segunda-feira, fevereiro 6, 2023
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Onde estão corpos trans na historiografia brasileira?

Os/as pesquisadores/as de Clio têm sido tensionados/as ao longo dos anos a escrever sobre o mundo de modo que ultrapassem a perspectiva disciplinar. Isto é, historiadores/as têm buscado estender o diálogo com outros campos do conhecimento para construção de um fazer que incorpore  novos olhares e novas problematizações, analisando a sociedade em sua multiplicidade. 

Nesse sentido, surge a problematização sobre o chamado silêncios de clio, que remete a ausência de narrativas historiográficas sobre a temática LGBTQIA +, em especial as experiências  trans, travestis e transexuais. Diante disso, pergunto: onde estão as pessoas trans, travestis e transexuais na historiografia brasileira? 

Antes de continuarmos nosso percurso é preciso explicar que pessoas trans são aquelas que não se identificam com seu sexo biológico, mas com um gênero diferente daquele que foi atribuído antes ou depois do nascimento. Cis são pessoas que se identificam com a designação de gênero que lhes foram dadas. 

Historicizar as experiências trans implica narrar trajetórias individuais e coletivas por meio de uma abordagem que torne visível os aspectos sociais, econômicos, políticos e culturais que produzem corpos-sexuados que tem na cisheterossexualidade a matriz que confere a inteligibilidade  aos gêneros, conforme destaca Letícia Nascimento no livro Transfeminismo. Uma das primeiras elaborações teóricas sobre transfeminismo no Brasil foi realizada pela pesquisadora Jaqueline Gomes de Jesus que conceituou a proposta  como um movimento intelectual e político, compreendido simultaneamente como uma filosofia e uma prática que coloca as experiências trans no centro das análises. 

Em termos de produção histórica, destaco o trabalho do historiador Elias Veras, no livro Travestis: carne, tinta e papel, cuja pesquisa focaliza travestis de Fortaleza-CE, nas décadas de 1970 e 1980. Ao perguntar quando estes corpos se tornaram visíveis, Veras demonstra que, no período analisado, o carnaval foi um momento importante no processo de constituição de subjetividades dissidentes, já que era o momento quando pessoas trans apresentavam novas performances do feminino. No entender do autor, as práticas realizadas durante o carnaval favoreciam a criação de um lugar heterotópico, ou seja, um campo de possibilidades de múltiplas existências. Em suma, o  pesquisador  conclui  que a  identidade travesti surge como uma nova configuração de gênero, sexualidade e corpo, questionando a normativa binária homem-mulher naturalizada como única possibilidade de existência.

A partir desse trabalho podemos dizer que os agenciamentos trans realizados por meio da vestimenta e da construção de gênero podem ser concebidos como práticas de si  que  desafiam os modos de existência cisheteronormativos. Essas ações expressam resistências frente aquilo que é imposto, revelando uma necessidade de demarcação e um desejo de singularização. As experiências trans promovem uma pane no sistema de semelhanças e oposições da cisheteronormatividade, já que questionam a concepção de corpo natural e imutável, identificado com o padrão cis-masculino ou cis-feminino, ou seja, de homens e mulheres ditos “de verdade”. Isso porque a definição de gênero não se reduz ao corpo biológico, mas se inscreve nas possibilidades de construir novos significados por meio das performances e das transformações corporais. 

Além disso, esse aspecto construtivo sobre o gênero foi acirrado com o avanço das técnicas de farmacopornografia, conceito cunhado por Paul B. Preciado, que diz respeito ao uso de medicamentos que aumentam o desempenho  ou controle sexual como hormônios, a pílula do dia seguinte, Viagra, entre outros, bem como a disseminação da indústria pornográfica. Para o autor, essas transformações culturais e tecnológicas do século 20, relacionadas à remodelação dos corpos, colaboraram para  fissurar o discurso biologizante sobre o corpo e o sexo. O que em última instância  revela  o caráter ficcional e fragmentado das identidades de gênero e das performances sexuais.

Compreender essa construção significa também descrever como as formas de controles e as práticas de exclusão incidem sobre as pessoas trans. Por exemplo, no campo da medicina, muitas vezes essas existências são concebidas como exóticas e estranhas. Essa abordagem se expressa nas violências transfóbicas que ocorrem em inúmeros consultórios. Isso favorece que muitas pessoas transgêneras façam uso de hormônios sem acompanhamento médico, acarretando riscos à saúde. Tratando-se de pessoas negras, a pesquisadora Megg Rayara, em seu o artigo “Por quê você não me abraça? Reflexões a respeito da invisibilização de travestis e mulheres transexuais  no movimento social de negras e negros”, discute que, sob a vigilância constante da polícia, a travestilidade negra aparece associada a prostituição, a malandragem, a pobreza, ou seja, envolta pela violência física e simbólica.

Foto 1 – Grupo Transhow, Maceió, AL, 2021. Foto: Acervo Projeto “Acervos, Afetos e Memórias das lutas LGBTQIA+ em Alagoas” (GEPHGS/UFAL)

Outra expressão dessa violência diz respeito de quando o Estado nega à autonomia de intervir em seus próprios corpos.Trata-se de uma prática transfóbica pautada em discursos moralistas e patologizantes. Essas análises permitem perceber que a crítica ao modelo cisgênero precisa tornar visível os discursos e as relações de poder que produzem exclusões, bem como as práticas de resistências. 

Ao perguntamos onde estão os corpos trans na historiografia brasileira, questionamos os silenciamentos, as invisibilidades, as exclusões, a violência transfóbica e racista da sociedade. Daí a necessidade de criarmos nossas próprias histórias, protagonizarmos o verbo e ocuparmos os espaços públicos. É preciso gritar contra o silenciamento e inventar novas formas de (re)existir.

Assista ao vídeo de historiador/a Harmie Alexandre Silva no Acervo Cultne sobre este artigo:

https://www.youtube.com/watch?v=X13oM6Yulpo

Nossas Histórias na Sala de Aula

O conteúdo desse texto atende ao previsto na Base Nacional Comum Curricular (BNCC): Ensino Médio: EM13CHS502 (Analisar situações da vida cotidiana, estilos de vida, valores, condutas etc., desnaturalizando e problematizando formas de desigualdade, preconceito, intolerância e discriminação, e identificar ações que promovam os Direitos Humanos, a solidariedade e o respeito às diferenças e às liberdades individuais); EM13CHS502 (Analisar situações da vida cotidiana, estilos de vida, valores, condutas etc., desnaturalizando e problematizando formas de desigualdade, preconceito, intolerância e discriminação, e identificar ações que promovam os Direitos Humanos, a solidariedade e o respeito às diferenças e às liberdades individuais).

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