quinta-feira, fevereiro 9, 2023
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A coleção africana do Museu Nacional de Belas Artes do Rio de Janeiro

Ao acessar a plataforma virtual do Museu Nacional de Belas Artes do Rio de Janeiro (MNBA), encontramos um breve texto de apresentação da coleção africana pertencente ao acervo. Apesar da coleção africana fazer parte da instituição há 58 anos, ela se encontra na reserva técnica desde 2003. Justamente no contexto da implementação da Lei 10.639/03, que estabeleceu as diretrizes da Educação Nacional para incluir no currículo oficial a obrigatoriedade do ensino da história e cultura africana e afro-brasileira. Nesse sentido, o objetivo deste artigo é refletir sobre a biografia dos objetos a partir das pistas deixadas no site, no intuito de compreender como se deu a montagem da coleção e em qual conjuntura realizou-se esse agenciamento.

Sobre o contexto histórico, ocorreu nos anos iniciais da década de 1960, durante o processo de independência das nações africanas, quando o governo de Jânio Quadros (1961) anunciou a criação da Política Externa Independente como um plano político que visava contribuir com o desenvolvimento das relações comerciais do Brasil com os países do oeste africano. Para tal, em 1961, criou-se o Instituto Brasileiro de Estudos Afro-Asiáticos (IBEAA). No mesmo ano, foi organizada uma comissão de estudos de assuntos africanos ligados ao Centro de Estudos Afro-Orientais (CEAO) da Universidade Federal da Bahia (UFBA) e foram inauguradas embaixadas nos países de Gana, Senegal e Nigéria. Além disso, o presidente nomeou o seu oficial de gabinete, Raymundo Souza Dantas, um homem negro, para ser diplomata na embaixada em Gana. Na mesma comissão, o escritor branco Gasparino Damata serviu como adido de imprensa, entre 1962 e 1963, e exerceu, paralelamente, o papel de colecionador de arte africana.

Comunidade Tá-bom. Raymundo Souza Dantas, de terno preto; Gasparino Damata, em pé, atrás do embaixador. Fonte: Arquivo Raymundo Souza Dantas, Santo André/SP.

Nesta ocasião, Gasparino Damata percorreu alguns países da costa Ocidental, entre eles, Nigéria, Benim (antigo Daomé), Togo e Costa do Marfim, e publicou suas narrativas de viagem na imprensa brasileira, principalmente no jornal Correio da Manhã, em uma coluna intitulada “Notas à margem do Tempo”. Essas notas tratavam de assuntos diversos, relatando, em primeira pessoa, as experiências vivenciadas durante suas andanças pelo continente. Na interpretação do próprio Damata, seus escritos tratavam-se de uma obrigação assumida por ele de descortinar a África inventada nos discursos ocidentais: “A África é muito diversa do que esperam os que a veem só através de livros – muito diversa e muito mais fascinante” (Correio da Manhã, 23/08/1963). Em uma outra nota (Correio da Manhã, 24/08/1963), Damata também comenta que a África ainda não foi descoberta pelos brasileiros, e a maioria dos pesquisadores que vão à África se preocupam mais com a sobrevivência da África na cultura brasileira do que propriamente com a realidade política das sociedades africanas.

Também na imprensa, em especial no Jornal do Brasil, Gasparino Damata publicou sobre o processo de compra dos objetos africanos pertencentes à sua coleção e quais eram suas concepções de arte africana. Se, por um lado, Damata reconhecia que a África não era homogênea, por outro, se referia aos objetos africanos com conceitos eurocêntricos, hierarquizantes e carregados de juízos de valor. Utilizava termos como: “primitivo”, que foi historicamente utilizado para distinguir as sociedades ditas “civilizadas” das sociedades que tinham outros padrões de organização e relação com a natureza; “tradicional” e “autêntico”, que por definição se opõe à ideia de modernidade; “tribal”, ou seja, uma arte produzida para ser utilizada em contextos ritualísticos; “anônimo”, e portanto, sem assinatura. Além de utilizar de maneira equivocada a categoria “universal”, definindo a cultura material africana como uma arte única, global e compreendida por todos.

Ademais, Damata idealizou-se como um conhecedor de arte africana e, desse modo, uma autoridade legitimada a falar também sobre os sujeitos de África. Simultaneamente, num jogo de imagem e contra-imagem, engendrou a figura do africano como “selvagem”, porque, para ele, os africanos não tinham consciência do que produziam artisticamente. Tal percepção está presente numa nota publicada na imprensa (Jornal do Brasil, 20/12/1963): “das suas mãos rudes saem as máscaras e os ídolos sagrados que as sociedades secretas lhes encomendam e que são, sem que eles saibam, verdadeiras obras de arte”.A dificuldade do colecionador em ver os africanos como artistas possivelmente se justifica por conta dos resquícios evolucionistas que perduraram no imaginário ocidental. Pois, enquanto os artistas ocidentais foram caracterizados como um dos principais expoentes do processo civilizatório, os africanos eram suas antíteses – eles eram representados como seres incultos, infantis, iletrados, possuidores de instrumentos e técnicas rudimentares. Portanto, eles não teriam fala própria, necessitando da mediação de um adulto/de um branco/de um civilizado, assim como Gasparino Damata se percebia e se projetava na imprensa, como podemos ver nesta fotografia publicada no Jornal do Brasil.

O escritor e as imagens: Gasparino Damata, escritor e jornalista, explica as imagens africanas. Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 05 dez. 1963. Fonte: Acervo pessoal da autora.

Analisando a relevância das obras pertencentes ao conjunto de objetos africanos adquiridos durante as viagens, a máscara Geledé (Iorubá), na concepção de Damata, era a mais valiosa. Em suas palavras: “uma das peças mais impressionantes de toda a arte primitiva africana é a máscara cerimonial geledé (às vezes uma máscara leva anos para ser substituída por outra) e por esta razão torna-se a mais procurada pelos colecionadores particulares e museus” (Jornal do Brasil, 20/12/1963). Instruindo outros colecionadores a adquiri-la, na mesma nota diz que é possível consegui-la em algum vilarejo ou até mesmo nos mercados de peças das grandes cidades da África Ocidental, porque “o pobre tem fome e vende os seus objetos de estimação e culto para matar a fome”.

Máscara Geledé (sem identificação autoral). Fotografia: autoria desconhecida. Fonte: Arquivo Histórico MNBA.

A respeito da maneira como adquiriu as peças, Gasparino Damata sustenta que as conseguiu lançando-se no interior do continente, nos vilarejos mais distantes, no coração da floresta, em regiões áridas, quase inabitáveis, utilizando transporte nativo. A partir de um discurso aventuresco, também afirma que enfrentou uma série de perigos no interior do oeste africano para encontrar obras de qualidade e, numa das viagens, na cidade sagrada de Ketu, no alto Daomé, acabou contraindo malária e disenteria. Parece que o objetivo de Damata em acentuar as dificuldades enfrentadas era valorizar ainda mais as peças. No mundo das artes e das coleções, tal como sinaliza James Clifford no artigo Colecionando arte e cultura, acredita-se que colecionar objetos pertencentes a civilizações antigas, de preferência desaparecidas ou inacessíveis, é mais recompensador. Isto é, quanto mais difícil conseguir um objeto, maior é o seu valor no mercado de arte.

No entendimento de Damata, as esculturas compradas em feiras eram produzidas em série e, por isso, assumiam a categoria de souvenir, sem valor museológico. Por interessar-se por obras de artes consideradas “autênticas”, ele dizia não comprar os objetos em mercados, pois as cópias faziam desses objetos arte comercial, preferindo obras “tradicionais”, adquirindos-as diretamente nas “tribos” africanas. Na encenação da artificação dos objetos africanos, havia um esforço de Damata em estabelecer vínculos com um passado original e único, tal como fora idealizado pelo colonialismo. Ademais, na tentativa de valorizar financeiramente as peças africanas adquiridas durante suas viagens, Damata destituiu suas funcionalidades a partir de um discurso racista, como uma prática histórica utilizada pelo mercado de arte.

Gasparino Damata regressou ao Brasil em meados de 1963 e expôs a sua coleção – composta por esculturas, máscaras, joias, tecidos e tapeçarias oriundas dos povos Baule, Dan, Senufo, Dogon, Iorubá, Bamana, Ashanti e Fon – em diversos museus e centros culturais das principais capitais do país, sob o patrocínio do Jornal do Brasil. No Rio de Janeiro, de 12 a 31 de dezembro de 1963 no Museu Nacional de Belas Artes; em seguida, a coleção foi exposta em Salvador, entre 19 e 29 de fevereiro de 1964, no CEAO. Também expôs no Instituto Joaquim Nabuco de Pesquisas Sociais, em Recife, em março de 1964, com incentivo de Gilberto Freyre. Por fim, a coleção foi comprada e integrada ao acervo do MNBA, por 2 milhões de cruzeiros, abaixo do preço avaliado quando chegou ao Brasil (10 milhões de cruzeiros), na condição do nome do colecionador ser atribuído ao acervo. 

Na época, o museu era dirigido pelo crítico de arte José Roberto Teixeira Leite, um homem branco, que estava envolvido em uma série de eventos sobre arte negra e arte africana. Entre eles: o curso Introdução à Realidade Africana, realizado entre os dias 20 de março e 12 de abril de 1962 no MNBA, em parceria com o IBEAA; a idealização e inauguração da Sala Especial de Arte Negra, no terceiro andar do museu; o curso de Introdução ao Teatro Experimental do Negro (TEN), em comemoração ao 20º aniversário da companhia teatral, realizado em outubro de 1964 na instituição, em diálogo com Abdias Nascimento; a Exposição de Arte Negra Africana, ocorrida entre os meses de setembro e outubro de 1964 com obras africanas do Museu do Instituto Fundamental da África Negra, do Senegal, como comemoração da visita do presidente da República do Senegal, Léopold Sédar Senghor, ao Brasil. Entre outras práticas descoloniais consideradas pioneiras na instituição, com intuito de ampliar as discussões patrimoniais para além dos discursos oitocentistas que o MNBA vinha evocando desde a sua criação, em 1937.

Após a venda da coleção africana para o MNBA, Gasparino Damata passou a atuar como negociador de obras de arte, ou seja, as experiências no outro lado do Atlântico serviram como instrumento de ascensão, prestígio e poder em sua carreira. Também foi nesse encadeamento que Damata foi convertido em uma autoridade “conhecedora” de arte africana – ainda que baseado em uma leitura eurocêntrica sobre a África. Este processo pode ser interpretado como encenação e teatralização do sistema de arte, dos intercâmbios e circulação das formas simbólicas do mundo da arte.

Como apresentado, os objetos dessa coleção possuem uma história, uma trajetória e uma biografia. Na rota do Atlântico, os objetos atravessaram da costa africana para o Brasil, do mundo dos artefatos para o mundo das artes e dos museus, como resultado das relações políticas, econômicas e interculturais, e das próprias necessidades do mercado. Cabe, portanto, aos novos pesquisadores construir outras narrativas para essa coleção, incentivando, inclusive, que o MNBA retire as obras africanas da reserva técnica e as coloque em exibição para o público.

Assista ao vídeo da historiadora Gabrielle Nascimento no Acervo Cultne sobre este artigo:

YouTube video

Nossas Histórias na Sala de Aula

O conteúdo desse texto atende ao previsto na Base Nacional Comum Curricular (BNCC): 

Ensino Fundamental: EF69AR33 (6º ao 9º ano: Analisar aspectos históricos, sociais e políticos da produção artística, problematizando as narrativas eurocêntricas e as diversas categorizações da arte (arte, artesanato, folclore, design etc.); EF69AR34 (6º ao 9º ano: Analisar e valorizar o patrimônio cultural, material e imaterial, de culturas diversas, em especial a brasileira, incluindo suas matrizes indígenas, africanas e europeias, de diferentes épocas, e favorecendo a construção de vocabulário e repertório relativos às diferentes linguagens artísticas).

Ensino Médio: EM13CHS102 (Identificar, analisar e discutir as circunstâncias históricas, geográficas, políticas, econômicas, sociais, ambientais e culturais de matrizes conceituais (etnocentrismo, racismo, evolução, modernidade, cooperativismo/desenvolvimento etc.), avaliando criticamente seu significado histórico e comparando-as a narrativas que contemplem outros agentes e discursos); EM13CHS104 (Analisar objetos e vestígios da cultura material e imaterial de modo a identificar conhecimentos, valores, crenças e práticas que caracterizam a identidade e a diversidade cultural de diferentes sociedades inseridas no tempo e no espaço).

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