defesa da Liberdade Religiosa chega à sua 11ª edição em um momento em que se recrudescem as intolerâncias, inclusive as religiosas, e principalmente em relação às religiões afro brasileiras. Como líder evangélico,  como vê esse momento?

Vivemos um momento de muita tensão, de hostilidades e por isso se faz necessária a Caminhada em Defesa da Liberdade Religiosa, como um símbolo de resistência. Nunca foi fácil. As religiões africanas são as que mais sofrem e percebemos isso não apenas no campo religioso, mas também hoje no campo político. Em um horizonte tão incerto, a manifestação pela liberdade religiosa nos traz alento.

“Vivemos um momento de muita tensão, de hostilidades, e por isso se faz necessária a Caminhada em Defesa da Liberdade Religiosa, como um símbolo de resistência. Nunca foi fácil. As religiões africanas são as que mais sofrem e percebemos isso não apenas no campo religioso, mas também hoje no campo político.”

Geledés – Neste sentido, quais iniciativas são necessárias para se impedir ataques a terreiros de religiões afro brasileiras no país?

Em primeiro lugar, é a denúncia mesmo. É um posicionamento efetivo, público, com recurso da Justiça, do Poder Público. Nesse aspecto, o professor e babalaô Ivanir dos Santos (um dos organizadores da caminhada) tem sido um grande bastião. Outras lideranças também têm se posicionado. Como o próprio movimento de arrecadação no Centro Candomblecista de Conceição, no Rio de Janeiro, que se tornou um ato simbólico da resistência de manifestação pública de pessoas que não concordam com esse movimento de intolerância e ódio que impera no Brasil.

Geledés – O senhor considera o professor e babalaô Ivanir dos Santos um bastião e ele é visto como um símbolo do combate ao racismo e defensor dos Direitos Humanos, líder da caminhada pela tolerância da qual o senhor faz parte. Porém foi impedido de concorrer ao senado pelo PPS. Como analisa esse fato?

O babalaô Ivanir Santos é um símbolo forte do combate ao racismo num país, em que a questão do racismo é latente, velada e nefasta. Ele luta, sim, pelos Direitos Humanos. É uma liderança em prol da tolerância, de um grupo do qual eu faço parte com outros líderes religiosos, de matrizes africanas, dos cristianismos católicos, protestantes, pentecostais, da Igreja Luterana, Anglicana, do Islã e do Judaísmo. Ou seja, uma pessoa que faz esse tipo de movimentação com tal abertura religiosa não é alguém que seria aceito facilmente e, por isso, Ivanir incomoda. Seu impedimento político abalou a todos nós. Foi uma trama política contra ele e contra nosso movimento de resistência. Todos sofreram com isso, porque havia uma expectativa em relação à sua candidatura em vários setores: no grupo acadêmico, no movimento negro; de pessoas com um pensamento de maior abertura e de diálogo, de combatentes do racismo e da intolerância. Nesse momento tão delicado em que vive o Brasil, a figura do Ivanir no Senado seria uma representação muito forte e nós a perdemos por uma conspiração política.

“O babalaô “Ivanir Santos é um símbolo forte do combate ao racismo num país, em que a questão do racismo é latente, velada e nefasta. Ele luta, sim, pelos Direitos Humanos. É uma liderança em prol da tolerância.”

Geledés – O senhor visitou no ano passado um terreiro de candomblé, onde cantou e celebrou, atitude considerada polêmica para os evangélicos. Em respostas às críticas, afirmou que iria “repensar a sua caminhada”. Um ano após o acontecimento, o que repensou?

Desde a minha ida ao terreiro de candomblé naquela instalação do Centro Candomblecista de Conceição, comecei a receber ofensas que não pararam até agora. E elas se intensificaram exatamente pelo fato de eu não recuar. Isso é uma forma de repensar a caminhada. É fazer uma movimentação de consciência, de resistência mesmo. É um posicionamento público que reafirma que eu não represento um movimento evangélico de ódio, um movimento religioso de ódio. Então, qualquer manifestação de hostilidade no campo religioso que esteja ligado à fé ou aos interesses políticos que permeiam o ambiente religioso, precisa ser encarada, criticada com um posicionamento efetivo. Nossa caminhada é de fé, do povo, pela etnia e pelo gênero.

Foto: Jackson Garcia

Geledés – O prefeito do Rio de Janeiro, Marcelo Crivella (PRB), bispo licenciado da Igreja Universal, foi acusado de favorecimento a fiéis evangélicos após encontro secreto com 250 pastores. Na ocasião dessa reunião, ele teria dito que o “Brasil evangélico vai dar jeito nessa pátria”. Como vê essa declaração?

Sinceramente eu acho que o prefeito do Rio de Janeiro deveria repensar sua vocação política. Ele se encaixa melhor dentro dos interesses da igreja dele, do rebanho dele. Sempre foi um projeto da igreja dele. A contribuição para a cidade do Rio de janeiro, a questão de gestão pública é mínima, quase inexistente. A fala dele não é apenas um equívoco, mas é um indício de um pensamento, de um posicionamento de exclusividade dentro de um país laico.

Geledés – Como vê as propostas da bancada evangélica que favorecem medidas legislativas como pena de morte, redução da maioridade penal e intervenção federal na segurança pública?

À bancada que se diz evangélica e apoia a pena de morte, a minha pergunta é única: evangélico de quê? Porque não é de Jesus de Nazaré. Não é a mensagem do amor, que Ele pregava, do perdão, da tolerância, da nova chance, de acreditar no ser humano como passível de mudança. Uma bancada que defende essa bandeira não tem compromisso com Jesus de Nazaré, tem outros tipos de compromissos, os políticos, que favorecem seu “guetozinho” religioso. Acho um absurdo isso! O Jesus das Escrituras é um libertador, que veio ao mundo dar o perdão, que veio nos dar a oportunidade de a história ser rescrita.

 Geledés – Parcela da igreja evangélica se sustenta em textos bíblicos para condenar os LGBTI. No entanto, a cada 28 horas, um LGBTI é assassinado no Brasil como crime de ódio. Como responde a esse tipo de situação?

É um tema que precisa ser conversado, que não se esgota porque não existe tolerância, não existe respeito, não existe uma capacidade de sentar e falar sobre o assunto. O Papa Francisco é uma referência para mim nesse aspecto de diálogo. A Igreja Protestante tem muito a aprender com ele sobre o entendimento da humanidade, a compreensão do diálogo entre os homens; o direito de cada um de ir e vir, de ser protagonista de sua própria história. Acredito que seja uma longa estrada que vamos ainda ter que sofrer muito para que exista uma conciliação de ideias e um lugar comum e respeitoso sobre essa pauta. Para mim, esse é o maior desafio de nosso tempo.

“Estamos falando de tolerância, mas, na verdade, o caminho é mais longo; é o desafio de uma convivência respeitosa. Você não precisa acreditar igual para conviver.”

Geledés – E afinal, o que é tolerância?

Estamos falando de tolerância, mas na verdade o caminho é mais longo; é o desafio de uma convivência respeitosa. Você não precisa acreditar igual para conviver. Então a tolerância passa pelo caminho do respeito. Eu respeito a opinião do meu próximo. Eu consigo sentar à mesa com ele e conviver. E isso para mim é fundamental.

Geledés – Como um pastor negro e oriundo de uma família pobre fluminense vê o genocídio de jovens negros das periferias brasileiras?

A questão do genocídio de jovens negros nas periferias é um dado estatístico já denunciado por antropólogos, sociólogos, historiadores e pelo Poder Público. Não é uma hipótese, mas uma confirmação de dados. O que a gente percebe é que uma parte da sociedade e do Poder Público é indiferente a essa realidade. Políticas públicas precisam ser feitas; o Estado precisa estar atento à essa realidade de massacre. Aliás, o genocídio de jovens negros nunca foi estancado ao longo da história do Brasil. Como negro e criado em comunidade, já vi isso de abordagem na favela. Vi pessoas sendo vitimadas na minha infância, na minha adolescência. Genocídio mesmo. E é lamentável conviver com isso em pleno século XXI. Uma conta que não foi fechada ainda com relação aos negros. Precisamos denunciar isso também.

Foto: Jackson Garcia

Geledés – O senhor está em seu terceiro casamento. De que forma responde aos que lhe criticam por isso?

Sim, eu sou um pastor que está no terceiro casamento e a minha resposta aos críticos é que essa é minha história; essa é a minha caminhada. Tenho alegria em ter meus filhos juntos aos filhos da minha mulher, que também está em seu terceiro casamento. Em nossa casa, ao redor de nossa mesa, nos respeitam e respeitam nossa história. Ninguém casa para se separar. A gente tem planos e projetos. A vida é feita também de percalços, de situações que se inviabilizam. Duas gerações foram inviabilizadas. Hoje tenho um casamento maravilhoso com a Daniele e vivemos a nossa história fragmentada, reconstruída, restaurada, identificada com muitas histórias brasileiras. Se para religiosos fundamentalistas, a nossa vida não serve, não é a referência, para muita gente que perdeu e que fracassou, começar de novo é uma esperança através de nossa vida;

Foto: Jackson Garcia

Geledés – O senhor foi vencedor do Grammy Latino de Melhor Álbum de Música Cristã (Língua Portuguesa). Conte-nos como a música entrou em sua vida e sua ligação espiritual com ela.

Em 2008, recebi a primeira indicação ao Grammy. Fui para Las Vegas, mas não ganhei o prêmio. Só a indicação já foi uma grande honra por poder estar lá. Em 2013, tive a grata segunda indicação e desta vez levei o prêmio de melhor álbum de música gospel da língua portuguesa. Para mim, a premiação simboliza a minha história com o Brasil e a música. Não posso me esquecer da minha origem na favela e falo ao mundo sobre a minha trajetória, porque é lá onde nasceu a minha música. Fui criado ao som dos múltiplos ritmos brasileiros. Estivesse eu em um ambiente confessional ou não, a música sempre foi uma realidade para mim e um dom que aconteceu em minha vida. Ela expressa a minha confissão cristã. Tive a oportunidade de cantar em coral jovem, onde participei de uma banda, e depois segui meu trabalho solo. Desde 1996 viajo pelo Brasil, sendo que ao todo já são 13 discos de ouro e três de platina (duplo). É uma história muito feliz e sou muito grato por ela. Sou ainda mais grato pelo conteúdo de minha mensagem que é aceito não apenas por grupos cristãos, mas por outras confessionalidades identificadas pela esperança, amor e fé, que de algum modo, todos buscamos.

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