“Eu sou Madiba! Sou a voz da igualdade” – A experiência de uma escola de educação infantil no cumprimento da Lei 10.639/03

Hoje tive uma experiência muito significativa. Fui conhecer de perto a Escola Pública Municipal de Educação Infantil (EMEI) Nelson Mandela.

Enviado por Sheila Perina de Souza via Guest Post para o Portal Geledés 

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Foto: Arquivo pessoal/Sheila Perina

A riqueza dos momentos vivenciados na Emei Nelson Mandela contribuíram de forma muito bonita, significativa e intensa na minha formação enquanto pedagoga, mas também me fez sentir representada como parte da humanidade no processo de escolarização. Digo isso pois sinto-me representada como parte da humanidade quando vejo a escola ensinando as nossas histórias, sobre os nossos povos, sobre as nossas culturas, proporcionando uma educação significativa que renuncia ao padrão eurocêntrico de ensino.

Durante a visita aconteceu algo que me marcou muito. Enquanto as crianças brincavam, uma música tocava embalando suas brincadeiras no parque. A princípio, custei a acreditar, mas parei e prestei atenção. E a letra dizia assim:

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Foto: Arquivo pessoal/Sheila Perina

“Foi um grito que ecoou, Axé Nkenda!

A luz dentro de você… Acenda!

Nada é maior que o amor, entenda.

A voz do vento vem pra nos contar

Que na mãe Africa nasceu a vida Pura magia, baobá abençoado (…)

Mandela! Mandela! Num ritual de liberdade

Lá vem a Imperatriz, eu vou com ela

Eu sou “Madiba”! Sou a voz da igualdade”

Era o samba enredo da Imperatriz Leopoldinense! Fiquei emocionada, elas brincavam e o samba enredo homenageava a luta de Mandela.

Nesse momento eu ouvi! Eu vi! a nossa história, a nossa cultura no cotidiano das crianças. Eu compreendi que naquela escola o 20 de novembro acontecia durante o ano todo, e a lei 10.639 não estava apenas atrelada ao discurso, ela era vivenciada!

Durante a visita, por meio das paredes que revelam muito sobre a escola, percebi que naquele espaço as crianças pequenas aprendem sobre a cultura do negro brasileiro, sobre a história do continente africano, sobre os diversos povos indígenas e sobre as questões de gênero. Elas aprendem sobre si mesmas, aprendem sua história. E assim como eu, elas entenderão a importância de sua cultura para a humanidade.

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Foto: Arquivo pessoal/Sheila Perina

Anos atrás, a antiga EMEI Guia Lopes, atual EMEI Nelson Mandela, sofreu perseguições racistas por meio de pichações feitas no muro da escola, em decorrência do trabalho que vinha desenvolvendo sobre a questão racial. Desde então, a equipe pedagógica da escola segue firme desenvolvendo cotidianamente as questões culturais, de gênero e de raça com crianças pequenas. Um dos frutos desse trabalho é a mudança de nome da escola para Nelson Mandela. Mas, os maiores frutos produzidos nessa escola quem receberá somos nós, a sociedade. Pois conviveremos hoje com crianças, e futuramente com adultos mais humanos, conhecedores de sua cultura, conscientes de sua história e que depreendem as contribuições dos diversos povos na história da humanidade. E serão elas e eles que ajudarão a desmitificar aquela “história única” que durante tantos anos nos contaram dentro do ambiente escolar.

*Estudante de pedagogia da Faculdade de Educação da USP. Realizou parte de sua graduação em Angola, na Universidade Lueji A’nkonde . Atualmente desenvolve pesquisas na área de alfabetização  em contextos multilíngues, e é estagiaria do Centro de Referencia de Promoção da Igualdade Racial-CRPIR.

** Este artigo é de autoria de colaboradores ou articulistas do PORTAL GELEDÉS e não representa ideias ou opiniões do veículo. Portal Geledés oferece espaço para vozes diversas da esfera pública, garantindo assim a pluralidade do debate na sociedade.

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