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“Feito com amor, dedicação e o talento de várias pessoas”, diz Lázaro Ramos sobre documentário Bando, Um Filme De:, que dirigiu
Créditos da foto: BANDO, UM FILME DE - LÁZARO RAMOS © Bob Wolfenson

“Feito com amor, dedicação e o talento de várias pessoas”, diz Lázaro Ramos sobre documentário Bando, Um Filme De:, que dirigiu

Lázaro Ramos, em parceria com Thiago Gomes, lança seu primeiro documentário Bando, Um Filme De:,em que remonta às suas origens da dramaturgia cênica baiana, ao contar a história do Bando do Teatro Olodum, que o revelou ao mundo. De forma poética, o filme, que estreia no dia 4 de setembro durante a programação do Encontro de Cinema Negro Brasil, África e Caribe Zózimo Bul, no Rio, mescla arte e militância em 42 depoimentos sobre o mais longevo grupo de teatro negro do País, que completou 28 anos.

por Kátia Mello

BANDO, UM FILME DE – LÁZARO RAMOS © Bob Wolfenson

Nessa entrevista à coluna Geledés no Debate, o ator, diretor, apresentador e escritor, fala sobre como se deu a iniciativa de documentar o Bando e as incríveis revelações de seus participantes. Lázaro Ramos, com mais de 60 prêmios no teatro e na televisão, também conta aqui sobre seus novos projetos, como o documentário O Topo da Montanha, baseado na montagem da peça em que contracena com sua mulher e atriz Taís Araújo.  Ao lado de Taís, Lázaro deu um novo formato à dramaturgia televisiva negra com a série global Mister Brau, sucesso até em Angola, como aqui ele revela. Há 13 anos, ele é também apresentador do programa Espelho, no Canal Brasil.  Sobre sua militância, Lázaro mais uma vez afirma que o portal do Geledés é sua fonte de informação para os assuntos que deseja pesquisar. 

BANDO DE TEATRO OLODUM – FOTO DE DINEY ARAUJO

Geledés –Você estreia na direção de um longa-metragem sobre o Bando do Teatro Olodum. Como surgiu a ideia de dirigir esse documentário e qual a importância do grupo em sua vida?

Há três anos, quando o Bando de Teatro Olodum comemorou 25 anos (hoje está com 28), ele convidou todos os atores que fizeram parte de todas as gerações para fazer uma leitura de seus três textos que compõem aTrilogia do Pelô, que são: Essa É A Nossa Praia, Ó Pai Ó e Bye Bye Pelô. Quando soube dessa oportunidade, resolvi filmar essas leituras. Ao chegar à Bahia, me dei conta que temos o grupo de teatro negro mais longevo da história brasileira e, provavelmente, da América Latina também. Entendi também que cada ator, diretor e técnico do Bando tem uma história de vida artística e pessoal muito relevante e que todas elas contam a trajetória dos últimos 25 anos do teatro negro do Brasil. Então, de forma despretensiosa, comecei a filmar com Thiago Gomes e Susan Kalik. Logo nos primeiros dias, decidimos fazer um documentário, a princípio para dar de presente ao Bando. Mas ao editar, percebemos que havia ali um material muito rico.

O projeto demorou três anos para ficar pronto. Foi feito com amor, com recurso próprio, com a dedicação e o talento de várias pessoas que ou não receberam remuneração ou receberam muito pouco, mas que em nenhum momento fizeram por menos por reconhecer a qualidade e a importância desse trabalho. As dificuldades foram várias. Imagine fazer um documentário desse tamanho?! O que nos deu um respiro foi a entrada do Canal Brasil nos últimos meses. Foi dirigido por mim, financiado por mim e pelo esforço de muita gente. É um trabalho de retorno ao grupo e que tem um nome provocador. O nome é ‘Bando, um filme De:’. O filme cita todas as pessoas justamente para dar esse reconhecimento a cada uma delas, que construiu essa história, e ajudou a construir o Bando.

“Nossa luta é uma constante e isso é o que me entristece. São poucos os momentos de relaxamento. Por outro lado, sinto-me muito inspirado ao retornar à Bahia e ver que há uma nova geração que se posiciona, luta e merece ser escutada. A Bahia é uma terra de muita inspiração, criatividade e potência. É o que me acalenta.” 

Geledés– Como o Lázaro, militante, vê a Bahia de sua infância e como a vê agora?

Falar sobre a Bahia para mim hoje é difícil por estar morando longe, e nesse caso, a afetividade fala mais alto. Eu tenho saudades das coisas que aprendi e das relações do ativismo que estabeleci naquela época. Tenho saudades das pessoas que me ensinaram, das que me inspiraram artisticamente. Então não consigo nunca fazer uma separação entre minha afetividade e minha opinião sobre as dificuldades que Salvador tem. Quando se fala em militância, me preocupo em vários aspectos. Preocupa-me a situação dos blocos afros que são fundamentais para a construção de nossa identidade; a possibilidade de estar no palco dos artistas de teatro, que ainda é uma luta. Nossa luta é uma constante e isso é o que me entristece. São poucos os momentos de relaxamento. Por outro lado, sinto-me muito inspirado ao retornar à Bahia e ver que há uma nova geração que se posiciona, luta e merece ser escutada. A Bahia é uma terra de muita inspiração, criatividade e potência. É o que me acalenta. 

Geledés –O documentário é realizado em parceria com Thiago Gomes. Como foi esse encontro?  E a dupla está fazendo outro documentário em que há a participação de sua mulher, a atriz Taís Araújo. Conte-nos sobre esse projeto.

Thiago já é meu parceiro desde Namíbia, Não!(peça dirigida em 2011 por Lázaro Ramos). Foi o primeiro espetáculo de teatro adulto que dirigi. Depois disso, ele foi assistente de direção e diretor do Espelho(programa no Canal Brasil em que Lázaro entrevista personalidades artísticas) e agora dividiu a direção nesse documentário comigo. Também estamos realizando juntos um documentário sobre O Topo da Montanha(peça, em que Lázaro contracena com Taís Araújo). O Thiago filmou todo o processo, durante quatro meses, e com esse material estamos construindo esse filme. Ele é incrível e temos uma sintonia que tem sido muito importante ao longo desses anos. Cineasta baiano, talentoso e querido por quem eu torço muito.

BANDO, UM FILME DE – CABARE DA RRRAÇA – FOTO DE MARCIO LIMA

Geledés– A peça O Topo da Montanha, que faz alusão ao último grande discurso de Martin Luther King (I’ve Been to the Mountaintop) ganhou repercussão internacional. Ao falar sobre o texto, você disse que ele o “perseguiu por dois anos”. Como faz as escolhas das peças e dos filmes em que quer trabalhar?

O Topo da Montanhanos perseguiu. Antes dessa peça, não fazia teatro por cinco anos. Fui formado no palco. Comecei a fazer teatro com dez anos e para mim ele é um lugar sagrado. Não consigo ir para o palco se o assunto não mobilizar meu coração, e O Topo da Montanhafez isso comigo. Então a escolha vem daí.  O teatro é totalmente paixão, não tenho outro critério. Tanto é que tenho feito pouco de uns anos para cá. Eu fui acostumado a fazer um tipo de teatro no Bando de Teatro Olodum, e durante esses anos fiz peças que foram fundamentais. Tenho muito orgulho da minha carreira teatral, então tenho muitos limites para aceitar fazer uma peça. Em relação aos outros trabalhos, os escolho pela relevância e pelo prazer artístico da composição dos personagens, e isso serve tanto para a televisão, quanto para o cinema. E pelo desafio também. O cinema e a televisão são lugares que não são de tanto conforto para mim. Hoje até são um pouco mais, mas até há pouco tempo isso não acontecia. Até colocar para mim o desafio de aceitar coisas que me fizessem evoluir como artista e, também que me dessem meu sustento.

Geledés-Você está escalado para apresentar o programa Os melhores anos das nossas vidas,com a atriz Juliana Paes. Como consegue escrever livros, dirigir filmes, apresentar programas com a vida de militância?

Parece que tenho muito coisas, mas consigo organizar bem a cabeça e a agenda. Você citou o programa de TV e a militância, mas ainda tem a família, os filhos, meus familiares na Bahia, novos projetos em andamento. A única resposta para isso é que não estou só. Há anos não trabalho sozinho e tenho vários parceiros por dois motivos: porque tem muitos talentos que acho que, do lugar em que estou, posso potencializar. E segundo, porque os projetos ficam melhores quando você consegue descentralizar, coisa que eu não conseguia fazer antes, mas que hoje faço com mais facilidade.

“A eleição, mais uma vez, é muito triste. Sinto os projetos oferecidos pelos candidatos com muita fragilidade. Sinto discursos que são mais para chamar a atenção do que exatamente para criar um acordo nacional entre políticos e população em relação às prioridades. Do jeito que está o Brasil, é mentira dizer que não temos prioridades”.

Geledés– O seriado “Mister Brau” foi a primeira produção brasileira protagonizada por um casal negro e empoderado, em que temas como racismo e feminismo são abordados com humor. Como avalia o impacto do sucesso da série para a população negra brasileira?

Mister Brau até hoje me traz muitas alegrias e fico na torcida para que venham novos projetos similares. Eu recebi, por exemplo, duas teses universitárias sobre o que foi Mister Brau, destrinchando-a  durante o tempo que ela foi veiculada. A série impacta sobre os mais diversos temas, desde a conscientização do racismo até sobre o conceito de elegância, como li em uma dessas teses que escreveram.

Só para se ter uma ideia do impacto, depois do episódio final, que se passou em Angola, uma professora angolana solicitou o episódio de Mister Brau à emissora para fazer exibições a seus alunos nos cinemas de lá. O episódio foi exibido para estudantes de dez escolas em dez cinemas. Eles assistiram ao Mister Brau por entender a relevância daquele episódio final e a força dos personagens na vida deles em Angola. Aqui no Brasil, os assuntos tratados pela comédia foram discutidos pela sociedade. A última temporada tem a (atriz) Dona Ruth de Souza fazendo uma participação. Teve também Mandume, do Emicida, Rincon Sapiência, que deixaram uma marca. Acho que o Brau foi o pontapé para um tipo de dramaturgia que a gente pode e deve fazer.

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Geledés– Estamos às vésperas de eleições, com um país polarizado. Se tivesse que sugerir temas prioritários aos candidatos tanto à presidência quanto em outras esferas, quais seriam?

A eleição, mais uma vez, é muito triste. Sinto os projetos oferecidos pelos candidatos com muita fragilidade. Sinto discursos que são mais para chamar a atenção do que exatamente para criar um acordo nacional entre políticos e população em relação às prioridades. Do jeito que está o Brasil, é mentira dizer que não temos prioridades. A minha prioridade, como sempre, seria a educação. Essa é uma frase que a gente já diz há muitos anos, mas que continua valendo. E é triste ainda ter que dizer que a educação precisa ser prioridade. E falo de educação em todos os níveis e instâncias; da universidade ao primário. O resgate da escola pública é fundamental. Com novas tecnologias, entendendo qual é a melhor maneira de aplicá-las, com estudos e valorização dos profissionais e, naturalmente, destrinchando tudo o que isso gera. Mas não tenho muita fé que será diferente. Acho que ainda passaremos momentos difíceis. 

“O Geledés para mim é alimento. Lugar de ler pessoas que falam coisas que, inclusive, nem sempre refletem o que eu penso, mas que me tiram do lugar de conforto, me fazem produzir uma nova resposta

Geledés– Em seu depoimento por vídeo no aniversário de 30 anos do Geledés, você falou que o portal é sua fonte de informação. Como é isso e em que medida a organização o influencia?

As informações postadas no portal e a curadoria que o Geledés faz são de muita qualidade. Sempre que tenho dúvidas sobre algo, pesquiso espontaneamente no portal do Geledés sobre o assunto. Às vezes também vou direto ali para pesquisar todo tipo de tema. É muito importante ter um lugar onde você possa se alimentar. O Geledés para mim é alimento. Lugar de ler pessoas que falam coisas que, inclusive, nem sempre refletem o que eu penso, mas que me tiram do lugar de conforto, me fazem produzir uma nova resposta. E que bom que o Geledés tenha tantos anos assim. Inclusive vários dos membros do Geledés são pessoas que já fazem parte da história de ativismo e de construção da narrativa de nosso país. 

 

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