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Expedito e Gildemar: os Dois Candangos e as memórias do pós-abolição em Brasília

No dia 05 de maio de 1962, o jornal Correio Braziliense noticiava na Coluna “Visto, Lido e Ouvido”, de Ari Cunha, o seguinte: “O auditório da Universidade de Brasília se chama ‘2 Candangos’, como homenagem do Reitor aos 2 anônimos que morreram em sua construção. Em homenagem diremos seus nomes: Gildemar Marques, de Bom Jesus, Piauí, 19 anos, e Expedito Xavier Gomes, de Ipu, Ceará, 27 anos”. Assim, há pouco mais de 60 anos, nomeava-se o primeiro prédio da recém-fundada Universidade de Brasília – UnB.

O trecho do jornal acima é uma das poucas referências documentais sobre esses dois trabalhadores negros que foram soterrados durante a construção da Universidade. Forçados ao anonimato, como o colunista faz questão de sublinhar, os nomes de Expedito e de Gildemar não figuram até hoje nas placas que indicam o referido auditório na UnB. Isso entra em encontro a outros lugares de memória na Universidade que reconhecem nominalmente os homenageados, como o próprio Campus Darcy Ribeiro, e os recentes Pavilhões Anísio Teixeira e João Calmon.

Convidados na Inauguração da Universidade de Brasília. Na foto: Darcy Ribeiro e Celso Furtado. Brasília, 1962. Fonte: Assessoria de Comunicação Social, Arquivo Central da Universidade de Brasília.

Aqui, verificamos que Expedito e Gildemar foram condensados e fixados em um nome de origem colonial: candangos. Apontados como figuras heróicas da construção de Brasília, esses “titãs de aço” entregavam suas vidas no processo que transformava cimento em concreto armado, conforme Israel Pinheiro professava em discurso. Sem referências a seus nomes e histórias, o adensamento das subjetividades de Expedito e Gildemar no termo “candango” age com dupla força: desloca o foco de marcadores sociais e étnico-raciais – de Negro para o de Candango (trabalhadores “meta-raciais” de um pretenso país freyriano) – ao passo que reforça o projeto colonial-moderno de seletividade dos nomes dignos de memória social pelos caracteres determinantes da branquitude, apagando assim gente negra e indígena.

Nesse ponto, o resgate das histórias de Expedito e de Gidelmar se constitui a partir do exercício de inserção do Planalto Central nas discussões mais gerais sobre o pós-abolição no Brasil. Pois como verificado em documentos encontrados posteriormente e como inicialmente imaginava, observando suas origens indicadas na coluna de jornal, esses dois trabalhadores eram pessoas negras – com o mais velho (Expedito), por exemplo, nascido há menos de 50 anos do 13 de maio de 1888.

De fato, muitas das produções relativas ao pós-abolição têm foco em experiências da região Sudeste do Brasil, especialmente de Rio de Janeiro e São Paulo. Porém, entendo que a construção dessa narrativa historiográfica, na qual os efeitos do escravismo só seriam sentidos nessas cidades “coloniais” do país, está enredada também na própria história e ideia de Brasília. A saber, um monumento a céu aberto, de um projeto político-nacional moderno, que anistia as famílias mercantes escravistas que converteram suas reservas financeiras em obras públicas e da construção civil. Projeto que se deu desde a antiga capital (Rio de Janeiro) até a nova (Brasília).

Assim, instalou-se no imaginário nacional a ideia da “cidade moderna” que se sobrepõe às experiências das “cidades coloniais”, como se a primeira também não fosse fruto de um projeto contínuo de colonização (interna) do próprio Brasil Central – ou da Amazônia. Mary Karasch, uma das primeiras historiadoras estrangeiras a questionar a análise freyriana sobre o Brasil, discorda dessa perspectiva na obra Before Brasília: Frontier Life in Central Brazil. O trabalho, fruto de décadas de pesquisa em diversos arquivos, aciona os aspectos da colonização e do escravismo negro e indígena em Goiás. Apesar de não abordar o pós-abolição, restringindo-se ao século XVIII e a meados do século XIX, a pesquisa de Mary Karasch é essencial para romper a ideia de uma região sem história antes da fundação de Brasília. Esse dado evidencia a massiva presença negra e indígena no Brasil Central, ressignificando a ideia de “espaço vazio” propagada por discursos coloniais-modernos utilizados constantemente durante a construção da nova capital brasileira.

Revisitar os pequenos rastros deixados por Gidelmar, Expedito e suas famílias – exigindo a presença de seus nomes no auditório – é uma tarefa que assumo aqui para a monumentalização do antirracismo em Brasília, na medida em que se evita o apagamento das histórias da população negra durante o pós-abolição no Distrito Federal. Todavia, o exercício desse resgate esbarra nas limitações e violências do arquivo: o pouco que sabemos através das fontes se resume à tragédia de Expedito e Gildemar e à angústia de uma companheira abandonada pela morte do marido. O documento em questão é a primeira ação impetrada no Tribunal de Justiça do Distrito Federal e Territórios (TJDFT) por Antônia Rodrigues de Souza, viúva de Expedito. Ela ansiava receber as pensões do Instituto de Aposentadoria e Pensões dos Industriários (IAPI), das quais os trabalhadores ligados ao IAPI tinham direito e eram relativas a parcelas descontadas mensalmente de seus salários.

Imagem dos Autos do Processo. Brasília, 04 de abril de 1962. Fonte: Arquivo TJDFT, S306662, fl. 37.

A pedido do juiz, foram anexados ao processo o laudo da perícia onde podemos confirmar a cor desses trabalhadores na única foto registrada dos dois, infelizmente quando já estavam sem vida. Fotografia que optei por ocultar aqui e na tese, tanto por não ter encontrado ainda os descendentes de Expedito e Gildemar quanto por minha recusa em publicizar o único registro de memória desses sujeitos, cujos corpos foram aqui violentados pelo colonialismo – violência essa agora aprimorada no capitalismo contemporâneo. Outra vez, direciono aqui minha atenção aos arquivos, pensando no contexto amplo da história nacional, para destacar dois pontos.

Primeiro: antes do INSS, as aposentadorias eram dadas por Institutos de Aposentadoria e Pensões (IAP) vinculados às respectivas categorias trabalhistas da época. Criados por Vargas, os IAPs se tornaram grandes fomentadores do desenvolvimentismo nacional – especialmente o maior deles, o IAPI. Recolhendo a mensalidade dos trabalhadores da indústria, o IAPI aplicava o montante arrecadado no setor imobiliário, segundo destacou Nilce Aravecchia-Botas. Diversos foram os prédios públicos e complexos habitacionais no Rio de Janeiro, Brasília e outros lugares do país construídos pelo IAPI, de acordo com James Holston. Além das habitações populares destinadas aos trabalhadores, o Instituto agia como uma grande empresa de especulação imobiliária para garantir a rentabilidade do capital retido das folhas de pagamento.

Segundo: até hoje a historiografia não calcula os lucros rendidos ao IAPI sobre as pensões retidas e não pagas às famílias de trabalhadores mortos em serviço. Aqui, o processo de Expedito e de Gildemar é emblemático, uma vez que observei a transferência direta de renda dos salários de trabalhadores para as indústrias da construção civil, além do próprio lucro obtido pelo IAPI através das mortes de trabalhadores que não tinham quem pudesse requerer as pensões, como o caso de Gildemar. Ou seja, dava-se uma atualização da estrutura colonial-capitalista marcante no período escravista, com o acúmulo de capital por meio da produção da morte – acompanhando aqui as reflexões de Joseph Miller, Luiz Felipe de Alencastro e Achille Mbembe.

Por outro lado, ao olhar para o espectro da história social e de trajetórias negras, é importante atentar para a batalha judicial travada por Antônia, esposa de Expedito. Ela requeria o recebimento de Cr$ 645.120,00 – valor obtido a partir da base Cr$ 448,00 vezes as 1440 diárias. Porém, de acordo com a lei, os beneficiários só poderiam receber até Cr$24.000,00. O restante, ficaria retido nos cofres do IAPI. Desse montante do aos beneficiários de Expedito, metade do valor foi destinada à viúva (Cr$12.000), enquanto a outra metade seria dada aos filhos Francisco, Lourival e Luiz; mas por não possuírem ainda a maioridade, os benefícios ficariam retidos em nome do Juiz de Órfãos e Menores de Brasília.

Apesar de tudo, dona Antônia Souza, viúva com três filhos, não cansou de buscar seus direitos. Durante os dois anos do processo, ela se mobilizou para requerer diretamente no IAPI o montante retido. Infelizmente, a ausência de maiores informações em minha busca por Antônia e seus filhos (Francisco, Lourival e Luiz) não me permitem acessar as trajetórias dessa família negra e os desdobramentos de sua história. E, mais uma vez, esbarramos nas violências e arbitrariedades do arquivo e de suas políticas de memória. Em vista disso, faço algumas indagações: Como teriam vivido Antônia e Expedito antes do acidente? Quais eram suas alegrias e trajetórias? Antônia teria ficado em Ipu ou se deslocado à Brasília com os filhos para conseguir dar seguimento ao processo – assim como ocorreu com muitas outras famílias de acidentados?

As respostas para essas perguntas permanecem em suspenso. Para alcançá-las, é necessário localizar e dialogar com seus descendentes. Nessa ausência da materialidade das referências de arquivo, para além da tragédia, podemos extrapolar os limites da disciplina histórica. Abrindo espaços à imaginação, seria possível recriar as trajetórias de Gildemar e de Expedito, Antônia e seus filhos através da construção ficcional, como sugere Saidiya Hartman em Vênus em dois atos. Um exercício que nos permitiria enxergar a vida dessas pessoas em seus diferentes momentos: de festa, de alegria e de cumplicidade humana na tragédia, por exemplo.

De todo modo, são inúmeras e diversas as histórias de gente negra no pós-abolição no Distrito Federal, tanto daquelas que já estavam na região de Goiás quanto das que migraram posteriormente para Brasília, na busca por novas oportunidades de vida. Esses sujeitos, aqui tratando especificamente de Expedito e de Gildemar, não devem ficar resumidos ao completo anonimato histórico ou apenas figurar nessa sub-homenagem aos ditos “trabalhadores candangos anônimos”, tal como professava Darcy Ribeiro, ao lado de Celso Furtado e Anísio Teixeira, no discurso de inauguração da UnB. São pessoas negras que têm nomes, histórias, anseios e projetos de vida que constituem os meandros da História do Brasil – de nossa história – e que precisam ser cada vez mais visibilizadas na historiografia e no próprio ensino de história para reforçar os compromissos de uma educação e letramento histórico antirracista.

Assista ao vídeo do historiador Guilherme Oliveira Lemos no Acervo Cultne sobre este artigo:

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Nossas Histórias na Sala de Aula

O conteúdo desse texto atende ao previsto na Base Nacional Comum Curricular (BNCC): 

Ensino Fundamental: EF09HI04 (9º ano: Discutir a importância da participação da população negra na formação econômica, política e social do Brasil); EF09HI18 (9º ano: Descrever e analisar as relações entre as transformações urbanas e seus impactos na cultura brasileira entre 1946 e 1964 e na produção das desigualdades regionais e sociais).

Ensino Médio: EM13CHS503 (Identificar diversas formas de violência (física, simbólica, psicológica, etc.) suas principais vítimas, suas causas sociais, psicológicas e afetivas, seus significados e usos políticos, sociais e culturais, discutindo e avaliando os mecanismos para combatê-las, com base em argumentos éticos).

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